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A saga da Catalunha
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A saga da Catalunha

Enquanto em Portugal o tema de todos os dias é a acção preventiva e a sensibilização das populações para o combate aos incêndios do próximo Verão, “nuestros hermanos” da vizinha Espanha continuam a tentar apagar o “fogo” da independência da Catalunha que, nestes últimos dias, se reacendeu com a prisão do expatriado e ex-líder independentista Carles Puigdemont, pelas autoridades alemãs, quando atravessava a fronteira vindo da Finlândia.

Em consequência da sua prisão, antecipada pela decisão do Supremo Tribunal de Espanha ter emitido um mandado de captura europeu e internacional (ao qual os serviços secretos espanhóis não são alheios…), no último fim-de-semana muitos milhares de catalães manifestaram-se em Barcelona contra a prisão de Puigdemont, cujo resultado foram mais alguns detidos e uma centena de feridos. A tensão e a violência voltaram às ruas da capital catalã mas a resolução deste longo conflito está para durar!

Já exprimi, em anteriores artigos, a minha opinião sobre este conflito que ultrapassa as anteriores exigências de um povo culturalmente adulto mas que, pela atitude de alguns dos seus dirigentes, incapazes de compreender o actual formato político europeu e as consequências mais vastas da sua atitude, quando reclamam a independência completa da região autónoma da Catalunha, acabará numa inglória para ambas as partes.

Bem certo que a posição dos independentistas colhe simpatias mais gerais, não só pela pacificada e democrática acção interna que desenvolveram, para impor a soberania da Catalunha mas, e sobretudo, por haver regiões espanholas e europeias que aspiram ao mesmo estatuto. Mas isso não chega para convencer os espanhóis e o resto do mundo de que o desmembramento das actuais fronteiras nacionais dos países europeus e a proliferação de regiões tornadas países possa conduzir os seus povos a uma melhor situação do que aquela que actualmente existe.

Puigdemont e os seus correligionários, forçados pelos seus apoiantes ou ingenuamente idealistas, conduziram a Catalunha a um beco sem saída. Uma atitude que nenhum político sério e alguém que quer assumir a figura de representante de uma nova nação independente pode ter, ao não considerar os apoios locais e internacionais essenciais a tais objectivos.

Na sua “fuga” para a Bélgica, num auto-exílio que não agradou a outros dirigentes independentistas, nomeadamente o seu vice-presidente Oriol Junqueras e outros apoiantes republicanos de esquerda, Puigdemont justificou-se afirmando que não tinha estilo para “mártir”, o que aconteceria se ficasse na Catalunha, mas não conseguiu com a sua atitude evitar o mal-estar entre a sua formação política e as restantes independentistas, situação que também tem dificultado a formação de um novo Governo catalão.

No entanto, se não queria ser preso e vir a ser considerado como “mártir”, o que é que levou a “passear-se” pela Europa, sabendo que estava a ser vigiado de perto pelas autoridades espanholas e iria percorrer países com tratados de extradição com a Espanha e com legislações nacionais, como o caso da Alemanha, que o podem levar à prisão?

Incongruente ou não (no caso de ter provocado voluntariamente a situação, talvez por não ter mais nenhuma alternativa…), Puigdemont arrisca agora uma pena de prisão de trinta anos, no caso de ser extraditado para Espanha, aguardando-se a decisão da justiça alemã, que pode demorar entre dez e sessenta dias (ou noventa dias em casos excepcionais).

Entretanto, o parlamento catalão tem de encontrar forçosamente um presidente para a Catalunha, sob pena de voltar a ter novas eleições, entre 15 e 20 de Julho.

Com a confusão instalada no seu parlamento, Madrid a manter a suspensão da autonomia catalã, os catalães a ficarem fartos desta aventura sem solução à vista e com prejuízos económicos assinaláveis e os partidos catalães anti-independentistas a ganharem terreno junto das populações, basta que o Governo espanhol (de Madrid) tenha a coragem e o discernimento de ganhar a simpatia deste povo, resolvendo uma parte do problema que inflamou as gentes da Catalunha (a maior contribuição desta região para a economia espanhola, sem qualquer contrapartida), para serenar os actuais ânimos contestatários.

Digo serenar, não digo resolver!

Para além de que Mariano Rajoy (Presidente espanhol) nunca ter denunciado uma postura consensual na discussão com as anteriores autoridades catalãs, também estas, depois de tudo o que aconteceu, não vão deixar de reanimar a cultura e a língua catalã, como factores de resistência ao domínio de Madrid.

Conclusão: esta saga vai ter novos episódios!

LUIS BARREIRA

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