A cisterna manuelina

Costa da Memória

A cisterna manuelina

A fortaleza era olhada como terra lusitana e dali partiram os cavaleiros e diplomatas que tanto influíram no destino do País e nas sortes das populações. Muralhas, bastiões e torres testemunham bem essa época. Assim como as entradas – a Porta do Mar, a Porta da Terra e a Porta dos Bois (pequeníssima, onde se situam, ainda hoje, os currais para burros) – e as ruas: a Rua do Arco, a Rua Direita, a Rua da Cadeia, a Rua das Curvas. Esses nomes, se bem que pouco visíveis, permanecem legíveis nas placas incrustadas nas paredes.

O centro da vila é a Praça do Terreiro, situada entre o palácio do governador – agora uma mesquita cujo minarete é a adaptação da antiga Torre de Rebate – e a igreja matriz de Nossa Senhora da Assunção, que, pela sua imponência, sobressai entre oito outros pequenos templos espalhados pelo interior, onde o espaço era um bem precioso. Subsistem ainda as torres da Cegonha, do Rebate e da Cadeia, para além dos bastiões de Sebastião, de Santo António, do Espírito Santo e do Anjo e os baluartes do Norte, do Serrão (também conhecido como Cavaleiro) e o baluarte do Governador, na Porta da Terra, todos eles em perfeito estado de conservação.

No período da dominação filipina a praça contava com quatrocentas a quinhentas casas, muitas delas de dois andares e outras com terraços em vez dos tradicionais telhados, numa clara adaptação das construções ao clima do Norte de África. Aí habitavam de mil e quinhentas a duas mil pessoas, entre governador e capitão (autoridades máximas), cavaleiros, funcionários, padres, artilheiros, trabalhadores, viúvas e órfãos, velhos e inválidos e “120 marinheiros ao serviço dos navios de que dispunha a fortaleza”. Também ali viviam mercadores europeus, mouros, mouriscos (andaluzes expulsos de Espanha) e judeus, que dominavam o comércio em Marrocos e cumpriam na perfeição o papel de intérpretes e intermediários. Havia mesmo um “hospital para albergar os pobres e os estrangeiros”, além da habitual Misericórdia e das confrarias. Muitos dos estrangeiros ficavam alojados no interior dos navios ancorados na parte norte da fortaleza, onde vemos hoje um estaleiro naval e um porto pesqueiro com intensa actividade. Para Norte, estende-se um areal a perder de vista. São vários quilómetros de praia transformada pelos mais jovens num imenso campo de futebol, já que a presença de rochedos junto à costa refreia quaisquer pretensões a um bom e sonoro mergulho.

A Cisterna Portuguesa é um dos mais importantes cartazes turísticos de Marrocos a nível internacional. Segundo o que vem escrito num livro à venda na bilheteira, a cisterna foi “descoberta” pelo comerciante judeu José Benatar, em 1917, quando este procedia à demolição de um muro que lhe permitisse alargar o seu estabelecimento. Essa curiosa e bela estrutura era certamente uma antiga casa de armas transformada em cisterna em 1541, aquando das obras de reforço da fortificação. Só assim se explica a riqueza arquitectónica. A sua notável capacidade de armazenamento viria a ser providencial em caso de cerco, porque, mesmo nos momentos mais críticos, nunca os moradores de Mazagão sofreram da falta de água.

Erguida em forma quadrada, a cisterna é coberta por uma abóbada em estilo gótico, apoiada num sistema de colunas e de pilares de secção quadrangular. A entrada de luz faz-se por um buraco redondo no tecto e o reflexo das colunas no chão permanentemente alagado é motivo de espanto da parte dos visitantes. Aquele interior manuelino convidava ao silêncio e ao recolhimento e eu senti-me como se estivesse dentro de um convento. Uma impressão agudizada pela presença do guia da casa, enfiado na sua chalaba de capuz cónico a fazer lembrar o hábito dos monges.

Numa sala anexa à cisterna pude confirmar a presença da inscrição que comemora a fundação da Capela de Santo António do Socorro pelo governador Brás Teles de Meneses, no ano de 1621, e que foi descoberta pelo arqueólogo francês Luquet, em 1949, quando este procedia aos trabalhos de desentulhamento do Baluarte de Santo António, numa altura em que os serviços históricos do Protectorado Francês de Marrocos se interessavam pelo restauro da fortaleza portuguesa. A lápide, que os operários inadvertidamente partiram em dois pedaços, danificando-a, é de leitura difícil. Reflecte um momento deveras árduo da vida dessa praça, privada de mantimentos, o que levaria o governador a enviar uma carta ao rei pedindo ajuda.

Foi, no entanto, o professor Robert Ricard a escrutinar em pormenor todos os restos epigráficos mazaganenses conhecidos à data da publicação do seu estudo em 1932-1934 sob o título “Les inscriptions portugaises de Mazagan”, no qual descreveu oito inscrições. Uma delas foi cimentada no topo da entrada principal da cidade – a Porta do Arco ou do Governador, no baluarte com o mesmo nome – encimada pelo brasão de Luís de Loureiro, herói de Mazagão, cujas façanhas perduraram no tempo. Ao lado da inscrição, guardada num anexo, estavam outros objectos de valor, à espera de serem instalados num futuro museu português da cidade, um projecto que remonta ao final da década de 1950 e que talvez venha a ser concretizado num futuro próximo.

Joaquim Magalhães de Castro

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