O Baptismo do Senhor: Humildade e Redenção
1. A Surpresa da Humildade
Este Domingo celebramos a Festa do Baptismo do Senhor, evento que encerra o Tempo do Natal e inicia o Tempo Comum neste novo ano. O Baptismo de Jesus marca o início do seu ministério público.
Lembro-me da última vez que voltei ao meu país, a Argentina. Ao chegar à nossa casa comunitária em Buenos Aires, deparei-me com uma imagem chocante: o Monsenhor Virginio Bressanelly, SCJ, ex-Superior Geral da nossa Congregação e bispo aposentado com mais de oitenta anos de idade, estava a lavar a calçada da nossa casa! Embora eu soubesse da sua simplicidade, pois ele havia sido meu formador, ver um ex-Superior Geral e bispo a fazer este tipo de trabalho causou-se uma grande surpresa.
Acredito que João Baptista ficou ainda mais chocado quando viu o seu primo Jesus aproximar-se dele, no meio da grande multidão de pecadores, para por ele ser baptizado.
2. João Baptista: Voz no Deserto
Jesus percorreu todo um caminho desde a Galileia, tendo deixado a sua mãe e a sua família, até às margens do Jordão, perto de Betânia, onde João estava a baptizar. João é a voz que clama no deserto (cf. Isaías 40, 3), aquele que deveria «preparar o caminho do Senhor». A voz profética permaneceu em silêncio durante quatro séculos, depois que o profeta pós-exílico Malaquias anunciou o regresso de Elias: «Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor» (Malaquias 4, 5).
Agora, Jesus testemunha que Elias regressou na pessoa de João (cf. Mateus 11, 14). Jesus não fala de reencarnação, mas da vinda de um profeta tão poderoso e zeloso como Elias. De facto, grandes multidões iam ter com ele de todos os cantos da Judeia, Samaria, Galileia e mais além. O seu impacto era imenso, alimentando esperanças messiânicas numa época de conflitos, ocupação estrangeira e desespero.
Estranhamente, este profeta não convidava as pessoas a pegarem em armas contra os opressores. Ele exortava-as à conversão, a confessar os seus pecados e a mudar os seus caminhos. O caminho do Senhor que ele estava a preparar deveria ser construído nos corações e nas almas de cada pessoa – um lugar onde nenhum invasor estrangeiro ou tirano jamais poderia chegar, onde nenhuma doutrinação poderia ser eficaz. Era uma libertação interior da opressão do pecado, uma purificação dos desejos egoístas que nos desumanizam e estabelecem hostilidade e violência entre nós.
Havia a necessidade de um «mais forte» para nos libertar dessa alienação sob as forças do mal: «Todavia, se é pelo dedo de Deus que Eu expulso os demónios, então, com toda a certeza, é chegado o Reino de Deus sobre vós. Quando um homem forte, bem armado, guarda a sua casa, os seus bens estão seguros. Mas, quando alguém mais forte o ataca e o vence, tira-lhe a armadura em que confiava e divide os bens que lhe restaram» (Lucas 11, 20-22).
O modo de vida e as vestes de João no deserto assemelhavam-se às de Elias, sinalizando uma vida de penitência e transformação interior. Um profeta é um homem de Deus, alguém que experimentou a palavra de Deus nas profundezas do seu ser. Ele deveria cumprir a vontade de Deus ou, como Mateus diz, «toda a justiça» (Mateus 3, 15).
Quando Jesus se aproximou de João e pediu para ser baptizado, João reagiu como qualquer um de nós teria reagido: «Sou eu quem precisa ser baptizado por ti, e vens tu a mim?» (Mateus 3, 14).
3. Jesus: O Servo que Salva
Poderíamos perguntar: Jesus precisava de se converter? Que pecados deveria ele confessar, se nasceu sem pecado? A sua resposta a João ajuda-nos a compreender: «Deixa assim, por enquanto; pois assim convém que façamos, para cumprir toda a justiça» E então João consentiu (Mateus 3, 15).
João tinha vindo para cumprir a vontade de Deus, chamando as pessoas à conversão. Um profeta é enviado para cumprir a vontade de Deus. Quando Jesus, o Cordeiro de Deus (cf. João 1, 29), lhe pede para cumprir «toda a justiça», João concorda e baptiza-o.
E qual é a vontade de Deus? Ao ser baptizado, Jesus alinha-se com os pecadores, identificando-se com a humanidade pecadora. Ao descer ao Jordão, Jesus antecipa a sua própria morte. Carrega o fardo dos nossos pecados prenuncia o carregar da cruz até ao Gólgota.
Como escreve São Paulo: «Porque assim como, por meio da desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por intermédio da obediência de um único homem, muitos serão feitos justos» (Romanos 5, 19).
Este mistério só seria plenamente compreendido após a ressurreição do Senhor. O baptismo é a reconstituição da morte e ressurreição de Cristo, que se efectiva em cada cristão no dia em que entra numa vida de graça. É o nosso verdadeiro renascimento na vida de Deus, na comunhão dos santos.
A descida de Jesus ao Jordão é também uma figura da sua descida ao Hades para libertar aqueles que estão presos pelo diabo na «terra da escuridão profunda» (Isaías 9, 2).
Jesus apresenta-se como um servo. Embora ele próprio não tivesse pecado, assume o jugo dos nossos pecados, identificando-se com a humanidade pecadora. Isto é «toda a justiça»: Deus quer salvar-nos da nossa própria realidade. O que não é assumido, não é redimido.
«Sobre o seu corpo levou todas as nossas doenças; contudo, nós o julgamos culpado e castigado por Deus. Pela mão de Deus ferido e torturado. Mas, de facto, ele foi transpassado por causa das nossas próprias culpas e transgressões, foi esmagado por conta das nossas iniquidades; o castigo que nos propiciou a paz caiu todo sobre ele, e mediante suas feridas fomos curados» (Isaías 53, 4-5).
Obrigado, Jesus, por nos salvares desta maneira misteriosa e nos mostrares o caminho da humildade e do serviço. Ajuda-nos a não nos escandalizarmos com o pecado, nem a nos afastarmos das tuas ovelhas perdidas, mas dá-nos um coração compassivo como o teu, que se dignou a rebaixar-se à nossa condição lamentável e a elevar-nos à vida verdadeira.
Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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