Os fait-divers da política

Os fait-divers da política

Gostaria hoje de vos poder dar novidades sobre o mais importante do que se destaca actualmente em Portugal mas,… não se passa praticamente mais nada do que aquilo que já vos tenho relatado nas minhas crónicas.

A saúde económica do País continua a progredir, com a dívida externa líquida de 2016 a baixar para os mínimos de 2012 e o Governo a antecipar o pagamento do empréstimo ao FMI (o “parceiro” da Troika que cobra juros mais elevados), ficando o total do empréstimo reduzido a metade.

Depois de anos a só ouvir “desgraças” e face aos excelentes resultados obtidos até agora por este Governo e pelo nosso ministro das Finanças, Mário Centeno, começamos a estar tão habituados às boas notícias que até me esquecia de vos comunicar mais uma. Afinal, parece que o défice de 2016 não serão os 2,3 por cento que tinham sido anteriormente anunciados, mas sim 2,1 por cento!

A oposição anda, como habitualmente, muito “chateada” com o ministro das Finanças e querem que ele se demita. As razões objectivas? Adivinhem!

As outras “razões”? Dizem que ele mentiu ao Parlamento, a propósito de uma suposta promessa a um antigo administrador da Caixa Geral de Depósitos, que não chegou a “aquecer” o lugar por não querer declarar publicamente os seus rendimentos e o seu património, e o senhor, ficando zangado porque o ministro não cumpriu a sua eventual promessa, decidiu fazer queixa à oposição, vingando-se. Perceberam? Se não perceberam estão como a maior parte dos portugueses, para quem um ministro das Finanças, seja ele qual for, vale o que valer o seu desempenho ao serviço do País e, neste caso, os portugueses estão bastante satisfeitos. Ponto final!

Outros fait-divers, que têm preenchido os momentos humorísticos dos jornais e telejornais, são as declarações de Donald Trump, a propósito de tudo e de nada.

Após um mês à frente dos destinos da política do “Tio Sam”, Trump não para de criar anticorpos no interior dos Estados Unidos e fora dele.

Já todos vimos e ouvimos piadas e anedotas acerca das declarações deste novo inquilino da Casa Branca e eu não vou repeti-las. Mas a recente “aberração” declarativa pública deste personagem, referindo-se a um “enorme atentado terrorista” perpetrado na noite anterior na Suécia, como narrativa de apoio à sua fobia anti-muçulmana, deixou todo o mundo perplexo. Para além das imediatas exigências explicativas diplomáticas, por parte do Governo sueco, a questão foi de tal impacto que levou um alto responsável pela política sueca a perguntar “o que é que Trump andava a fumar”. A questão é que nada se tinha passado na Suécia na noite anterior e o que os suecos recordavam que se tinha passado há mais de um mês foi um ataque de neo-nazis a refugiados alojados num campo de acolhimento.

Trump, como é seu hábito, não pediu desculpa pela “palermice” que tinha cometido e, desta vez, nem justificou a risada pública de que foi alvo pela campanha que, segundo ele, a Imprensa faz contra si. Porquê? Porque o canal onde ele foi buscar esse “atentado” foi a FOX, da qual é proprietário!

Há algum tempo que me interrogo sobre o carácter deste novo Presidente dos Estados Unidos. Já o julguei perigoso por ter opiniões e procedimentos políticos conscientes, capazes de incendiar o mundo em conflitos inimagináveis. A composição do seu gabinete e respectivos assessores que, independentemente dos sucessivos “despedimentos” e desautorizações de que têm sido alvo, denunciava uma equipa baseada num conservadorismo saudosista e uma simpatia por ideais extremistas.

Hoje tenho algumas dúvidas sobre o nível de consciência política deste arauto da “América forte”. Melhor dizendo, tenho sérias dúvidas sobre a inteligência e estado de preparação deste homem para dirigir uma das nações mais poderosas do mundo.

Isso torna-o palhaço? Sim, mas um palhaço tão ou mais perigoso do que um que tivesse ideias e objectivos perfeitamente definidos.

Trump tem reacções imprevisíveis. Gere a política interna americana de acordo com os seus pressupostos sobre a expectativa dos seus eleitores e a prometida “terra de oportunidades” para os americanos, nomeadamente os que estão longe das grandes cidades e dos que, vivendo nelas e sendo ricos, serviram a sua campanha eleitoral e querem servir-se disso mesmo, ao mesmo tempo que alimentam o sonho do “eldorado americano” dos mais pobres.

Mas os cidadãos e governantes do resto do mundo não têm as características dos cidadãos americanos de alguns Estados do Sul e Meio-Oeste americano, nem da Pensilvânia ou da Florida.

Um destes dias, uma atitude irreflectida ou uma palavra mais gravosa, da parte deste insensato Presidente dos Estados Unidos pode, em vez de provocar mais uma risada, uma reacção de repulsa e contra-ataque por parte dos ofendidos. E, nesse caso, perante uma ofensa externa, o nacionalismo americano será elevado, pelo orgulhoso Trump, à categoria de ameaça ao poder da “Grande América”. E depois…

LUIS BARREIRA

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