Fora da pista (ou da vista)

Fórmula 1 – Época de 2016

Fora da pista (ou da vista)

O “Paddock” é um local muito curioso, típico do desporto automóvel. Começou por ser o espaço onde os carros eram preparados para as corridas, visto naquele tempo não existirem as fantásticas instalações actualmente disponíveis em todos os circuitos do mundo. Qualquer lugar servia, desde que tivesse espaço para colocar os carros, ferramentas e toda a parafernália de equipamentos necessários para a preparação dos mesmos. Naquele anos áureos do desporto automóvel, muitas das vezes – quase sempre – as corridas eram disputadas em locais ermos, desprovidos de qualquer tipo de conforto, ou segurança.

As grandes equipas daquela época, a Alfa Romeo, a Maserati, a Mercedes e a Auto Union, começaram a levar para os circuitos autocarros transformados, cada vez mais evoluídos, que acompanhavam as camionetas que traziam os carros de corrida, as peças sobressalentes e os mecânicos. Eram as instalações dos pilotos, dos chefes de equipa e, por incrível que possa parecer, das cozinhas e seus “maestros”. Os “paddock” evoluiram, como tudo evoluiu no desporto, especialmente no desporto motorizado e nos automóveis.

Hoje em dia muitos circuitos, nomeadamente os citadinos, apresentam óptimas condições de conforto, desde o alojamento até à alimentação, e mesmo no que respeita ao tratamento das roupas dos membros das equipas e aos fatos dos pilotos. Este conjunto de veículos de grande porte assemelhava-se aos circos dos finais do século XIX e do início do século XX, antes dos grandes circos europeus passarem a deslocar-se de comboio. Assim, após o fim da Segunda Guerra Mundial, mesmo antes da instituição do Campeonato do Mundo, apareceu o Circo da Fórmula 1. Com o passar dos anos, e o aparecimento, em meados da primeira década desde século, de corridas cada vez mais longe dos circuitos tradicionais europeus – onde as primeiras corridas tiveram lugar – o circo tem tendência a desaparecer, ou a diminuir de tamanho.

Mas o “paddock”, pelo contrário, cresceu e aburguesou-se, continuando a ser muito importante, principalmente nos eventos que têm mais do que uma corrida. A mistura de diversos tipos de carros e pilotos, com os seus patrocinadores, ampliou exponencialmente a importância do “paddock”. É ali que se sabem as notícias, antes de serem notícia, os boatos e os desabafos. Muitas vezes, é no “paddock” que os pilotos de uma equipa são contactados por elementos de outras equipas, para mudarem de carro, assim que estejam disponíveis, ou mesmo antes, assim haja interesse e dinheiro. Também é o local onde as grandes marcas, que apoiam as equipas, fazem publicidade, com recurso a bonitas modelas, que circulam e posam para as fotografias de um pequeno número de jornalistas e de pessoal da Imprensa especializada, misturadas com alguns papalvos e penetras que apenas estorvam quem tem de trabalhar.

Gene Haas, o milionário norte-americano, que tem duas equipas de competição – uma nos Estados Unidos (a Stewart-Hass, na classe NASCAR) e outra na Fórmula 1 (desde o início desta temporada) – recorreu ao “paddock” para esclarecer todas as suspeitas.

A Haas F1 Team a todos tem espantado, inclusivamente os seus próprios dirigentes. Depois de um sexto lugar na Austrália, seguido de um quinto na Malásia, tudo parecia bem na equipa, mas no “paddock” houve quem não visse o seu sucesso com bons olhos. O mínimo que lhe chamaram foi “equipa B da Ferrari”. E foi nessa altura que Gene Haas achou que era chegado o momento de dizer algo. Sem “papas na língua” começou por dizer aos seus detractores que podiam agarrar em todas as peças de um Ferrari e com elas fazer um carro, que nunca seria competitivo, tal a sua complexidade, e apresentou uma lista exaustiva das partes fabricadas pela Haas. Concluiu com um comentário sarcástico, sem se dirigir a ninguém em particular, mas visando as equipas do fim do pelotão e que estão na Fórmula 1 há já alguns anos. Gene Haas referiu que talvez se sentissem bem com o seu estatuto – estão “gordas” e sentem-se confortáveis onde se encontram – sem entenderem muito bem o que é o desporto automóvel.

A autorização para a Haas F1 participar no campeonato foi concedida em 2015, mas os seus dirigentes – conhecidos por não se importarem de perder tempo com os detalhes, como receita para o sucesso – preferiram esperar mais um ano, apostando em testes e simulações virtuais para terem a certeza que seriam competitivos desde a primeira corrida.

E competição foi o que não faltou no Grande Prémio da China, em Xangai, no passado dia 18. Houve de tudo um pouco, à moda antiga. Duelos roda com roda, quatro carros a disputarem uma curva, ultrapassagens em velocidade de ponta e posições perdidas nas travagens, estratégia, drama e, como não podia deixar de ser, vencedores e vencidos. Resta saber se foi um facto isolado, fruto de um circuito com excepcionais condições de ultrapassagem, com alguns favoritos a não estarem tão bem como de costume, ou se é o prelúdio daquilo que todos estávamos à espera: o regresso da verdadeira Fórmula 1, como os fãs tanto desejam.

Veremos este fim de semana em Sochi, na Russia, como se desenrolarão os acontecimentos.

Manuel dos Santos

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