O escritor e a choldra

Opinião

O escritor e a choldra.

A decisão de retirar o romance “Os Maias” da lista das obras de leitura obrigatória para os estudantes do Secundário – decisão que, pelos vistos, não vem de agora – é mais um indicativo de que há gente no País empenhada em tudo fazer para alienar e estupidificar ainda mais um povo que insiste na sua sina de boçalidade e nisso parece ter orgulho. Mas qual é o perigo que uma obra redigida no século XIX pode conter? O perigo de ler Eça de Queiroz nos dias que correm é precisamente a actualidade da matéria que compõe os seus escritos. Os políticos (os tais que devíamos mudar com bastante frequência, tal como fazemos com as fraldas) e a generalizada “choldra” tantas vezes mencionados pelo escritor continuam presentes, de pedra e cal, e com perspectivas para se eternizarem, venham as legislaturas que vierem. São o pântano que nos atola, nos atrofia, nos tolhe os passos, e parece não haver forma de o conseguir drenar.

A juntar à choldra e ao compadrio reinante – que congrega políticos, gente da Comunicação Social, profissionais liberais e figuras públicas várias, entre as quais os fazedores de opinião; compadrio que mais não é do que uma forma “nacional-ó-porreirista” de corrupção (Portugal é um país extremamente corrupto, não esqueçamos de o lembrar) – temos o provincianismo, sempre presente, pelos menos desde os finais do século XVII, entre a nossa gente. As referências chegam sempre de fora, o que é estrangeiro é que é bom e Deus-o-livre ao nativo que ouse tocar a sineta, marcar uma tendência, mostrar pensamento próprio, demonstrar o menos óbvio; pecha que não deixa de ser irónica se aplicada, como é o caso, a um dos países que mais profundamente marcaram a humanidade. É que essa coisa dos Descobrimentos – sim, Descobrimentos, palavra e conceito hoje quase proscritos do léxico geral graças aos esforços de bípedes preconceituosos transformados em juízes da História – foi um processo muito mais elaborado e com consequências bem mais profundas na vida dos habitantes do planeta do que aquilo que tem vindo a ser registado ou até do que se possa imaginar. O resultado desses séculos de viagens, demandas e explorações deixaram vincos de tal forma profundos que hoje os integramos no nosso quotidiano e nem conta deles damos. Falo daquilo que comemos, na forma como vestimos, do modo como nos expressamos e como nos relacionamos uns com os outros, os objectos com que lidamos, enfim factos de tal forma adquiridos que os consideramos praticamente inatos. É todo um manancial de investigação possível que só agora começa a mostrar as pontas do véu.

Na época de Eça era a França a luz da civilização e o farol do pensamento. O próprio – quiçá pouco conhecedor da real dimensão e das consequências da nossa gesta marítima – admitia a sua rendição face à superioridade cultural gaulesa, afirmando-se profundamente influenciado por ela. Sim, Eça era um excelente jornalista, atento observador da realidade do seu tempo, mas de historiador tinha pouco. Se na sua época se impunha o galicismo, nas épocas posteriores impor-se-ia o anglicismo, que veio para ficar e ainda hoje perdura em versão dupla anglo-saxónica unida pelo grande mar atlântico. Fartam-se eles de distribuir as cartas em todos os domínios e mansamente continuamos nós (vejam-se os festivaleiros de estio em rituais de culto face aos projectos musicais fabricados pelas MTVs e quejandos) a seguir-lhes as tendências, a imitar-lhes os tiques, a admirar-lhes a “sua superioridade”.

Ainda hoje de manhã acompanhei o leite de soja colorido a chicória e cevada com a bombástica notícia de que o filhote do príncipe William completava cinco anos de idade, tendo os serviçais do turno na redacção tido o cuidado de compilar uns três minutos de imagens dos balbucios e da baba da régia criatura, afirmando que a vida do principezinho continha já “suficiente matéria para uma produção cinematográfica”. Não contente com a alarvidade, informa ainda a jornalista que o seu canal foi o primeiro a anunciar ao mundo o nascimento do rebento do filho mais velho da Diana de Gales, afirmação que seria acompanhada pelas imagens obtidas no sótão desse momento tão fundamental para os destinos da humanidade. Querem maior prova de provincianismo, de saloiice, de miserável pequenez?

Jornalismo de cloaca na sua pior expressão é o que vamos tendo. Não me merece qualquer consideração e não merece qualquer desculpa. É esse baixar de nível propositado a juntar a indecente colaboracionismo que fazem nomes grados da nossa grande reportagem (olhem-me só as tristes figurinhas) sentados lado a lado numa conferência de Imprensa de uma qualquer terreola lá do norte com os representantes dos Capacetes Brancos, súcia de terroristas convenientemente disfarçados de inocentes membros de uma ONG. Dos tais que aqui há uns dias foram resgatados da Síria às centenas pelos operacionais do auto proclamado regime segregacionista de Israel.

Joaquim Magalhães de Castro

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