Novas heresias na Baixa Idade Média

Cismas, Reformas e Divisões na Igreja – XXIV

Novas heresias na Baixa Idade Média

O Joaquimismo alastrava. O mandamento evangélico da pobreza era um desiderato. O Livro do Apocalipse tornava-se um caso sério de popularidade. Entre os poucos que sabiam ler, nem todos o interpretavam de forma correcta e cuidada. Alguns filtravam-no de acordo com objectivos de crítica à Igreja. Outros eivados de crenças milenaristas. Outros imersos em dúvidas e confusões. A mensagem que depois passavam ao povo iletrado era ainda mais deturpada. E assim enxameava o erro e crescia a errónea interpretação. Nascia a heresia. Ou mais um movimento social e popular de origem religiosa que ganhava cidades e atiçava fogueiras e crimes. Assim surgiram muitos movimentos heréticos na Baixa Idade Média, a partir do século XIII.

Para muitos a instauração da “Igreja de Cristo” era o sinal de que o fim, ou seja a vinda do “milénio”, estava próximo. Com bases apocalípticas, esta era uma crença arreigada em muitos espíritos turvos. Outros sinais eram a rejeição da riqueza, ou dito de outra forma, a eleição da pobreza, imitando Cristo, como forma ou via mais autêntica de santificação. Ou de suportar a angustia da espera “messiânica” da vinda do “milénio”. Ou da Idade do Espírito Santo, para outros, mais joaquimitas.

Estas ideias milenaristas estiveram na origem, ou influenciaram sobremaneira, os ideias de peregrinação e de cruzada, e ambos os ideais relacionados que estavam eram de grande sensibilidade escatológica e milenarista. Cujo centro geográfico era Jerusalém, o objectivo geográfico e simbólico da demanda espiritual daqueles tempos.

 

A Igreja ameaçada

Estes movimentos e as suas múltiplas variantes e ramificações tornaram-se muito populares. E atractivos. Começaram assim a assustar cada vez mais as autoridades, civis mas principalmente eclesiásticas. Com efeito, as suas críticas destinavam-se a ambos. A partir do século XIII, a repressão a estes grupos heréticos começou a ser sistemática e organizada. Estes movimentos eram então declaradamente contra o direito papal de definir e fixar dogmas, impor a disciplina e a organização social da Cristandade. Aliás, este conceito, Cristandade, era de todo avesso aos ideais fracturantes das heresias nascentes. Mas muitos movimentos heréticos estavam com índices de popularidade e adesões enormes: tanto os indefinidos e confusos movimentos pauperísticos (pobreza), como os maniqueístas (dualistas) – de que eram exemplo os cátaros ou albigenses – e as crenças milenaristas. Estes tipos de movimentos eram muitas vezes fundidos num só, misturavam estas doutrinas de tal modo que resulta impossível a sua definição. Que aliás já o era na época para a quase totalidade dos seus aderentes, analfabetos ou iletrados. A iliteracia foi sempre o pasto das chamas das ideias diferentes que se tornariam heresias.

A cruzada contra os cátaros em nada deu (1209-1229), apenas atiçou ainda mais o espírito herético e as críticas desenfreadas à Igreja e aos seus representantes. E mais guerra, crueldade e extermínios, muitas vezes de inocentes. Em 1224 o grande imperador germânico Frederico II impôs uma lei, imperial, que proclamava a pena de morte aos que fossem declarados hereges. Em 1231 o Papa Gregório XI aceitou esta ideia, transformando-a numa instituição e estendendo-a a toda a Igreja. Nascia o Tribunal da Inquisição, que depois seria entregue a uma das ordens mendicantes nascentes de maior sucesso: os Frades Pregadores, ou Dominicanos, fundados por São Domingos de Gusmão. Um deles, (São) Raimundo de Peñaforte, escreveria mais tarde um manual prático para inquisidores.

O mundo de Cristo é um mundo de pobres, afirmavam muitos críticos da Igreja. muitos deles clérigos. Ou religiosos. Quem possuir riquezas, será inimigo d’Ele, rematavam os mais audaciosos. Os registos heréticos coevos assim o documentam, antes de caírem nas mãos da Inquisição. Um dos que mais gritou estas invectivas foi Dolcino de Novara (1250-1307) era um frade, talvez franciscano, que, graças ao poder de atracção que a sua pregação exercia, tinha legiões de seguidores fanáticos, a que se chamariam de dolcinitas. As suas ideias foram consideradas heréticas pela Santa Sé e foi condenado à morte pela Inquisição, em 1307, juntamente com muitos dos seus seguidores. Todos pregavam, na essência, o retorno da Igreja à pobreza e à simplicidade. Consideravam a pobreza um estado de perfeição espiritual que se deveria estender a todos e ser vivido de forma universal.

A comunhão dos bens e das mulheres, o fim da eucaristia e da adoração da cruz como símbolo divino, bem como o fim da confissão, eram também pregados pela irmandade dolcinita, de forma acérrima. Era contra a intercessão dos santos. Das várias doutrinas deste movimento, a que mais desperta atenções e clamores era a de assassinar os sacerdotes, bispos e religiosos que não concordassem com eles. Muitos foram torturados e tombaram na defesa da fé perante os dolcinitas. O terror semeou-se na hierarquia da Igreja, mas também entre o povo. Quando se ouvia nas ruas e caminhos o célebre apelo em forma de grito “penitenziagite” (penitencia-te), os tumultos, chacinas e a morte logo medravam por onde passassem as hordas dolcinitas. Dolcino e a sua companheira, Margarita de Trento, com o bando, acolitaram-se perto de Novara, em 1306. Resistiram um ano ao assédio das tropas papais, mas acabariam presos e supliciados em 1307. Os restantes foram dizimados. Ou a maioria, pois alguns conseguiram fugir de Novara e continuar a disseminar os ideais dolcinitas. Esta irmandade herética tinha a fama, ainda por comprovar, refira-se, de roubar e pilhar os ricos para distribuir pelos pobres.

Dolcino era um típico líder messiânico, que negava a autoridade da hierarquia da Igreja. Chegou a liderar um exército de mil e 400 discípulos fanáticos, até ao seu fim. A figura de Salvatore, no “Nome da Rosa”, de Umberto Eco, traz-nos à memória, de forma literária, aquilo que foram os dolcinitas e a sua heresia.

Outra heresia anti-eclesiástica, radical, da época, foram os flagelantes, que despontaram em Itália (1260). A Igreja desde logo o condenou, como contrário à fé.

Os flagelantes desfilavam em procissões nas cidades, durante 33 dias (33 porque correspondiam à idade em que se supõe que Jesus Cristo foi morto), durante os quais se flagelavam com cordas ou cintos cortantes. Esta prática serviria apara se atingir o Paraíso. Por isso, os ritos da Igreja não eram necessários. A Peste Negra (1347-50) e a Guerra dos Cem Anos (1337-1453) fizeram com que o movimento ressurgisse ciclicamente. Na Peste Negra, por exemplo, as suas práticas incitavam a população a perseguir e matar judeus e outras populações, que acusavam de envenenar poços e lançar a peste. Auto-flagelação, oração a deus apenas, viver pobre e da caridade, andar descalços, com capuz e uma túnica negra: assim andavam os flagelantes. Que tiveram enorme sucesso, diga-se…

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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