Alberto Magalhães Alecrim

Alberto Alecrim (1932-2016)

O mestre da boa-disposição.

Sportinguista dos quatro costados, Alberto Magalhães Alecrim era bastante afável e respeitado por todos. Contador de estórias nato, articulava com mestria o humor nas suas melodiosas palavras, fazendo rir quem estivesse perto de si.

O antigo colaborador d’O CLARIM deixou-nos na passada segunda-feira, vítima de doença prolongada, no Hospital Conde de São Januário. Tinha 84 anos. As exéquias fúnebres realizam-se na próxima segunda-feira, a partir das 16 horas, com missa de corpo presente às 20 horas, na Casa Mortuária Diocesana.

O nosso arquivo contém algumas obras primas deste homem singular, que também foi do jornalismo. “Pronto! Acabou-se! Pela última vez falamos do Mundial de Futebol que «encomendou» a alma ao Criador, ganhando a equipa do país organizador, perdendo a outra que nos parecia com mais valor, mas por quem não morríamos de amores”, assim descrevia a partir de Munique o “nosso correspondente Friedrich Wuntergisch”, pseudónimo usado por Alberto Alecrim para relatar o Campeonato do Mundo da FIFA, realizado na então República Federal da Alemanha.

“Desceu o pano sobre o acontecimento e agora os leitores têm tempo de sobra para se dedicarem a outras leituras dos jornais, que por acaso são quase sempre sensacionais, mas muito difíceis de compreender por excesso de termos gramaticais!”, continuava o suposto Wuntergisch, na crónica “O CLARIM Desportivo”, publicada na edição de 11 de Julho de 1974.

“O inesperado aumento… de jornalistas, romancistas e oradores, depois de terminado o campeonato, provocou um afunilamento nas notícias, originando em muitos leitores alergias perturbadoras da vesícula, irritações do hemorroidal e até mau funcionamento da glândula pancrial [sic], mas contudo, ninguém baixou ao hospital, porque aquilo lá em cima, ao que parece, até anda muito mal, e de resto estas inflamações são provocadas pela grande quantidade de tinta que estão a escarrapachar nos jornais”, assinalava Friedrich Wuntergisch, que devia estar a acompanhar o desenrolar dos acontecimentos “in loco”, mas em boa verdade nunca saíra de Macau.

“Alguns muniquenses [sic] queixam-se de fortes dores na espinha, e os clínicos diagnosticaram «bicadas» de «bicos de papagaio», mas muito pior estão aqueles que de tanta «conversa fiada» não lucram mesmo nada, e só se interrogam – onde é que vai parar esta grande macacada?”

“É claro que a festa continua, porque este povo é imortal, vivendo sempre com esperança de que pelo menos tenha um lugar reservado na quinta das tabuletas e uma cama no hospital!”, rematava, ao seu estilo de olhar para a vida de forma despreocupada.

Na rúbrica “Broa D’Avintes”, Alberto Alecrim assinava com outro pseudónimo que ficou para a história: «Era o Rolando do Bolhão, em honra do Mercado do Bolhão, no Porto», confidenciou na entrevista concedida a este mesmo jornal, a 23 de Março de 2012.

PEDRO DANIEL OLIVEIRA
pedrodanielhk@hotmail.com

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