Passeios por Havana – 2

O Nacional e a lembrança do Maine

O Nacional e a lembrança do Maine

É tal a voga turística pró-Cuba dos nossos dias que se não reservarmos estada para várias noites na cidade de Havana corremos o risco de termos de procurar novo poiso logo após a primeira dormida. É o que me acontece a mim. Mas, «no hay problema», tranquiliza a mãe do Mykel. Que comesse a omelete descansado que ela encontraria alternativa para os dias seguintes. Um par de telefonemas bastaram. Eis-me levado, quase ao colo, pela mãe, pelo próprio – ao qual se deve o empreendimento familiar – pai e até pela esposa do Mykel. O destino é a casa de uma vizinha, onde pelo mesmo preço (uns meros dez dólares) usufruo dum quarto maior e com janela.

Decido bordejar um bom pedaço de costa – interdita à natação e pesca, com ou sem balsa, e desprovida de qualquer tipo de embarcação ao largo – até onde os meus chinelos de dedo me permitam ir. Sem rumo. Esta a forma ideal de começar a ver uma cidade. E sigo em contramão. Ou seja, em vez de rumar à minha já velha conhecida Ciudad Vieja, como seria natural, opto pela direcção inversa, talvez inspirado pela frase “omne ignotum pro magnifico” (tudo o que se não conhece (é tido) por magnífico), que alguém garatujou no muro ribeirinho. Pouco depois vejo-me face a uma das várias estátuas equestres de heróis nacionais cubanos espalhadas um pouco por toda a Havana. Pode este específico paladino, alcunhado de “titã de bronze”, devido à cor da pele, ser definido como um “Che avant la lettre”. Se Guevara era argentino, José Antonio Maceo tinha pai venezuelano, agricultor e comerciante de produtos hortícolas, e mãe afro-cubana de ascendência dominicana. A sua batalha antecedera a do médico-guerrilheiro de Rosário em quase um século, e era de origem outra o alvo a abater. Pelejara também o progenitor, quando jovem, contra os castelhanos, integrado nesse movimento que como rastilho levou a pólvora a todas as partes da América, atiçado por figuras como Bolívar, Páez e outros que tais.

José Antonio Maceo y Grajales, nascido no Verão de 1845 numa remota terreola da província do Oriente, desdenharia as técnicas agrícolas ensinadas pelo pai em troco da disciplina inculcada pela mãe que lhe moldaria o carácter que o conduziria à liderança militar. Assim reza a placa afixada na base do monumento erguido na antiga enseada de San Lazaro onde em tempos funcionou uma bateria militar: “Audaz e temerário nunca pegou em armas contra a lei da República. Lutou até morrer”. A data é de 7 de Dezembro de 1896. Vira os costados ao mar, este insigne caribenho, fitando de frente um arranha-céus que em 1959, o ano de todas as mudanças, ainda incompleto, estava destinado a sedear o Banco Nacional de Cuba. Quis o fado, e certamente aqueles que de cima emanam ordens, que ali fosse instalado um hospital. Embora pretendesse ser modelar, só abriria as portas em 1982. Isto é, 23 anos depois. O hospital Hermanos Ameijeiras – assim designado em homenagem “aos três irmãos mártires da luta revolucionária”, nados e criados nas proximidades – granjearia fama mundial após ter dado a cara no documentário “Sicko” de Michael Moore. O polémico realizador levara aí um grupo de norte-americanos “para provar que um sistema e saúde social poderia oferecer aos pacientes um atendimento melhor do que o recebido nos Estados Unidos”, onde, como é sabido, quem não tem dinheiro ou seguro simplesmente não é tratado. Saber-se-ia mais tarde que, afinal, o dito “hospital modelar” prestava serviço apenas à elite cubana, não estando portanto disponível para o comum dos cidadãos.

Compõe o ramalhete da envolvente urbana, a meia distância entre o Hermanos Ameijeiras e a estátua de Maceo, o convento neo-gótico da Imaculada Conceição, construído em 1874 e até 1961 serventia escolar para meninas. Belos são os tectos de madeira e notáveis os vitrais da capela ao convento agregada. Mais adiante, e estrela de mundano gabarito, o Hotel Nacional, de linhas greco-romanas, mouriscas e de arte-deco riscadas por gringos arquitectos e por gringos empresários custeado, foi também erguido sobre os restos de uma pequena fortaleza, “a bateria de Santa Clara”, datada de 1797. Escolheu-o Francis Ford Coppola como palco onde contracenaria o fictício personagem Michael Corleone com as bem reais figuras do crime organizado Lucky Luciano, Meyer Lansky, Santo Trafficante Jr. (que raio de nome para um mafioso!) e Vito Genovese, só para citar alguns dos biltres da época. Numa das cenas mais conhecidas do aclamado filme “O Padrinho” seria recriada a infame Conferência de Havana de 1940. Nela se teceram as linhas dos negócios sujos das décadas seguintes. Oficialmente, o Hotel Nacional abriu as portas no penúltimo dia de 1930 e, como era previsível, cedo se tornou poiso favorito dos turistas norte-americanos. Mas só se eles fossem brancos, pois aos negros era vedada a entrada. Sentiram na pele tão descarado “apartheid” figuras do universo musical da época como Josephine Baker e também Nat King Cole, que em 1956 fora cantar a Cuba. Cole, apesar de não ter podido pernoitar na charmosa unidade hoteleira, honrou o contrato e o seu espetáculo no Tropicana foi um sucesso tal que no ano seguinte voltaria a Havana, acrescentando dessa vez ao reportório temas em Espanhol. Quiçá em jeito de acto de contrição, adornam hoje os jardins do Hotel Nacional um busto do cantor e uma “jukebox”.

Em 1933 travou-se no local uma batalha na sequência do golpe militar que abriria caminho à primeira presidência de Fulgencio Batista, uma década depois. Da refrega subsistem cicatrizes nas paredes do edifício, contadoras de estórias como o são as peças do arsenal novecentista ali expostas. Andaria doravante o hotel de mão em mão, de investidor em investidor. O bar era explorado por locais, mas o casino sempre se manteve nas mãos dos predadores de Las Vegas. Consta que em 1957 – altura em que se encontrava concessionado a Meyer Lansky – facturava mais do que o maior casino de Las Vegas. Onde é que ouvimos nós falar de semelhante milagre da multiplicação? Um ano antes, no Parisien, clube nocturno acoplado ao hotel, apresentar-se-ia a cantora de jazz Eartha Kitt, a primeira pessoa de raça negra a afagar o mármore do átrio do Nacional. Por lá tinham já passado inúmeras figuras do mundo da política e do “showbiz” (eternos associados), entre as quais o fiel soldado raso da Cosa Nostra, Frank Sinatra, a sedutora Ava Gardner, o inaudito Buster Keaton, o “tarzan” Weissmuller, o durão Rocky Marciano e até o “bond” Ian Fleming. O pioneiro do espaço Yuri Gagarin seria hóspede de outra colheita, a da pós-Revolução, uma vez nacionalizado o hotel e encerrado o casino. Foi ali que Sartre entrevistou Che Guevara e escreveu “Sartre visita Cuba”, onde narra as suas experiências e as da mulher, a escritora Simone de Beauvoir. Hoje, um quarto do hotel honra o nome desse conhecido teórico do existencialismo. Estancado o turismo ianque, o Nacional passou a acomodar diplomatas e funcionários de Governos estrangeiros. Isto, até ao colapso da União Soviética, em 1991, que obrigaria o Governo cubano, carente de reservas cambiais, a reabrir o País aos turistas.

O monumento com que me deparo a seguir não mete cavalos nem ninguém montado a cavalo, antes duas colunas jónicas e, a seus pés, uma mulher lacrimosa e duas crianças mortas. É seu autor o escultor Félix Cabarrocas que, em 1926, prestou dessa forma homenagem às vítimas do USS Maine – 266, para sermos exactos –, o couraçado que explodiu misteriosamente na baía de Havana em 1898. Esse navio encontrava-se ali atracado havia dois meses, “para defender os interesses americanos” durante o conflito que opunha os independentistas às autoridades coloniais. Após a detonação logo foi apontado o dedo aos espanhóis, estando assim encontrado o pretexto para os Estados Unidos declararem guerra à nossa vizinha, recorrendo ao slogan “lembrar o Maine”. Na verdade, tudo não passou de uma encenação dos norte-americanos, que terão sabotado o próprio navio para assim terem uma palavra a dizer nos destinos da ilha, atraindo-a para a sua esfera de influência e, quiçá, num futuro próximo, transformarem-na numa nação fantoche, como, de facto, viria a acontecer. A técnica é conhecida e os Estados Unidos aplicam-na praticamente desde a proclamação da sua independência. As colunas do monumento em questão sustentaram em tempos uma águia de ferro que seria derrubada no calor da refrega revolucionária. É verdade que não foi reposta, embora tivesse sido afixado na parte lateral do pedestal uma placa com o seguinte esclarecimento: “Monumento dedicado às vítimas do Maine que foram sacrificadas pela voracidade imperialista no seu afã de apoderar-se da ilha de Cuba. 15 de Fevereiro de 1898 – 16 de Fevereiro de 1961”.

Joaquim Magalhães de Castro

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