Feitorias portuguesas no deserto

Costa da Memória

Feitorias portuguesas no deserto

Visitada Chinguetti, o próximo destino só podia ser Ouadane. Mas antes disso, breve paragem em Tinigi, junto ao Ouad ar-Rghaywiyya, sensivelmente a meio caminho. A primeira menção a esta cidade de menor importância é feita por Cadamosto, em 1506. O navegador descreve-a como uma “aldeia habitada por azenegues vassalos de uma raça de alarves que se chamam Ludea”. De facto, tudo o que resta é um amontoado de pedras a justificar o conhecido provérbio mauritano “mais abandonada do que Tinigi”.

Situada na confluência de dois rios – ouads – o “ouad das tâmaras” e o “ouad da ciência”, Ouadane foi construída entre 1141 sobre as ruínas de outras cidades negras. A sua proximidade com as salinas de Idjil suscitou o interesse dos portugueses que, no início do século XV, mencionaram publicamente a sua existência e, em 1487, aí estabeleceram uma feitoria que duraria apenas alguns meses devido à hostilidade da população local (Zurara fala-nos disso).

A nossa efémera passagem merece o seguinte comentário do historiador e sociólogo Abdel Weddoud Ould Cheikh: «os enviados portugueses devem ter chegado a Ouadane entre 1485 e 1490 e não ficaram aí muito tempo, mas apesar disso deixaram traços na memória colectiva dos ouadanis. Os bafours são classificados às vezes de portugueses». Esta opinião viria a ser corroborada pelo professor Sidi Ould Abdi in Sidi, conhecedor da história da cidade como ninguém, na breve conversa que tivemos à entrada do albergue Zaida.

Abundam as referências a Ouadane na nossa documentação quinhentista, bem conhecida do professor. A “Crónica dos Feitos da Guiné”, de Gomes Eanes de Zurara, nos primórdios das nossas navegações, menciona o facto de “na terra dos Negros” não haver “outro lugar cercado senão aquele a que eles chamam Oadém, nem povoação senão algumas que estão à beira do mar (feitas) de casa de palha”. Mais ou menos nessa época, Nuno Tristão procurava a mítica cidade de Hodden (Ouadane). Diz ele: “Por detrás do Cabo Branco encontra-se um local chamado Ouadane que se situa no interior da terra a uma distância de seis dias de camelo (…) aí chegam as caravanas que vêm de Tombuctu e de outras regiões de negros para comércios com os berberes de lá”.

Em 1447, na sua viagem de Arguim a Ouadane, João Fernandes refere os “figos do inferno” de Ouadane, provavelmente rícino. Para o aventureiro, aquela aldeia de quatrocentas pessoas era entreposto de sal de L’Idjil e os seus habitantes “alimentavam-se de cevada, tâmaras e leite de camela”. Sabe-se que Fernandes viveu entre os ovelheiros e cameleiros azenegues durante quase um ano. E fê-lo, como já se viu, por iniciativa própria. Para ter um conhecimento pessoal directo da região, inventariar os produtos que ali se comerciavam e aperfeiçoar o idioma local – o Hassanya – que acabaria por dominar. Zurara chama-nos a atenção para a diferença entre o Árabe e o Hassanya, salientando que “a letra com que escrevem e a linguagem com que falam não é como a dos outros mouros, antes de outro modo”, lembrando depois que “todos são da seita de Mafamede; e são chamados alarves e azenegues e bárbaros”.

A adaptação de João Fernandes ao modo de vida no deserto foi completa, ao ponto de este ter trocado a sua dieta de pão e vinho por uma dieta de leite de camelo e peixe. Ouçamo-lo de novo: “Para além de todos andam em tendas, com seus gados por onde lhes apraz, sem qualquer guerra nem senhorio, nem justiça; cada um anda como quer e faz o que lhe apraz naquilo que pode”. Também não esquece de realçar que estes “guerreiam com os Negros mais por furto do que por força, porque não têm tamanho poder como eles. E vêm à sua terra alguns mouros; e a estes lhe vendem de aqueles negros que assim hão por furto; ou então os levam eles a vender a Mondebarque, que é para além do reino de Tunes, aos mercadores cristãos que ali vão, e dão-nos a troco de pão e de outras algumas coisas, com agora fazem no rio do Ouro, segundo adiante será contado”.

Luis de Cadamosto, em 1475, descreve Ouadane como “um centro de comércio de escravos e de ouro”, não esquecendo de mencionar a presença de numerosos árabes. Duarte Pacheco Pereira, em 1507, fala de “Audem” e do seu capitão “Rodrigo Reinel, escudeiro de D. João II”, assinalando o facto de o País estar a ser submetido aos árabes oudais (Oudaia). Segundo este manuscrito, na altura de maior prosperidade existiriam ali “1500 casas e em cada rua mais de 40 sábios”. A dominação árabe foi confirmada pelo mercenário espanhol Marmol, que em 1543-44 participou num ataque à cidade integrado numa expedição marroquina, composta por muitos mercenários apetrechados com armas de fogo, não só espanhóis como também portugueses. Dizem que os locais, desesperados, enviaram manadas de vacas contra o exército inimigo, como era sua estratégia tradicional, só que este atirou uma descarga de armas de fogo, e as vacas, em pânico, regressaram à aldeia destruindo tudo à sua volta, poupando assim trabalho às forças marroquinas.

No fim do século XVI, com o declínio de Tinigi, Ouadane fenece também, devido ao desvio para leste das principais rotas comerciais transarianas e da captação, através da costa atlântica, de uma parte crescente de um tráfico que os portugueses tentaram monopolizar. Por outro lado, a sua rivalidade com Chinguetti originou uma guerra aberta durante a primeira metade do século XVIII.

Entre Ouadane e El Beyyed, ao quilómetro 21, para sermos exactos, situa-se o Forte de Agouedir, três pequenas torres que se destacam de uma pequena elevação. Chamam-lhe o “castelo português”, embora essa origem não possa ser confirmada. O mesmo se passa em relação às ruínas de Hofrat e Faranni.

Joaquim Magalhães de Castro

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