Turismo de Massas: a maldição de uma benesse

Destinos de sonho, destinos gastos

Destinos de sonho, destinos gastos

Têm sido notícia nos últimos meses e semanas as manifestações ocorridas em Veneza e Barcelona de residentes locais fartos das hordas dos turistas que dia após dia lhes enchem os cantos da cidade onde vivem e trabalham. Não me surpreende a atitude, mas longe de mim vir aqui defender a legitimidade de quem bem soube ordenhar a vaca e agora que o copo está a transbordar ordenam ao bicho que deixe de dar leite. Obtidos todos os lucros possíveis (Veneza e Barcelona são dois perfeitos exemplos do desprezo e chulice organizada da parte dos residentes para com quem vem de fora) os visitantes deixaram de interessar. Mais: transformaram-se em “persona non grata”. O comportamento dos habitantes das mencionadas cidades assemelha-se aos famosos deste mundo que tudo fazem para aparecer nas notícias, nas capas de revista, na boca de todos, mas quando a sua intimidade é devassada comportam-se como virgens ofendidas.

Nós, em Portugal, ainda estamos na fase do deslumbramento e pasmamos e divulgamos nas redes sociais, orgulhosos, essa nossa recente descoberta pelo mundo. Mundo que para muitos se resume aos “ratings” da CNN, BBC, Condé Nast Traveller e outras miudezas que têm vindo a colocar (lá terão os seus interesses) nos píncaros as cidades do Porto e de Lisboa e o recém descoberto arquipélago dos Açores. Coitado, lá se vai à vida um dos segredos mais bem guardados do planeta.

Opiniões à parte, a verdade é o que turismo de massas é um depredador implacável, e só agora vai no adro essa gigantesca procissão que são os chineses a sair de casa. Daqui a uns anos será insuportável visitar determinadas cidades do planeta (lá chegará a vez de Lisboa e do Porto), daí a inevitável aplicação de cotas, como se faz agora em Londres e Atenas em relação ao trânsito.

 

REALIDADE E EXEMPLO

Aqui na região, de longe vem a descaracterização e a invasão turística, que dos locais não origina protestos, antes sorrisos plastificados e desdém quanto baste. Enfim, há quem viva bem com isso. Não fico nada surpreendido com o que me vão contando: praias superlotadas, garrafas vazias de água mineral a flutuar, plásticos a enrolarem-se nos pés dos banhistas montados em motos de água ou em banana-boats a ameaçar constantemente os nadadores mais ousados ou menos atentos. A verdade é que há décadas se prenunciava o cenário que “anima” agora locais como Pukhet, daí a razão de nunca lá mais ter posto os pés. Em contrapartida, e numa recente passagem pela Tailândia, aproveitei uns dias mortos em Banguecoque para dar um salto a uma pequena ilha de que se falava muito há uma década atrás, mas que nunca tinha visitado. Refiro-me a Ko Samet, reputada pelo seu clima de eleição: enquanto nas restantes ilhas chove a cântaros, Ko Samet mantem-se ao seco. Mas, como em tudo, manifesta-se também aqui o reverso da medalha. Precisamente devido à fraca precipitação anual essa ilha sofre de endémica falta de água.

Devo confessar que ia preparado para todos os choques, mas aquele com que fui confrontado ultrapassou as expectativas. O parque de estacionamento em frente ao embarcadouro estava repleto, como completas estavam as reservas nos bungalôs das estâncias existentes na ilha. É certo que estávamos em época de feriados e já lá vai o tempo em que eram apenas os estrangeiros a usufruir das belas praias do País. Também os tailandeses o fazem. E ainda bem. Há, no entanto, que fazer contas ao impacto ambiental que esse acréscimo de gente às praias acarreta consigo. E as provas da existência de uma total falta de consciencialização ecológica entre os tailandeses são mais do que visíveis em Ko Samet. Os areais da ilha transformaram-se em pouco mais do que um vazadouro para banhistas temporários incapazes de dispensar os refrigerantes e os sacos de batatas fritas por um fim de semana que seja. No que se refere à poluição visual e paisagística, basta dizer que cada proprietário de estância teve total liberdade para escolher a cor, o formato e local de construção das suas cabanas de aluguer. Se a escassez de água em Ko Samet é um facto inegável, o mesmo não se pode dizer da electricidade. Avistada à noite, de um dos barcos de pesca que fazem a ligação com o continente, toda a costa de Ko Samet mais parece um arraial em permanente folia. Tire os cavalinhos da chuva quem planeie ir para ali em busca de paz de espírito e céu estrelado.

Depois do que vi em Ko Samet desvaneceu-se por completo a vontade que tinha de voltar a rever três outras pérolas insulares desse país: Ko Samui, Ko Phangan e Ko Tao.

A zona costeira oriental da Tailândia prolonga-se do golfo com o mesmo nome, desde o extremo leste da província de Trat até à fronteira malaia, numa extensão de mil e quinhentos quilómetros. A costa oeste é mais curta: 560 quilómetros ao longo do mar de Andaman. De Ranong, junto à fronteira de Myanmar, até Satun. Dezoito dos reservas naturais tailandesas são parques marinhos com protecção legal para toda a zona costeira, as ilhas em redor e o alto mar. Na sua totalidade, a área protegida abrange treze por cento do território e águas territoriais tailandesas, um dos índices mais elevados do mundo. Comparativamente, por exemplo, a Índia protege apenas 4,2 por cento, os Estados Unidos 10,5, o Japão 6,5 e a França 8,8 por cento dos seus territórios. De entre os parques marinhos existentes na Tailândia, há que destacar o parque natural de Ko Terutao, arquipélago ao norte da fronteira da Malásia rodeado de inúmeros corais e onde é ainda possível observar a desova das tartarugas na praia.

 

O CASO DAS FILIPINAS

Como em todos os países com grande densidade populacional, a pressão sobre o ecossistema da Tailândia ou das Filipinas (só para darmos outro exemplo) é constante. Há cinquenta anos, cerca de setenta por cento da superfície total desses países era constituída por floresta, enquanto que as zonas costeiras, alheias a esse fenómeno de massa que é o turismo e a pesca desenfreada, permanecia ainda um feudo das espécies aquáticas que aí viviam.

No que se refere às Filipinas, a catástrofe ocorrida na ilha de Leyte em Novembro de 1991 despertou os filipinos do seu torpor e complacência em relação aos problemas ecológicos. Como consequência da passagem de um destrutivo tufão, torrentes de água vindas da montanha inundaram as planícies provocando a morte de cinco mil pessoas e deixando desalojadas outras cinquenta mil. Anos sucessivos de corte ilegal de árvores desprovera as encostas das montanhas de vegetação que as protegia das súbitas cargas de água que caem com frequência e inesperadamente durante a estação das chuvas.

Outro dos graves problemas que afligem a ecologia das Filipinas são os métodos de pesca que recorrem ao uso de cianeto e de explosivos. Ambos ilegais, tornam-se difíceis de irradiar por neles estarem envolvidas largas somas de dinheiro. No primeiro caso, o cianeto é utilizado para atordoar o peixe que vive nos recifes de corais de maneira a que possa ser mais facilmente capturado e posteriormente vendido para o estrangeiro – sobretudo o Japão. Para além de exterminar a metade do pescado que habita o recife, o veneno destrói também o próprio coral, que esbranqueia à medida que morre, acabando por se transformar em mero fóssil coberto por algas. O dinamite produz o mesmo efeito, só que de uma forma aparentemente mais devastadora, já que os seus efeitos são visíveis de imediato.

Na ilha de Palawan, sob a coordenação do jornal ecológico Bandillo ng Palawan (que primeiro alertou a comunidade para este problema), tem sido feito um esforço para seja criada legislação capaz de por um travão a estas forças destrutivas. No entanto, funcionários governamentais corruptos, os militares, a polícia ou até os próprios pescadores – todos eles com interesses a proteger – não parecem dispostos a “desperdiçar” assim de mão beijada tal fonte de lucro.

A consciência ecológica começa, por outro lado, a frutificar noutras partes do País. O Ministério do Interior e as autoridades municipais, com a patronagem do Presidente filipino, publicam anualmente uma lista com a “as mais limpas e ecológicas cidades e províncias” das Filipinas. O certo é que as populações começam a preocuparem-se seriamente para que as suas cidades ou aldeias fujam aos derradeiros lugares dessa lista. Puerto Princesa, capital da ilha de Palawan – como não podia deixar de ser – lidera essa lista, a provar que a consciencialização ecológica das populações, por mais remoto que seja o recanto do País, é uma batalha que pode ser ganha.

Joaquim Magalhães de Castro

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