Recordar o Natal em Macau, Moçambique e na Áustria

Devoção, tolerância e afecto

Devoção, tolerância e afecto.

Quando era pequenino, os pais de José Chan, presidente de três confrarias católicas de Macau, levavam-no com os seus irmãos às igrejas da Sé, de Santo António, ou de São Domingos, para assistirem à Missa do Galo.

«Normalmente, íamos à igreja de São Domingos porque o meu pai nasceu nessa zona e o meu tio tomava conta da igreja. Havia também um amigo meu, chamado Francisco do Rosário, e o meu padrinho, Francisco Sales Poupinho, secretário de duas confrarias, que me ensinaram a trabalhar na missão católica», recordou o presidente das confrarias de Nossa Senhora do Rosário, do Senhor Bom Jesus dos Passos e de Santo António.

Na memória de José Chan também estão gravados os momentos em que fazia, com o pai e alguns irmãos, a distribuição das edições especiais de Natal d’O CLARIM nas freguesias da Sé, de São Lourenço e de São Lázaro, bem como a devoção das famílias macaenses pela quadra natalícia.

A viver em Moçambique até aos 29 anos de idade, o ex-produtor e realizador da Rádio Macau, Helder Fernando, afirmou a’O CLARIM que parte substancial da população era muçulmana e não celebrava o Natal como quadra de importância religiosa, ou até mesmo cultural, o que não acontecia com os católicos e crentes de outros ramos do Cristianismo.

«Esta realidade não impedia que os muçulmanos desejassem Boas Festas, ou Bom Natal, aos outros concidadãos», disse o radialista, acrescentando: «Lembro-me de um dia, já com barba a despontar, de uma família muçulmana das minhas relações abrir uma divisão da sua casa e mostrar-me, em sorriso silencioso, um presépio com figuras em pedra, terra e madeira, feitas à mão pelos irmãos mais novos, meus companheiros de escola, de aventuras e de conversas pela noite dentro».

«No momento em que olhei para aquele presépio, em cima de uma esteira, percebi que aquela família islâmica tinha-o construído para mim, que não tinha presépio em casa», justificou. «A multiculturalidade, quando praticada e não imposta, só traz vantagens, mesmo quando exercida na fuga possível à ditadura da opinião única, seja política, religiosa ou de qualquer outra tradição», vincou Hélder Fernando.

Bastante diferente, mas inesquecível, era o Natal do padre Franz Gassner, professor-assistente da Faculdade de Estudos Religiosos da Universidade de São José.

«Na minha casa austríaca, na véspera de Natal, a nossa família reunia-se pelas 18 horas para levar incenso e água benta a cada quarto da casa. Começávamos a partir do forno da cozinha e o meu pai, ou o filho mais velho, tinha que carregar o incenso, enquanto a minha mãe e o outro filho carregavam a água benta numa caneca com um galho ou uma lanterna para iluminar o caminho, porque todas as luzes eléctricas tinham que estar desligadas», lembrou o sacerdote dos Missionários do Verbo Divino.

«Também íamos visitar o gado ao estábulo para abençoá-lo com incenso e água benta. Quando regressávamos deste passeio, entrávamos numa divisão da casa onde tínhamos a árvore de Natal e os presentes, mas só para os vislumbrarmos de relance, porque tínhamos primeiro que rezar juntos o terço», referiu.

«Após esta experiência de gratificação atrasada, cantávamos em frente à árvore de Natal e podíamos finalmente abrir os presentes, seguindo-se a ceia de Natal em família. Mais tarde, antes da meia-noite, caminhávamos em direcção à nossa igreja paroquial para assistirmos à missa. Caminhar juntos com uma lanterna pela noite nevada era uma experiência inesquecível de Natal», frisou o padre Gassner.

PEDRO DANIEL OLIVEIRA

pedrodanielhk@hotmail.com

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