Na sua Carta Apostólica Misericordia et misera (MM), o Papa Francisco lembra que o nosso tempo é o tempo da misericórdia. Nesta breve e comovente Carta, o Papa argentino diz-nos para continuarmos a celebrar e a viver a misericórdia como um caminho de caridade e um apelo constante e urgente à prática das obras de misericórdia corporais e espirituais.
O nosso mundo precisa de amor e do consequente amor da misericórdia. Graças a Deus, há muitos entre nós que são misericordiosos: pessoas sensíveis ao sofrimento dos outros, que praticam a generosidade para com os necessitados, que são solidárias com os pobres. No entanto, são necessários muitos mais actos de misericórdia para ajudar as crianças famintas, os jovens solitários, as famílias desestruturadas, os idosos abandonados, as famílias deslocadas pela guerra, os discriminados, os escravos modernos (cf. MM n.os 3, 18, 19).
A responsabilidade dos cristãos é conhecer a sua fé (catequese), celebrá-la (liturgia) e testemunhá-la (caridade). A misericórdia, um efeito da caridade como amor ao próximo, é componente essencial da Fé Cristã e a sua prática é requisito para a salvação.
A fé pede aos cristãos não apenas que conheçam a caridade misericordiosa, mas que a celebrem: “Na liturgia, não só se evoca repetidamente a misericórdia, mas é realmente recebida e vivida” (MM nº 5). Ao longo da celebração da Eucaristia, a misericórdia de Deus ressoa como um leitmotiv reconfortante: A celebração da misericórdia divina culmina no sacrifício eucarístico, memorial do mistério pascal de Cristo, fonte de salvação para cada ser humano, para a história e para o mundo inteiro. Na Liturgia da Palavra, nas leituras bíblicas, “repassa-se a história da nossa salvação através da obra incessante de misericórdia que é anunciada. Deus fala-nos ainda hoje como a amigos” (MM n.º 6). O Papa Francisco deseja ardentemente que “a Palavra de Deus seja cada vez mais celebrada, conhecida e difundida, para que se possa, através dela, compreender melhor o mistério de amor que dimana daquela fonte de misericórdia”. Além disso, o Papa Francisco recomenda a prática da lectio divina (cf. MM n.º 7).
O amor e a misericórdia de Deus estão presentes na celebração de todos os Sacramentos, em particular no Sacramento da Penitência e da Reconciliação: “O sacramento da Reconciliação precisa de voltar a ter o seu lugar central na vida cristã”. A misericórdia de Deus é um acto de amor gratuito, incondicional e imerecido. Os pecados são cobertos pela misericórdia de Deus (cf. MM n.º 1): Deus perdoa todos os pecados, desde que haja “um coração arrependido que procura reconciliar-se com o Pai”. A misericórdia do Filho de Deus, de Jesus, é vividamente demonstrada em muitos gestos e sinais, em particular nestes dois ícones emblemáticos da misericórdia: os encontros de Jesus com a mulher apanhada em adultério (cf. Jo., 8, 1–11) e com a mulher que muito pecou (cf. Lc., 7, 36–50; MM n.os 1 e 2). Ao perdoar, a misericórdia de Jesus renova vidas, torna as pessoas livres e alegres. “Só Deus perdoa os pecados, mas também nos pede que estejamos prontos a perdoar aos outros, como Ele perdoa a nós”. O Papa Francisco acrescenta: “Como é triste quando ficamos fechados em nós mesmos, incapazes de perdoar!”. Ele pede aos sacerdotes que se preparem bem para o ministério da Confissão, para serem testemunhas da ternura paterna e generosos na dispensação do perdão de Deus. A partir de agora, todos os sacerdotes têm o poder de perdoar o pecado grave do aborto provocado, reservado antes do Ano da Misericórdia aos bispos e a alguns outros sacerdotes e religiosos (cf. MM n.º 12 e outros).
É bom conhecer o amor e a misericórdia. É melhor conhecê-los e celebrá-los. É melhor ainda conhecer, celebrar e testemunhar o amor e a compaixão. Conhecer a misericórdia caridosa, porém, pode ser apenas “letra morta”, “simplesmente clichés”, sem qualquer compromisso de praticar a misericórdia, ou uma bela teoria sem correspondente prática social. Aos crentes em Jesus é pedido que sejam misericordiosos como Deus Pai é misericordioso e que imitem Jesus, que é o “rosto radiante da misericórdia de Deus” (MM n.º 22).
Testemunhar o amor e a misericórdia implica trabalhar pela justiça e por uma vida digna para todos. Tal implica promover uma “cultura da misericórdia”, moldada pela “oração assídua, pela docilidade à acção do Espírito Santo, pelo conhecimento da vida dos santos e pela proximidade com os pobres”. “Querer estar perto de Cristo exige fazer-se próximo dos irmãos, porque nada é mais agradável ao Pai do que um sinal concreto de misericórdia” (MM n.os 20 e 16).
A consolação é outra face da misericórdia. É uma palavra de esperança consoladora para aqueles que sofrem: pessoas individuais, famílias e os moribundos. Ninguém deve ser excluído do alcance da misericórdia de Deus. Pede-se à Igreja que vista aqueles que estão nus no nosso mundo: “Ela se comprometeu a tornar-se solidária com os nus da terra a fim de recuperarem a dignidade de que foram despojados”. Num mundo que continua a promover “novas formas de pobreza e marginalização que impedem as pessoas de viverem com dignidade”, os cristãos estão empenhados em realizar obras de misericórdia caritativa (cf. MM n.º 19).
Frequentemente, o Papa Francisco sublinhou o carácter social da virtude da misericórdia e das obras de misericórdia. Logo, “não podemos esquecer-nos dos pobres: trata-se dum convite hoje mais actual do que nunca, que se impõe pela sua evidência evangélica” (MM n.º 20). Neste contexto, o Papa instituiu a Celebração do Dia Mundial dos Pobres no Trigésimo Terceiro Domingo do Tempo Comum, o Domingo antes da Solenidade de Cristo Rei: “Será a mais digna preparação para bem viver a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, que Se identificou com os mais pequenos e os pobres e nos há de julgar sobre as obras de misericórdia” (MM n.º 21).
A caridade é alegre, orante e misericordiosa. A verdadeira misericórdia caridosa é alegre e esperançosa. A misericórdia ajuda-nos a olhar para o futuro com alegre esperança, com fé e caridosa esperança na infinita misericórdia de Deus. É a esperança numa nova vida aberta pela misericórdia. É, acima de tudo, a esperança na vida eterna, que é uma oração cheia de esperança, em particular antes da morte (cf. MM n.º 15).
A misericórdia alegre e esperançosa é também misericórdia orante. A verdadeira oração caridosa e misericordiosa não é apenas exortativa, mas performativa e transformadora, ou seja, quando “invocamos a misericórdia com fé, é-nos concedida; enquanto a confessamos viva e real, efectivamente transforma-nos” (MM n.º 5).
O profeta Miqueias proclama-nos: «O que o Senhor exige de ti é apenas que pratiques a justiça, ames a misericórdia e a lealdade, e andes humildemente na companhia do teu Deus!» (Mi., 6, 8).
E lembra-te: “O amor torna fáceis todas as coisas difíceis” (Santo Agostinho). “A alma que está apaixonada não se cansa nem se fatiga”. A caridade é o amor de Deus nos nossos corações: amor a Deus e a todos os vizinhos – em particular aos vizinhos pobres. (Quando eu estava a terminar o último artigo sobre a virtude da Caridade, o Papa Leão XIV publicou, a 9 de Outubro de 2025, o seu primeiro documento papal Dilexi te – Eu te amei –, uma Exortação Apostólica. O seu subtítulo: “Sobre o amor para com os pobres” é verdadeiramente inspirador e inovador; é o primeiro documento papal focado apenas nos pobres. É muito legível e bem fundamentado na Revelação, na Tradição Cristã e no magistério social da Igreja. Uma Exortação de leitura obrigatória.
Palavras para reflectir: “O grau do nosso amor a Deus no final da nossa vida será a medida do nosso amor a Deus por toda a eternidade” (Santo Afonso Maria de Ligório, “O Maior e o Primeiro Mandamento”).
O Papa Francisco conclui a sua Carta Apostólica convidando os cristãos a aproximarem-se de Maria, a Santa Mãe de Deus, Mãe da Misericórdia, que ajudará todos a ver o rosto misericordioso de Jesus Cristo (cf. MM n.os 5 e 22). Encerramos a nossa série de colunas sobre a Caridade com a maravilhosa oração de São Tomás de Aquino:
“Ó Virgem Maria, Mãe de Deus, bendita e doce…
Confio ao teu coração misericordioso… toda a minha vida…
Obtém também para mim, ó Senhora dulcíssima, a verdadeira caridade
com a qual, do fundo do meu coração, eu possa amar o teu Santíssimo Filho,
nosso Senhor Jesus Cristo, e, depois dele, amar-te acima de todas as coisas,
e ao meu próximo, em Deus e para Deus”.
Pe. Fausto Gomez, OP

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