Capa 05-12-14

Das coisas nascem coisas

Muita carência, mas poucas oportunidades

O ensino superior do Design Gráfico em Macau remonta aos anos 90. Foi iniciado no território pelo Instituto Politécnico de Macau (IPM). As instalações da antiga Escola de Artes do IPM, que cheguei a visitar e onde fiz o meu exame e entrevista de admissão ao curso de Comunicação Gráfica, estavam situadas num dos pontos mais altos da cidade, a conhecida Igreja da Penha que ainda hoje é visível em muitos pontos da cidade.

Ali cheguei motivado pelo gosto do desenho e pelo apoio impulsionador do meu amigo arquitecto Adalberto Tenreiro (naquela época, professor na Escola de Artes do IPM), que muito contribuiu para a minha envolvência com o design gráfico e o meu ingresso no curso.

O IPM tem crescido e dado a Macau diversos designers, que se juntam a outros profissionais da área, alguns formados no exterior, outros autodidactas que por meios próprios, aliando o talento a uma aprendizagem pessoal, conquistaram o seu lugar e reconhecimento.

Contudo, ao longo de mais de dez anos nesta profissão, também vi alguns “pseudo-designers” que entram no mercado de trabalho mas que não honram a profissão. Pergunto: Se um arquitecto tem que ser formado e ter licença para assinar um projecto, não deveria haver algo semelhante em defesa dos designers na sua profissão e na garantia de um trabalho qualificado e honrado para a cidade e para os seus clientes?

No território, o número de designers, nos diferentes ramos, nomeadamente de comunicação gráfica, é elevado. Sendo Macau um micro-território, estes profissionais carecem, no meu ponto de vista, de mais apoio e oportunidades por parte do Governo, nas suas diversas instituições, dando resposta às necessidades emergentes, assim como por parte dos particulares, dinamizando e criando oportunidades para estes profissionais, que muito podem contribuir para uma imagem local com melhor qualidade.

É importante que existam mais concursos públicos, desde a escala do logótipo até ao edifício, onde o leque de oportunidades seja abrangente aos diversos grupos residentes da família do design. Mais concursos públicos não só gerariam maior oferta de trabalho, como, por si só, também impulsionariam uma melhoria na qualidade do design que vemos pela cidade, pois a própria competição assim o impõe.

Algumas ruas da cidade, como as zonas históricas, poderiam até ter normas e regras para uma identidade visual coerente, gerando assim no conjunto dos diversos estabelecimentos, na sua sinalética e mobiliário urbano, uma coerência. Como a que sentimos, por exemplo, na arquitectura dita “colonial” que se vê na cidade, onde há uma harmonia e continuidade na linguagem, permitindo atenuar o “ruído” visual que se vê muito pelas ruas. Esta medida poderia por exemplo ser adoptada, em modo experimental, nos edifícios da Almeida Ribeiro, no Largo do Senado e por toda a rua Pedro Nolasco da Silva, zona central e icónica da RAEM e de grande fluxo pedonal. Não se pretende, de modo algum, descaracterizar a cultura local e as suas tradições, mas apenas criar regras em termos de paleta de cores, materiais e fixação dessas sinaléticas, tipos de letra, entre outros elementos expostos na via pública, referentes tanto a estabelecimentos comerciais, como a departamentos públicos ou privados, e não esquecendo as influências do nosso clima: húmido, quente, com probabilidade de tufões na sua estação.

Macau pareceu sempre carecer de falta de cidadania, pela sua história, pela sua diversidade étnica e por ser um local de passagem para muitos. De uma forma ou de outra, foi sempre encarada como o canto cobiçado da árvore das patacas que muitos ofusca uma visão de preocupação mais profunda pela sua cidade, de cidadania. São assim diversos os factores colaterais que fazem Macau ter características muito particulares quando comparamos com outras cidades pelo mundo, muitas delas bem mais limitadas em termos económicos.

Decorreu recentemente em Macau o evento que será talvez o de mais projecção internacional e o que mais mexe com a cidade em termos urbanos e até das emoções, o Grande Prémio! No passado, o departamento do Governo responsável pelo evento promovia um concurso para o cartaz do GPM em dois formatos: cartaz para carros e cartaz para motos. Um concurso que era muito ansiado e que alargava a participação local ao evento, tendo até inspirado outros departamentos e instituições a seguirem o bom exemplo.

É com alguma tristeza que tenho assistido, há uns anos a esta parte, ao desaparecimento desse concurso, em que eu próprio cheguei a participar. Um concurso que tinha um prémio aliciante e que muito motivava a participação dos designers locais, nomeadamente os amantes do desporto automóvel e da velocidade. Este concurso, como identidade visual do evento e até de Macau, devia estender-se a outros itens que fazem parte de toda a promoção e divulgação do Grande Prémio, por a forma a criar coerência no design e a dar uma outra dimensão ao mesmo em termos de imagem visual.

Macau terá, certamente, a avaliar pelos seus designers residentes, capacidade de resposta com qualidade para concursos com esta dimensão e responsabilidade, projectando além fronteiras a imagem da cidade, a qual todos devemos querer que seja melhor a cada dia que nasce.

A Cidade do Santo Nome de Deus tem, em meu entender, diversas frentes fascinantes por explorar de modo a melhorar a sua qualidade visual e a torná-la um lugar mais aprazível e acolhedor: mobiliário urbano, arquitectura e urbanismo, sinalética, publicidade… – um aliciante desafio, onde se pode desenvolver um trabalho de excelência pela capacidade económica, diversidade cultural, capacidade de produção e apoio da RPC, entre muitos outros factores a favor.

Na extensão de Macau à ilha de Hengqin (a conhecida ilha da Montanha), ali se poderiam criar estaleiros de apoio à fabricação de materiais e centros de estudos e formação de mão de obra especializada, uma grande carência emergente em Macau.

Sabemos que a qualidade do design que nos envolve, nas suas diversas vertentes, com destaque para arquitectura e o urbanismo, pela sua escala e dimensão humana, carece de um bom planeamento. Os residentes de Macau procuram, no seu dia a dia e nos momentos de lazer, uma cidade melhor, no simples gesto de apreciar e usufruir de um espaço agradável, e por vezes «ter um momento de surpresa», como dizia Óscar Niemeyer. Admirado por muitos, este arquitecto dizia também que as cidades deviam parar e multiplicar-se do ponto de vista certo do urbanismo, e deviam criar uma cintura verde à sua volta.

Como residente desde os anos 80, preocupa-me muito quando se fala na “inevitável” urbanização de Coloane, o “pulmão” verde de Macau, o único refúgio para muitos que procuram um momento de harmonia com a natureza e de lazer. Pelo seu vasto país, a RPC não carece de saturar o território, já de si “obeso”, e a sua densidade urbana. Vou continuar a acreditar que a RAEM e os seus responsáveis, irão preservar Coloane “verde” e o que quer que seja acrescentado venha para o benefício de todos, numa escala que se dilua na ilha e não se imponha.

Penso muitas vezes na Criação, na natureza, e como o Criador nos deu uma infinidade e variedade de espécies de animais, aves, insectos, plantas, de espaços, lugares, aromas, cores, texturas, sons, sensações, emoções – uma riqueza imensurável que, por si só, nos deveria impulsionar a responsabilidade e preocupação de minimizar ao máximo essa perda pela artificialidade das construções do homem.

Temos uma infinidade de ingredientes que a Criação nos proporciona em toda a existência, sendo que o homem deveria sentir apenas a responsabilidade de ser um instrumento nas mãos de Deus, para dar continuidade à sua grande obra.

Miguel Augusto

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