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Semanário Católico de Macau

O Relativismo – II
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Cismas, Reformas e Divisões na Igreja – LXXXV

O Relativismo – II

O relativismo mereceu aqui já alguma atenção, dada a sua cada vez maior presença no mundo de hoje. É talvez a mais disseminada “heresia” nos tempos modernos. Mas não falamos apenas no domínio religioso, ou mais especificamente católico. Não sendo uma reforma, nem um cisma, ou divisão sequer, é algo que se infiltrou em todas os níveis e valências da vida contemporânea. Na filosofia, na ética, na ciência, na política, em praticamente tudo surge o relativismo.

Começando pelo pensamento e conhecimento, identificamos logo o relativismo filosófico. Este parte da consciência da dificuldade e logo quase da impossibilidade, pois afirma que não se pode querer chegar a uma verdade objectiva, uma vez que a mente humana não conhece a realidade como ela é, mas apenas como a consegue enquadrar dentro dos seus parâmetros de pensamento. A verdade, portanto, não é a conformação do intelecto com a realidade em si, de forma objectiva, mas, pelo contrário, é a adaptação da realidade à inteligência. A verdade, o conhecimento das coisas, é, desta forma, algo de subjectivo, pessoal, relativo ao indivíduo em si. Não é objectiva e universal, para todos os homens em geral, mas para cada um em particular. Há assim muitas verdades, pois não há um intelecto universal, para todos, antes cada ser humano tem o seu, diferente de todos os demais. Cada um tem a sua própria verdade, logo há muitas verdades.

Daqui se pode assumir as consequências destas verdades particulares, na sua relativização de acordo com cada ser humano. O relativismo ético é uma das marcas civilizacionais mais prementes. De acordo com este, não existem normas morais válidas para todos os homens, universais. Assim, os valores éticos variam de acordo com as fases da história e das culturas, com as conjunturas ou grupos humanos, quando não com cada indivíduo em si. Há desta forma normas e opiniões subjectivas, que o indivíduo formula para si mesmo e que faz valer acima de tudo como um universal individual. Mas que colide com o relativismo de cada um, com os valores e códigos individuais e a liberdade de cada indivíduo. Cada qual faz uso da sua liberdade, um direito próprio, a qual só poderá ser “limitada” apenas pelos limites que os direitos e a liberdade dos outros indivíduos se lhe possam opor. O que origina conflitos e ataques às liberdades e aos limites de cada um, que nem sempre existem ou estão definidos. Assim, só existe um único absoluto, o ser humano, o individual (ou relativo) ou, mais precisamente, a liberdade de cada ser humano. Indiscutível, mas susceptível de limitar a liberdade dos outros.

 

PORQUÊ O RELATIVISMO?

As suas causas derivam de movimentos de pensamento e da ciência, embora possam estar inerentes à condição humana, que nem sempre tem sabido domar o instinto relativista. «Nenhum homem é uma ilha», lembrava o monge trapista Thomas Merton (1915-1968), mas a tentação de o ser é cada vez mais forte nos dias de hoje, em que se pretende muitas vezes sobrepor o individual ao colectivo e impor a liberdade individual sobre as dos outros.

Primeiro, começou por se negar todos os valores que estejam para lá do alcance da experiência humana. Caiu-se assim no ateísmo: o relativismo contemporâneo vê na religião e na moral católicas, por exemplo, obstáculos, impedimento. Deus, referem, subjuga, escraviza o homem e a sua autonomia. A moral católica mais não pretende que não a infelicidade de cada indivíduo, impondo a limitação das suas plenitudes. Os relativistas interrogam-se como é que se pode considerar Deus, já que todo as formas de conhecimento não são mais do que uma “representação” mental e subjectiva.

Tudo é histórico, referem outros, ou seja, tudo é provisório, conjuntural, variável e instável. O que ontem era importante, ou verdade, hoje pode já não ser. Falamos aqui do historicismo, que defende que a verdade é conhecida e vivida na história, sujeita a contínuas mudanças, é volúvel, é “filha do seu tempo”. Tudo o que é verdadeiro e bom só o é tal unicamente no seu tempo e não no modo universal, para todos os tempos e para todos os homens. Nesta perspectiva, a religião é para abater. E também surgem daqui preconceitos e confusões, más interpretações e falácias. Por exemplo, quando se tenta inferir que nenhuma cultura tem o direito de se julgar melhor ou mais prevalecente que as demais, dado que todas as formas de pensamento e de acção, de cultura e de viver, possuem o mesmo direito a ser como são. Ora, esta é uma crítica historicista do relativismo que é em si um erro e uma contradição, sendo que o relativismo acaba por criar uma selva de falsas oportunidades e tendências de sobreposição de liberdades, mas não o respeito pela individualidade, no todo e no universal, de cada cultura e forma de pensar.

Depois surge o progresso, ou a ânsia deste. Insaciável, quase ganancioso, o desejo de progresso acaba por fazer emergir uma “selecção natural” mais “selvagem” e desregrada. A ciência parece que afinal não consegue dar todas as respostas e confirmações aos homens, que não deixam, no entanto, de nela depositar uma fé… universalista e total, nunca relativista, curiosamente. A ciência tem hesitações e dificuldades, está em crise muitas vezes até, mas muitos acreditam que só ela trará progresso e bem-estar, sendo que a consideram livre das peias morais e religiosas, sem transcendência (só a da ciência ela própria) e sempre melhor e acima dos sistemas anteriores. A era da ciência é a única a trazer respostas e progresso, felicidade, tudo o que estava antes eram trevas e medo.

Daqui ao cepticismo é um passo rápido. Ou seja, por ele não há verdades objectivas e normas morais válidas de forma permanente. Mas também, se as houvesse, o homem não as apreenderia. Não existe afinal, recordam-se, uma dificuldade e quase impossibilidade de se atingir a verdade, ou a verdade objectiva, pois a mente humana não conhece a realidade como ela é. Da dúvida metódica de Descartes evoluiu-se para o cepticismo, que acabará por influenciar o empirismo, o agnosticismo e o positivismo, entre outras correntes de pensamento.

O relativismo é também marcado pelo cepticismo; entende que a verdade (possível) é pragmática, prática – ainda que quase inatingível. Isto é, as teorias que conduzem a resultados concretos (minimamente) satisfatórios podem ser verdadeiras e válidas, e por isso, se uma determinada concepção resolve (ou parece resolver) um problema concreto, passa então a ser considerada como verídica e referencial para o comportamento humano, para o seu progresso contínuo e até para o seu bem-estar. Não confiar em mais do que os limites da ciência, pode ser em si, de facto, uma manifestação de cepticismo, de dúvida imanente. Mas o relativismo tem ainda mais nuances, como veremos….

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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