Três países de uma assentada

Três países de uma assentada

Estamos em Saint Martin. É Dia de Páscoa. Escrevo este artigo que deverá ser publicado quando já estivermos em Charlotte Amelie, nas Ilhas Virgens Americanas.

A decisão de seguirmos viagem junto às ilhas das Caraíbas, em detrimento de uma rota mais directa em alto mar, revelou-se acertada logo no primeiro dia. Saímos de Pointe-à-Pitre, juntamente com o Maião, e optámos por parar no ancoradouro de Deshaies, no norte da Ilha de Guadalupe, para passar a noite, visto que o mar estava alteroso e o vento bastante forte. No entanto, uma vez que chegámos já de noite, com visibilidade reduzida e falta de espaço, as opções para ancorar não foram muitas. O Maião chegou uma hora antes, pelo que ainda foi capaz de entrar com luz. Já nós tivemos de largar âncora nas franjas da baía, em águas mais profundas. Por volta da meia-noite, com o vento a levantar e a rondar os trinta nós, o inevitável aconteceu: arrastámos âncora e fomos obrigados e levantar ferro. Como o vento não se mostrou cooperante saímos da baía para esperar que amainasse, mas tal não aconteceu. Decidimos então levantar as velas e rumar a Antigua e Barbuda durante a noite, visto serem apenas vinte milhas – um percurso com ondas altas, muito vento e horas de incerteza quanto ao que iríamos encontrar, pois nada estava planeado.

Quando nos aproximámos de Antigua fomos directamente para o ancoradouro de Jolly Harbour, onde ficámos ancorados bem fora, para precaver novos incidentes com a âncora. Ali ficámos dois dias sem darmos entrada (formal) no País e continuámos para São Bartolomeu, que dista cerca de setenta milhas náuticas. Zarpámos depois do pequeno-almoço e só aportámos no destino por volta da meia-noite. Na ilha francesa, conhecida por ser um paraíso para os milionários deste mundo, nem tentámos ancorar, dado que a baía estava, literalmente, repleta! Como havia a necessidade de ancorar com espaço, para que o barco desse uma volta de 360 graus – os ventos assim rodaram durante o dia – fomos rápidos a apontar o Dee para a Ilha de Saint Martin, um local partilhado por franceses e holandeses, onde estivemos há dois anos. Antes da hora do pequeno-almoço já estávamos na baía de Simpson, bem junto da ponte levadiça que dá entrada na famosa lagoa de Saint Martin, que nesta altura do ano alberga grande parte dos maiores veleiros e iates do mundo. É um vaivém contínuo e diário ao nosso lado, com os barcos a entrarem e a saírem da lagoa.

Neste preciso momento estou sentado no poço veleiro. Vejo jactos particulares a levantarem voo do aeroporto internacional da ilha, e cinco super-veleiros, todos eles com mais de cem metros de comprimento, juntamente com dois iates que certamente não teriam espaço para atracar na marina de Macau, que esperam para entrar na baía. Apesar deste ser um mundo de ricos, há regras e a ponte apenas abre nos horários definidos, excepto em casos de emergência. A espera ao longo de todo o dia faz com que esteja sempre uma “mão-cheia” de iates e veleiros ao largo, sendo o cenário tão impressionante que existe um bar, ao lado da ponte (propriedade do Saint Martin Yacht Club), que é conhecido mundialmente por ser o melhor lugar para se verem estes super-iates de perto.

Há barcos de todas as nacionalidades dentro das diversas marinas situadas na lagoa. Sabemos da existência de um super-veleiro, propriedade de um multi-milionário português, que deveria estar por estes lados mas ainda não o conseguimos encontrar. A única vez que o vimos foi em Les Saintes, em Guadalupe. Também descobrimos outro veleiro (de dimensões modestas para o normal nesta altura do ano, cerca de 120 pés!), propriedade de alguém de Hong Kong, cuja tripulação é exclusivamente composta por chineses. Se conseguir apurar mais alguns detalhes, dar-vos-ei conhecimento, a título de curiosidade.

Hoje, como estamos em modo de espera para o dia de partida rumo às Ilhas Virgens Americanas, visitámos a mundialmente famosa Sunset Beach (Praia do Pôr-do-Sol), cujo nome nada vos poderá dizer, mas que muitos conhecem pela Internet, dada a proximidade da pista do aeroporto à praia. É uma linha de areia branca, com águas límpida, sendo uma atracção que leva milhares de turistas a passarem algumas horas na praia, olhando para o céu. Para além da aterragem – os aviões fazem autênticas razias à praia – a outra atracção é a descolagem. As turbinas gerem uma turbulência de tal ordem, capaz de provocar uma pequena tempestade. Embora haja inúmeros avisos de perigo para a saúde (ou perigo de morte, em alguns casos), muitos turistas procuram sensações fortes, pendurando-se na rede de delimitação do aeroporto, com o objectivo de serem projectados com a deslocação do ar.

Nós também ali passámos umas horas, antes e depois do almoço, tirando fotografias para a posteridade. Aproveitámos para nadar um pouco e comer o farnel que preparámos com “chi-pa-pao” para o almoço.

Voltaremos a dar notícias a partir de território americano, dentro de alguns dias. Espero que todos tenham tido uma Santa Páscoa, junto das respectivas famílias.

JOÃO SANTOS GOMES

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