Os Elos de Inês de Castro

Maria João Bahia

Literatura, joalharia, efeméride.

A assinalar os quinhentos anos da primeira aparição dos amores de Inês de Castro na literatura, com as “Trovas à Morte de Inês de Castro”, de Garcia de Resende, integrada no seu “Cancioneiro Geral”, recordemos aqui alguns aspectos da sua vida, trazendo o testemunho de duas figuras ligadas à mais portuguesa de todas as galegas.

Filha de um fidalgo da Galiza, Pedro Fernandes de Castro, Inês é uma das damas que acompanha Constança quando esta vai a Portugal para casar com Pedro, filho de Afonso IV. Este apaixona-se por Inês com quem tem dois filhos e, segundo alguns historiadores, secretamente casado após a morte prematura de Constança.

A relação de Pedro com Inês provoca forte descontentamento e oposição. Receava-se que o infante Fernando (filho de Pedro e Constança) fosse arredado do trono, possibilitando que os rebentos de Inês se tornassem herdeiros de facto. O velho Afonso IV, pressionado pelos seus conselheiros, não hesita. Manda assassinar a princesa galega. Acto que conduz Pedro ao desespero e à revolta. O resto, todos sabemos.

Jorge Pereira de Sampaio, programador geral das Comemorações dos 650 anos da Morte de Inês de Castro, refere que a efeméride – subordinada ao mote “como se vê hoje a figura de Inês de Castro” – mais do que lembrar o acontecido, pretendeu inspirar os agentes culturais para o acto artístico. Procurou-se reactualizar a história de um trágico amor, reflectindo nele através de grande diversidade de ofertas culturais, que tiveram expressão no bailado, em recriações históricas, na moda, em concertos, exposições, leituras de poesia, palestras, num ciclo de cinema subordinado ao tema da paixão, em peças de teatro, instalações e no vídeo.

Fiquemos, entretanto, com alguém que se identifica com a linhagem. E, mais importante, alguém que preza a liberdade. Consegue-a na sua plenitude Maria João Bahia, nas viagens a locais de não tão fácil acesso, a culturas de complicada digestão. «Sair da Europa para depois voltar e dar valor ao que temos, ou certificarmo-nos do que já perdemos», filosofa.

Joalheira de profissão, Maria João não hesita em escolher a Índia como o país que sobre ela exerce maior fascínio. «Sempre gostei de pedras e joias, e elas abundam em locais como a Índia ou o Nepal». Não admira pois que, a frases tantas, acabe por concluir: «Vou viajar e regresso inspirada». Maria João Bahia está há várias décadas no ramo e vende sobretudo por encomenda para clientes, em Portugal e no estrangeiro. A identidade destes, «por razões profissionais», prefere não revelar. Até porque preza a relação de confiança e de amizade que entretanto estabeleceu com eles. Criadora dos Globos de Ouro da SIC e dos troféus do Bravo Bravíssimo, Maria João confessa que a peça que mais lhe deu gosto fazer foi um anel em ouro para um representante do clero português. Tem como referências máximas o grego Lalaounis e o russo Fabergé, «joalheiros geniais».

Carneiro no zodíaco ocidental e tigre no chinês, considera-se uma pessoa benevolente, de trato afável.

Como a rainha assassinada na Quinta das Lágrimas? Talvez. Maria João admite que pouco sabe a respeito de Inês de Castro.

Do “Cancioneiro Geral” de Garcia de Resende aos “Lusíadas” de Luís de Camões, passando pela “A Castro” de António Ferreira, o trágico amor serviria de matéria ao longo dos tempos. Várias composições musicais, inspiradas em Pedro e Inês, foram elaboradas na Itália. Jerónimo Bermúdez escreveu “Nise Lacrimosa”. Francisco Manuel de Melo, os “Sonetos a la Muerte de D. Inês de Castro”. No entanto, só no século XVIII, com a “Inês de Castro” do francês Houdar de la Motte, a história se celebrizaria em toda a Europa.

Em Portugal, os amores de Inês popularizaram-se também entre as classes desfavorecidas, graças ao teatro de cordel. Bocage dedicou-lhe uma cantata. O Romantismo sublinhou os factos históricos associados ao episódio. Depois, o tema anichar-se-ia na literatura de carácter nacionalista e saudosista, roçando já a lenda. Recentemente, Ruy Belo, Miguel Torga ou Natália Correia reavivaram o assunto. “La Reine Morte”, do existencialista Henry de Montherlant é o melhor exemplo desse rejuvenescimento.

O nível de aproximação mais histórico que teve Maria João Bahia foi a encomenda que lhe fizeram para que criasse as aplicações em prata para um teliz, «uma manta que se colocava sobre os cavalos no século XVII e XVIII».

Lourenço Correia de Matos, amigo da joalheira, sustenta a sua tese no facto de Inês ter deixado descendência por via de três dos filhos. E inicia o processo genealógico pela neta, «filha do filho mais velho de Inês» que viria a casar-se com o rei de Aragão. O fruto desse enlace, Leonor de Aragão, seria a mulher de Dom Duarte, pai de D. João II, «que, como todos bem sabem, não deixou descendência directa». Curiosamente, ou talvez por ironia do destino, toda a descendência da nobreza portuguesa a partir de então tem origem em Jorge de Lencastre, filho bastardo de D. João II.

Alcobaça, Coimbra, Montemor-o-Velho. Três cidades ligadas à vida de Inês. As comemorações inesianas foram fruto da iniciativa do Ministério da Cultura, da Quinta das Lágrimas e das Câmaras Municipais das cidades atrás citadas, que em conjunto constituiriam a Associação de Amigos de D. Pedro e D. Inês. No entender de Pereira de Sampaio, que representou o IPPAR no processo, «mais do que a evocação da História, tentou-se estabelecer uma programação transversal que trouxesse aos dias de hoje o tema de Inês de Castro naquilo que representa de forma intemporal».

O programador geral não se cansou de sublinhar «esta exemplar congregação de esforços» entre entidades públicas e privadas. Não esquecendo de acentuar a descentralização, materializada pela passagem da efeméride inesiana pelo Brasil, onde houve quatro eventos, dos quais se salienta um colóquio na Universidade de São Paulo que contou com a presença de catorze especialistas da temática inesiana, e que contou com o apoio do Instituto Camões.

Falta agora – dizemos nós – a devida projecção a nível internacional. Até porque com ela se pode promover o turismo cultural, sobretudo nas cidades directamente ligadas à vida de Inês. Verona consegui-o – e de que maneira – com um romance (“Romeu e Julieta”) que só existiu na cabeça do seu criador.

Joaquim Magalhães de Castro

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