Butão e os reinos vizinhos

Bengala e o Reino do Dragão – 37

Butão e os reinos vizinhos

Estêvão Cacela reserva algumas das páginas do seu relato para nos fazer uma descrição geral do reino que tiveram o privilégio de calcorrear. Diz-nos que o Butão “é assaz grande e estendido e muito povoado, tendo a este rei uma sujeição ao jeito voluntária sem obrigação de lhe haverem de deferir nem seguir sua doutrina, nem ele ter poder de gente para constranger ninguém a nada; antes como sua principal renda está no que lhe dão voluntariamente, a ninguém quer ter descontente, e cada um é muito livre para fazer o que quiser, como o mesmo rei por muitas vezes nos disse, falando-nos ainda acerca dos seus lamas que são os mais sujeitos”. Nessa sua “Relação”, Cacela dá-nos conta ainda de algumas particularidades quanto às características físicas e climatéricas daquelas terras. Diz-nos que o clima é muito sadio pois, “desde que entrarmos nestas serras, sempre tivemos muito boa saúde”, estabelecendo um paralelo com a Índia onde o padre nunca a tinha tido “tão boa”. Garante que era muito raro encontrar alguém doente, sendo muitos “os que sendo velhos têm saúde e vigor”. Prova disso eram os moços que os acompanhavam que “sendo dantes doentes, aqui têm cobrado perfeita saúde”. Informa ainda que nos sete meses de estada sempre o clima foi temperado e sem frio, alertando no entanto para os meses que se seguiriam, “de Novembro a Fevereiro há mais frio”, não constituindo isso qualquer problema pois para o frio “há muitos bons panos de lã de que todos andam vestidos”.

Abundava nessa terra o trigo, o arroz e as carnes, “que tudo vale mui barato”. O trigo a que se refere era, muito provavelmente, o trigo sarraceno, ainda hoje a dieta base da região oriental do Butão. Das frutas garante serem em grande quantidade que são muitas e boas: “pêras de muitas castas, algumas bem grandes, todas boas, pêssegos muitos bons, maças, nozes, marmelos, tudo em muita abundância”. Ressalva Cacela um fruto em particular a que dá o nome de “jambolões da Índia”, isto é, o jambo, o fruto do jamboeiro. Elogia ainda a qualidade das ervilhas e dos nabos, “afora outras coisas e frutas mais apropriadas da terra”. Informa-nos que peixe não havia mas ali chegava, depois de seco, de um dito “Lago Salgado, donde também lhe vem o sal”. Esse bem essencial chegava também da costa do Índico, via reino do Cocho. Para um português, como Cacela, ouvir falar de uvas com certeza lhe despertou a atenção e embora esse fruto não crescesse nesse reino dava-se num outro fronteiriço, “numa cidade chamada Compo, que fica daqui a vinte dias de caminho, e dela se faz lá o vinho”.

O Compo a que se refere o jesuíta corresponde à actual província de Konpo, no Tibete Oriental, e não consta que lá cresçam videiras. Cacela lembra também os produtos chineses que, via esse reino do Compo, ali chegavam, tais como a seda, o ouro, as porcelanas, “que tudo vem aquela cidade do Compo, e dali desce para estas partes”. Recorda também o comércio feito de Caxemira, via Chaparangue,“com as terras que ficam vizinhas a este Reino”, ou seja, o Tibete, chamando a atenção para “a corte de Demba Cemba”, rei do Utsang, Tibete Central, “o mais poderoso do Potente”, e de Lhasa, “a cidade onde está o pagode de Chescamoni”, sendo esta, muito provavelmente, a mais antiga referência nos escritos ocidentais ao famoso e venerado templo de Jokhang, no coração da capital tibetana. Uma Lhasa, diz-nos Cacela, “muito frequentada de jogues e de mercadores de outras partes”. Faz ainda questão de salientar o jesuíta que naquelas paragens onde ele e João Cabral se encontravam, não havia memória de por lá terem passado estrangeiros, e “só se lembram de algum jogue ter por aqui passado, mas mui raramente”, salientado que nem do “reino do Cocho vêm mais do que os cativos que de lá trazem os que deste reino descem àquele”, denotando com esta frase que havia um conflito latente entre os dois reinos, o que historicamente se comprova com as guerras entre os reis de Cooch Behar e o rei do Butão. A referência aos jogues viajantes é também curiosa, pois eram (e são hoje ainda) atraídos ao Tibete, sobretudo à região do monte Kailash e do lago Manasarovar, uma grande quantidade de monges hindus, os ditos sadhus, que os nossos jesuítas apelidavam de jogues, ou iogues. Aliás, estes ascetas indianos eram um das principais vítimas dos bandoleirismo daquelas serra, que depois de capturados eram feitos escravos.

Diz-nos ainda Estêvão Cacela que o Butão fica a pouco mais do que mês de caminho de Chaparangue, onde o padre António de Andrade acabara de estabelecer uma missão no ano anterior, em 1626, como nos informa Cacela na seguinte passagem: “(…) e assim depois que aqui estamos tivemos algumas novas dos padres que lá estão, não por sua via, que parece que não sabem ainda da nossa chegada a estas serras, mas por via de lamas, que de lá vieram, e por outros que para lá foram escrevemos já aos padres três vezes e juntamente lhes mandei cartas por via de Goa as mandarem a Vossa Reverência”. Infelizmente nada de sabe quanto ao paradeiro dessas cartas.

Joaquim Magalhães de Castro

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