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A Religião da Humanidade – III
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CISMAS, REFORMAS E DIVISÕES NA IGREJA – CII

A Religião da Humanidade – III

Auguste Comte acreditava que a Ciência devia substituir a Fé, tendo por isso fundado uma filosofia nova: a Filosofia Científica. Nascia o Positivismo. Mas já temos visto que mais do que essa filosofia da Ciência, ou para além dela, nascia também um projecto de religião, ou tentava-se institucionalizar uma forma de sentimento religioso, fenomenológico e mimetizado em parte de outras religiões. Parece que a tentação da religião é inata até nos que a mais negam ou afirmam o primado da Razão e da Ciência, como o inquestionável Comte…

Recordemos um pouco da vida de Comte, para percebermos a emergência desse fenómeno religioso numa figura a quem quase nunca se atribui uma relação com a transcendência.

O pensamento em torno da ideia de religião nasceu em Comte a partir do seu amor platónico pela já mencionada Clotilde de Vaux, por volta de 1845. Esta senhora permitiu a Auguste expressar todos os seus sentimentos e necessidades emocionais, e daí a sua ideia de religião. Comte transformou-se então no “génio”, referem os seus fiéis, inspirador de uma nova religião, cujas ideias se encontram plasmadas numa extensa obra – Política Positiva ou Tratado de Sociologia (em quatro volumes), publicada entre 1851 e 1854. Comte refere mesmo o nascimento do Positivismo Religioso na data de 16 de Maio 1845, um dia de discernimento vocacional, ou de carisma, quem sabe…

Da experiência de um amor puro que teve com Clotilde de Vaux reteve a ideia, referia o filósofo, de que no amor – como o que ele viveu, ainda que platónico – residia a essência da vida moral e religiosa. Clotilde morreu em 1946, mas Comte jamais a esqueceu, venerando-a por toda a sua vida como a “Santa” do positivismo. Em 1847 Comte institucionalizou o carisma, fundando a Religião da Humanidade e autoproclamando-se “sumo sacerdote” da mesma.

O CULTO POSITIVISTA

Este fundamenta-se na rememoração dos ausentes, como Comte fazia em relação a Clotilde. Nesta liturgia da memória, acreditava Augusto, exprimia-se melhor o nosso afecto e a nossa gratidão. Os mortos devem ser evocados com inteira fidelidade, apenas esquecendo-se os defeitos, mas sem exagerar as qualidades. O Culto consiste, assim, na comemoração dos grandes homens que têm sido, de uma forma ou outra, os benfeitores da Humanidade. O culto deve ser mesmo a base de toda a praxis, a acção, na Religião da Humanidade. Só deste modo será possível tornar os fiéis aptos para o cumprimento dos seus deveres, bem como assegurar com eficácia o positivismo em que acreditam. É no culto, por fim, que se efectua a sistematização do dogma e a instalação do regime. O Culto possui a qualidade de predominar e se sobrepor às duas outras partes.

O culto positivista pode ser privado ou público. O Culto Privado divide-se em pessoal – quando é dirigido principalmente à mãe, à esposa e aos filhos, tidos como os nossos melhores anjos da guarda e que despertam e desenvolvem os afectos generosos no coração do homem – e doméstico, sendo este caracterizado pela realização dos nove sacramentos sociais.

Os sacramentos sociais são o da Apresentação, que consagra o nascimento; o da Iniciação, que realiza aos catorze anos, quando é iniciada a educação enciclopédica ministrada pelo sacerdócio; a Admissão, que se dá aos 21 anos e que marca o início do concurso individual; o da Destinação, aos 28 anos, consagrando a profissão escolhida; depois vem o do Casamento, geralmente entre os 21 e os 28 anos para as mulheres, e dos 28 aos 35 anos para os homens, o qual constitui o principal acto privado de culto, sendo considerado o sacramento fundador da família, célula da sociedade e fonte de felicidade para esta religião, além de aperfeiçoamento mútuo dos dois sexos em benefício da sociedade; em sexto, vem a Maturidade, aos 42 anos, que mostra a inflexível responsabilidade da fase da vida activa; o Retiro, aos 63 anos, quando o homem prático, depois de ter designado o seu sucessor, ou herdeiro, abandona uma actividade, exausto, para exercer uma influência consultiva; o penúltimo é o da Transformação, que consagra a morte; e por último existe a Incorporação, que se cumpre sete anos após a morte, como resultado de um julgamento rigoroso da utilidade da existência, sendo os restos mortais solenemente transportados do cemitério civil para um jazigo perpétuo no Bosque Sagrado que está em torno de cada Templo da Humanidade. Para o Culto Público positivista, há um calendário próprio, designado como “Abstracto”.

O calendário histórico positivista tem início a partir da Tomada de Bastilha, ou seja, 14 de Julho de 1789. Foi publicado pela primeira vez em 1855. É composto por treze meses (quatro semanas cada um). Os meses são consagrados ou dedicados aos grandes benfeitores da Humanidade, os Domingos aos benfeitores de segunda categoria, com os dias de trabalho aos pequenos benfeitores. Trata-se de uma forma de eternizar a existência humana. Temos, por exemplo, o mês de Descartes, o Domingo de Hume, e o de dia Kant. Os seis primeiros meses são destinados aos laços considerados fundamentais, ou sejam, a Humanidade, o casamento, a paternidade, a filiação, a fraternidade e a domesticidade. Os três meses seguintes são destinados aos estados preparatórios, que são o fetichismo, o politeísmo e o monoteísmo. Por fim, os últimos quatro meses são destinados às funções que designam como “normais”, ou providências: a Mulher, ou providência moral; o Sacerdócio, ou providência intelectual; o Patriarcado, ou providência material; e o Proletariado, ou providência geral.

Depois temos o templo positivista, que tem as suas próprias características. No altar principal de um templo positivista fica a Humanidade, personificada na figura de Clotilde de Vaux, qual ícone da religião. Abaixo desta, surge, naturalmente, a imagem de Auguste Comte. Depois ocorrem catorze capelas interiores consagradas das seguintes formas: a Moisés, representando a teocracia inicial; a Homero, a poesia antiga; a Aristóteles, filosofia antiga; a Arquimedes, a ciência antiga; a César, a civilização militar; a São Paulo, que representa, curiosamente, a fé católica; a Carlos Magno, o feudalismo; a Dante, a epopeia moderna; a Gutenberg, a indústria moderna; a Shakespeare, o drama moderno; a Descartes, a filosofia moderna; a Frederico, rei da Prússia, a política moderna; a Bichat, o pai da ciência moderna; e a Heloísa (de Abelardo), como a santificação feminina. Na iconografia positivista, como símbolo do pensamento ou da sabedoria é representada Santa Teresa de Ávila; do sentimento temos Heloísa; e simbolizando uma mulher de acção e de luta aparece Joana D’Arc.

Uma religião original, na gestação e no contexto de formação, mas em tudo mimetizando outras e em quase nada resolvendo o drama da existência humana e a sua caminhada para a redenção salvífica.

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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