A Maçonaria e a Igreja Católica – I

Cismas, Reformas e Divisões na Igreja – LXIII

A Maçonaria e a Igreja Católica – I

Muito se fala dela. Muitos sobre ela falam. Poucos falam, como poucas vezes se fala, com rigor e de forma clara. A Maçonaria, enfim, é sobre ela que procuraremos ajudar a perceber o que é, essencialmente, na sua relação com a Igreja Católica e vice-versa. Trata-se de uma instituição de carácter iniciático e filantrópico, assumindo-se de forma simbólica, filosófica e discreta, procurando a harmonia, selectiva e hierarquicamente, possuindo um cunho internacional e com propósitos humanistas. A sua estrutura é de tipo federal, baseada no sentimento da fraternidade universal. Segundo os seus ideários, tem como objectivo a busca da verdade, o estudo e reflexão filosóficos da conduta humana, das ciências e das artes, procurando o incentivo ao desenvolvimento social e moral de todos os seres humanos. Este deverá ser focado na sua evolução pessoal, no progresso social. Os seus ensinamentos são feitos através de símbolos e alegorias tradicionais, das artes de construção e arquitectura, a partir do conceito dos canteiros e pedreiros da Idade Média.

Aparecida em finais do século XVII e princípios do século XVIII, no formato (aproximado) como a conhecemos hoje, a Maçonaria “moderna”, ou “especulativa”, é comummente descrita como um sistema de moral, estando envolta em alegorias e transmitida através de símbolos. É uma ferramenta de formação do indivíduo, tal como se apresenta, um método peculiar inspirado no simbolismo da construção, o qual confere aos seus membros uma capacidade de ouvir, de reflectir e de dialogar, de transmitir os valores que fazem parte do ideário maçónico.

Na actualidade, trata-se mais de uma sociedade discreta e reservada, selectiva. Muitas foram as dissidências e divisões, em parte devido a questões de género, devido à admissão de mulheres num círculo originalmente masculino. Mas as questões religiosas ou metafísicas são fortes causas de divisão, tal como as formas de funcionamento de cada loja (célula base da instituição) ou as bases de regulação maçónica. Os pontos de vista e as observâncias destes aspectos e de outros dentro da instituição favoreceram ao longo dos séculos as dissidências e até rupturas. Em muitos aspectos, assemelha-se, com as devidas diferenças, muito a instituições da Igreja, como as ordens religiosas, embora com maior secretismo: regras, observância regular, questões de espiritualidade… Como caminho de perfeição e evolução das virtudes individuais e colectivas, as semelhanças são grandes, aparentemente, mas na prática e no secretismo distanciam-se.

A Maçonaria na sua origem, ou no seu ramo britânico inicial, era (é) de matriz religiosa, metafísica, sem choques com as igrejas cristãs, por exemplo. Na sua evolução francesa – a “Franco-Maçonaria” – e com os ideais iluministas do século XVIII, depois com a Revolução Francesa (1789), assumirá contornos radicais, anti-religiosos ou, pelo menos, anti-clericais, ateísmos e formas de deísmo radicais, além de manifestações mais fracturantes e menos filantrópicas.

 

A MAÇONARIA E A IGREJA CATÓLICA

Progresso e indistinção de classes, fraternidade, igualdade, humanismo, universalidade, regras e filantropia: estes, entre outros, são valores que comunga com a Igreja. Com a qual se distanciou em muitas etapas da sua história. A Igreja Católica não aceita que os seus fiéis sejam da Maçonaria e historicamente já se opôs radicalmente a esta sociedade secreta, devido a alguns princípios anti-cristãos maçónicos, em especial os deístas, libertários e humanistas ou iluministas, conquanto ponham em causa a transcendência.

A primeira condenação pública ocorreu quando o cardeal D. Fleury, primeiro-ministro de Luís XV, a 14 de Setembro de 1737, proibiu todas as reuniões secretas e, especialmente, a formação de associações, qualquer que fosse o pretexto e qualquer que fosse a denominação. A seguir surge o Papa Clemente XII, a 28 de Abril de 1738, que proíbe os católicos de se tornarem membros de lojas maçónicas, através da bula “In eminenti apostolatus specula”. Acusava a Maçonaria de depravação e perversão, de ódio. A incompatibilidade entre o juramento e o segredo das obediências maçónicas e a condição de cristão integrado na Igreja Católica Romana eram outros fundamentos para a condenação da Maçonaria na primeira metade do século XVIII. Mais de vinte condenações surgiriam, cada qual mais dura que a anterior. Todo o cristão que se afiliasse na Maçonaria ficava excluídos dos Sacramentos.

A Maçonaria apregoava o relativismo frente à Religião, o que redunda em detrimento da Verdade. Tal relativismo tornou-se hostil na França do século XVIII. Mais tarde, na França também, a Grande Loja eliminou as suas referências ao Grande Arquitecto do Universo, o que em si cortava qualquer forma de alguma “compatibilidade” com a Igreja. Refira-se que há também igrejas reformadas, como a Anglicana, principalmente, inconciliadas com a Maçonaria. O relativismo doutrinário e o secretismo são as causas maiores de diferenças e incompatibilidade entre a Maçonaria e as igrejas cristãs.

Que razões levaram a Santa Sé a condenar em 1738 uma instituição que, pelas suas próprias características, não podia ser suficientemente conhecida das autoridades papais daquele tempo? Uns dizem que os motivos de condenação não eram religiosos, mas políticos. Outros referem que o secretismo indevassável é mesmo a grande causa, aliás exposta pelo Papa Bento XIV na sua condenação de 18 de Maio de 1751. Tal como a contaminação da Igreja com ideais dessa sociedade secreta. Note-se que no século XVIII não se condenou a Maçonaria como herética.

O indiferentismo e o relativismo religioso não eram, no século XVIII, apenas hipóteses teóricas, mas atitudes frequentes nos ambientes iluministas. Advirta-se que Clemente XII não acusa os maçons de heresia, mas apenas de suspeita veemente dela. O próprio facto da reunião de homens de diversos credos não era nem é uma heresia, mas levantava a desconfiança dos guardiães da fé. Nem o segredo, nem o juramento, nem a condenação dos poderes civis, nem a má fama entre os homens “prudentes e honestos” poderiam justificar, por si sós, essa suspeita de heresia. Esta suspeição baseava-se essencialmente no perigo que poderia advir, para a fé, segundo Roma, do contacto com homens de outras religiões. Em 1738 resultava muito difícil, para não dizer impossível, distinguir entre o diálogo com homens de diversos credos, mas respeitosos para com a verdade católica, e o indiferentismo destruidor do verdadeiro conceito de religião.

As condenações repetir-se-ão, a posição da Igreja não mudará muito, como veremos na próxima semana.

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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