São Pio X

SÃO PIO X

O Papa da Eucaristia

A 21 de Agosto celebraremos a festividade de um santo do séc. XX. De um Papa, mais concretamente São Pio X, italiano, nascido a 2 de Junho de 1835 em Riese, no Véneto (nordeste de Itália), vindo a falecer no Vaticano em 20 de Agosto de 1914. É o 257º Papa da história da Igreja Católica, governando-a entre 1903 e a sua morte. Sucedeu a Leão XIII, tarefa quiçá difícil, mas que levou a bom rumo. A sua acção, como a sua vida, tornaram-no uma figura singular e de grande piedade, vindo a ser, pela obra e santidade, canonizado em 1954 por Pio XII. Desde Pio V (1566-72) que nenhum Papa tinha sido canonizado até então. Mas, quem foi, afinal, São Pio X?

Giuseppe Melchiorre (José Melchior) Sarto nasceu na província de Treviso, não muito longe de Veneza, numa família rural numerosa, sendo o segundo dos dez filhos do carteiro Giovanni Battista Sarto (1792-1852) e da costureira Margherita Sansoni. Foi baptizado no dia seguinte ao seu nascimento, como era tradição. A família era humilde, mas piedosa e atenta à formação dos filhos.

Começou por estudar em Riese, terra natal, passando depois para o Liceu Clássico, o Ensino Secundário, em 1846. Fê-lo a instâncias do seu pároco, que reconheceu no jovem Sarto dotes de inteligência e espiritualidade, ajudando o menino nos estudos. Forjou logo ali a sua tenacidade e capacidade de resistência, pois o liceu ficava a oito quilómetros, em Castelfranco, distância que muitas vezes percorria a pé, ida e volta. Passou depois ao Seminário de Pádua, para o qual obteve uma bolsa de estudos, concedida pelo bispo de Treviso.

Ordenou-se sacerdote aos 23 anos, em 1858, iniciando também o ministério pastoral, que seguiu até morrer. Eram tempos difíceis, recorde-se, em pleno século de lutas entre a Fé e a Ciência, a Igreja e o mundo político, na vertigem dos ataques liberais ao mundo eclesiástico e na crescente afirmação da laicização da sociedade, a par do crescendo do agnosticismo e do ateísmo, numa sociedade que enriquecia com a industrialização mas que criava marginalidades e franjas de pobreza e desumanidade numa escala nunca vista. Neste contexto, o jovem presbítero Sarto percorreria com afinco e trabalho a vida eclesiástica, merecendo atenção dos seus superiores e reconhecimento pelo zelo e dinamismo pastoral.

Em 1874 ascendeu a cónego da catedral de Treviso, sua diocese natal, chegando a bispo em 1884. Nove anos volvidos, recebia de Leão XIII o barrete cardinalício. Foi antes reitor do Seminário Maior de Treviso, além de seu director espiritual. Na diocese percorreu mesmo todas as etapas do múnus eclesiástico, chegando a chanceler da Cúria Diocesana, examinador pró-sinodal e vigário capitular.

 

Bispo, cardeal…

Em 1884, como já vimos, foi consagrado bispo de Mântua. No ano de 1891 Leão XIII nomeou o bispo D. Sarto assistente ao trono pontifício, e dois anos depois foi criado cardeal-presbítero (titular de São Bernardo alle Terme), no dia 12 de Junho de 1893. No dia 15 de Junho foi elevado a Patriarca de Veneza. Todavia, resultado das vicissitudes do tempo entre a Igreja e o Estado italiano, a posse efectiva da sede patriarcal veneziana demoraria ainda dezasseis meses, pois era necessária a ratificação estatal.

É imperativo recordar que esta ascensão meteórica do cardeal D. Sarto até à sé metropolitana de Veneza se vinca em boa parte para lá das qualidades humanas e espirituais, no múnus pastoral, no trabalho e realizações enquanto prelado, particularmente em Mântua, alicerçado na experiência como pároco, anteriormente, ou como formador no Seminário. É importante salientar ainda a formação em direito canónico, além de especialização teológica em São Tomás de Aquino, atributos mais do que suficientes para justificar a competência e verticalidade em defesa da fé e da Igreja.

 

…e Papa!

A 20 de Julho de 1903 falecia entretanto o Papa Leão XIII, que deteve um dos maiores e mais profícuos pontificados da história da Igreja, 25 anos no trono de São Pedro, entre 1878 e 1903. Reunido o conclave para eleição papal, ao fim de cinco dias (alguns dizem quatro…) era eleito o novo Sumo Pontífice: nada mais nada menos que o cardeal D. Sarto, Patriarca de Veneza. Que foi coroado Papa logo a 9 de Agosto, poucos dias depois, na Basílica de São Pedro, como Pio X.

O dia seguinte seguramente se revelou difícil, complicado. Mas Pio X conhecia bem o mundo em que vivia e as tempestades que se avizinhavam. Já vimos que o contexto era terrível, entre a laicização da sociedade, o Modernismo e os desvarios de parte do Clero, que nesta altura, como Pio X experimentara na diocese de Mântua, estava em boa parte desorientado. Os estudos bíblicos, a Teologia, a liturgia sofriam nesta altura alterações e mitigações, o confronto com a ciência e o Modernismo encrispavam as hostes e o facilitismo eclesiástico era muitas vezes a opção, o que redundava numa criação de precedentes de certa desorganização.

A mão forte e firme do Papa impunha-se. E aqui surge a primeira marca do pontificado de Pio X: consistência, coerência e firmeza. Um tridente de acção que se inscrevia nas três características que perpassaram do sacerdote para o múnus petrino, conforme reza a lápide do seu túmulo: pobreza, humildade, bondade. Digamo-lo aqui, sem medos: foi um grande Papa, um verdadeiro e tenaz, resiliente e bondoso trabalhador da vinha do Senhor.

Porque o afirmamos? Em primeiro lugar blindou a eleição papal de quaisquer intervenções civis ou de poderes externos. Depois, deu passos para a reconciliação da Igreja e do Estado italiano, ao mesmo tempo que marcou posição contra as “associações culturais” criadas pelo Estado francês e que pretendiam controlar as propriedades eclesiásticas na França. Depois de várias consultas, Pio X considerou-as anti-canónicas e repudiou-as firmemente. Condenou as leis de separação do Estado e da Igreja, muito em voga então, como em Portugal, por exemplo. Foi um Papa que nunca titubeou ou mostrou fraqueza nas relações diplomáticas. Combateu ainda o Modernismo, embora com polémica. Reformou a liturgia, abrindo-a à participação do povo na celebração eucarística, permitindo a prática da comunhão frequente, fomentou o acesso das crianças à Eucaristia. Promoveu o estudo do Catecismo, ele que fora o Papa do século XX com maior experiência paroquial. Reformou ainda o Código de Direito Canónico.

Foi acima de tudo humano, daí a sua devoção eucarística, tendo sido um grande lutador e defensor da dignidade do ser humano. É uma das maiores figuras da Igreja dos últimos séculos, um devoto da Eucaristia e da sua dimensão humana, um amigo dos pobres e um exemplo de humildade e acção.

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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