Jornal O Clarim

Semanário Católico de Macau

E se a primeira causa fosse a Acção Pura?
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Filosofia, uma dentada de cada vez (80)

E se a primeira causa fosse a Acção Pura?

Os cinco modos de São Tomás acabam como respectivamente se segue:

1– Primeiro modo: o que moveu o Imóvel e a Acção Pura.

2– Segundo modo: a Primeira Causa Eficiente.

3– Terceiro modo: o Ser Necessariamente Existente.

4– Quarto modo: a Perfeita Verdade, Bondade e Beleza.

5– Quinto modo: o Governo da Suprema Inteligência.

São Tomas explica que cada uma destas conclusões descreve aquilo a que chamamos “Deus”. Além disso, todos os cinco modos podem ser resumidos na declaração de São Tomás de que Deus é “ipsum esse subsistens” (ver Suma Teológica). Deus é puro acto de ser; Ele é ser em si mesmo. Esta conclusão filosófica coincide perfeitamente com a revelação sobrenatural feita por Deus a Moisés sobre o Seu nome. Relembramos que no Livro do Êxodo (3:13-14) Moisés perguntou a Deus qual era o Seu nome, e Ele respondeu: “Eu Sou o que Sou” (ou “Eu Sou Quem Sou”); “Eu sou Eu próprio” (em Hebreu, “YHWH” – o nome está escrito sem as suas vogais por respeito para com o Seu nome).

Partindo do facto de que Deus é puro acto de ser, podemos inferir muitos dos atributos divinos. Anteriormente estudámos os conceitos de acção e potência (ver FILOSOFIA, UMA DENTADA DE CADA VEZ, nº 29). Agora existe uma relação entre a potência e a acção, em que a potência limita a acção. Deixem-nos explicar isto com um exemplo simples: Tomemos dois alunos que têm potência (potencial) para aprender Física. O que cada um realmente aprende depende da capacidade de cada um. O que se aprende depende (está-se mais ou menos limitado) do potencial de cada um. Assim sendo, o conceito “potência” também implica “limite”.

Vamos aplicar isto a Deus: a conclusão de que Deus é Acção Pura revela que n’Ele não há mais ou menos potencial, pois não há nada que O limite. O facto de Deus ser Acção Pura implica que Ele é infinito. Como é infinito, é incomensurável. Não está limitado no espaço e no tempo. Deus não é limitado pelo espaço. Ele está em toda a parte. Não está aqui ou ali, ou num lugar específico. A razão prende-se com o facto de ser espírito. Apenas os seres materiais estão limitados a um único lugar. Outra razão para Deus estar em toda a parte é Ser. Assim, onde houver Ser (mesmo no meio dos anjos) a sua influência está presente.

Também já dissemos que Deus não está limitado pelo tempo. Segundo Aristóteles, o “Tempo” é “numerus motus secundum prius et posterius” (“a medição de movimento/mudança, de acordo com o ‘antes’ e ‘depois’”). Relembramos que o “movimento” ou “mudança” é a passagem da potencialidade ao acto. Mas Deus é Acção Pura. Assim, não há movimento nem mudança em Deus. E não havendo movimento nem mudança, não há nada para ser medido. Deus não está limitado pelo tempo, Ele é eterno!

No pensamento de Aristóteles, acção é o mesmo que perfeição. Então, se Deus é Acção Pura, também é pura perfeição, Perfeição Infinita. E isto é confirmado pelos primeiros quatro modos (inspirados por Platão), que concluem que Deus é a Perfeita Verdade, Bondade e Beleza.

A conclusão do quinto modo é que existe uma Inteligência Suprema de Governação. Não estamos pois a falar de um Deus impessoal, mas de um Deus que é omnisciente, todo amor e todo poderoso.

Agora podemos ver até que ponto a Filosofia nos pôde levar na busca do Supremo. No entanto, a Fé tem mais para nos revelar, porque nos ensina que Deus é Pai e quer que assim o chamemos. Mas tal está para além da Filosofia. Daí que iremos começar uma nova série: TEOLOGIA, UMA DENTADA DE CADA VEZ.

Pe. José Mario Mandía

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