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A tragédia grega – acto 3
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A tragédia grega – acto 3

E o povo grego disse NÃO!

Por uma maioria expressiva de 61,3%, contra 38,7% dos que votaram no “sim”, os gregos rejeitaram as imposições dos seus credores, que visavam prolongar a sua agonia social até à asfixia total da sua economia.

Mas o seu “não” disse mais do que uma simples resposta a um plano económico e financeiro que lhes queriam impor.

Esta decisão popular, que resultou do referendo do último Domingo, elevou a coragem de um povo a opor-se a uma Europa decadente dos seus princípios, assumindo uma posição cujas consequências, à hora a que escrevo estas linhas, são imprevisíveis. A resposta destemida dos gregos neste acto democrático (que alguns tentaram e tentam desvalorizar), mesmo assustados com o fecho compulsivo dos seus bancos e com as ameaças dos dirigentes europeus (donde proliferam os tradicionais conservadores e socialistas), foi a demonstração clara de que não querem deixar-se vergar a exigências estranhas às necessidades do seu país.

O “não” dos gregos fez passar um assunto que os “magos” europeus e do FMI queriam “aparentemente” situar no campo da economia e das finanças para o campo da política, onde sempre deveria ter estado.

O Syriza, o “inimigo público” a abater pelos dirigentes europeus, acabou por sair internamente reforçado neste referendo, obtendo um apoio popular superior àquele que o elegeu.

Os povos europeus, que passaram e passam momentos dolorosos com as “ajudas internacionais”, vendo a pobreza associada a um endividamento cada vez maior em consequência destes “auxílios”, viram um povo resistir até ao seu limite, perdendo o medo de dizer “não” à destruição completa do seu país. Situação que pode gerar algumas “ondas de choque” nos países europeus sujeitos a esta “ditadura” europeia e que causa muita apreensão aos seus actuais dirigentes políticos, nomeadamente àqueles que se vão brevemente sujeitar a eleições.

Face ao resultado do referendo, a “raiva” incontida de alguns dirigentes das instituições europeias a de alguns Governos europeus não se fez esperar.

É o caos para a Grécia, dizem alguns. Tudo o que se estava a negociar volta à “estaca 0” e a Troika vai ser mais exigente, dizem outros. A Grécia sai do Euro e da União Europeia e cai na bancarrota, dizem ainda.

Uma coisa podem desde já ter como certa: já não poderão dizer que os dirigentes do Syriza andavam a “gozar” com os credores, porque agora, após o resultado do referendo, estariam a acusar o povo de o estar a fazer e isso é politicamente incorrecto. A democracia, que tanto apregoam nos seus ocos discursos, pregou-lhes uma partida.

Mas os dirigentes gregos, agora mais legitimados, embora críticos às regras que são impostas à moeda única e à forma como está a ser dirigida a UE, não param de reafirmar que querem continuar no Euro e na UE, assumindo atitudes consensuais que poucos esperariam de quem saiu vencedor deste escrutínio popular.

Porque o ministro das Finanças grego era considerado demasiado “arrogante” e “impreparado” pelos seus interlocutores credores, Yanis Varoufakis, economista e professor universitário, demitiu-se, para não “estorvar” as futuras negociações.

Para que o mundo e em particular as instituições europeias não pensem que o Governo grego é um “bando de radicais de esquerda”, intolerantes e irresponsáveis, o Primeiro-Ministro grego, Alexis Tsipras, conseguiu o apoio dos três mais representativos partidos da oposição, entre os quais o partido conservador Nova Democracia para, através de uma declaração conjunta, se apresentarem unidos nas negociações com os credores.

Os gregos não disseram “não” ao Euro nem à União Europeia. Disseram “não” à sua destruição enquanto país e à miséria de um povo que aspira a uma vida digna.

Os gregos não disseram “não” à austeridade essencial à superação dos seus problemas económicos, nem rejeitaram pagar as suas dívidas. Disseram “não” a um “esquema económico e financeiro” que faz da austeridade um prolongamento da sua crise e que os impede de algum dia poderem vir a pagar o que lhes emprestam e sentirem-se livres dos “garrotes” dos credores.

Reconhecendo que a solidariedade está há muito afastada da sensibilidade dos dirigentes europeus, esperemos que, se não passarem as suas “birras” em dificultar qualquer acordo com o Governo grego, o medo das consequências para toda a Europa de uma saída do Euro, por parte da Grécia, os faça corrigir as intenções.

Se tal não acontecer, esta Europa terá mais um sério problema. E não será apenas com os gregos…

Luis Barreira

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