O Nosso Tempo

Leituras do tempo presente

Leituras do tempo presente

Quem visita Fátima, e o santuário ali dedicado à Mãe de Jesus, fá-lo com quatro (pelo menos…) atitudes de espírito bem diferentes.

A primeira é a do turista que ali vai, com a mera curiosidade do viajante, tentando vislumbrar algo de novo, de estranho, de bizarro mesmo, a acrescentar ao seu diário de recordações de férias.

A segunda é a do ateu que tem uma posição firme contra a Fé e que, por consequência, ali se desloca para confirmar a inconsequência (a infantilidade mesmo) de ritos que nada acrescentam ao seu universo de certezas absolutas. (Há no ateísmo militante um não sei quê de religião, ou de anti-religião, se se quiser, com seus dogmas de fé, seus mártires e santos laicos, de que talvez muitos dos próprios ateus não se dão conta).

A terceira atitude é a daqueles que eu designaria por “agnósticos de boa fé” que, na sua caminhada de procura do religioso, se deslocam ao Santuário, para ver se são tocados, no seu ser profundo, por alguma centelha de luz que lhes ilumine a sua incessante busca interior.

E, finalmente, o estado de espírito do crente católico que vai a Fátima dialogar com aquela “Senhora mais brilhante que o Sol” que o Catolicismo aceita como a grande mediadora entre a terra e o céu, entre a nossa condição humana e aquela Vida, para além da vida, prometida a quem crê.

 

A alma de cada lugar

E o que vê o turista, crente que seja de outra religião, ateu ou agnóstico?

Pois vê uma grande esplanada, vazia ou apinhada de gente, conforme os dias. Se a ocasião da visita for a primeira, a de um recinto quase deserto, o visitante observa poucas pessoas, reunidas as mais das vezes diante de uma estátua, no centro, à esquerda, da grande praça – estátua que como que serve de guarda permanente a uma casinha modesta, a “Capelinha das Aparições”, na terminologia habitual daqueles lugares. E a estátua é a de uma mulher, toda vestida de branco, de mãos postas, como quem reza, com o terço do Rosário pendente das suas mãos muito brancas.

Em tempo de oração, o turista ouvirá uma espécie de lenga-lenga que se repete de forma interminável, num diálogo ritualizado entre quem dirige a oração, muito frequentemente um sacerdote, e os presentes ocasionais.

Depois o turista identifica, nos extremos do recinto, duas basílicas de estilos completamente distintos, uma de recorte clássico e outra tão moderna que custa a acreditar que é uma igreja…

No primeiro dos templos referidos, o turista lê no seu guia da excursão que ali repousam os restos mortais de três pessoas, duas crianças, primeiro; e depois uma nonagenária (à altura das respectivas mortes), com oitenta anos de separação entre as respectivas ocorrências. São os videntes de Fátima, no centro das atenções do mundo desde que revelaram seis encontros extraordinários que iriam alterar profundamente as suas vidas, a daqueles lugares – e a da própria Igreja, no seu todo. Como se viu mais recentemente no pontificado de João Paulo II.

Mas é naturalmente por ocasião das grandes datas do Santuário que aquele recinto assume todo o seu significado, pois um milhão de pessoas ali se reúne, regularmente, para dar expressão à sua fé.

E o turista não cristão, cristão não-católico, ateu ou agnóstico, não poderá senão ficar profundamente admirado com aquele particularíssimo acontecimento colectivo. A estátua da Senhora como que passeia então, serenamente, sobre um mar imenso de velas acesas, nas noites escuras das vigílias festivas, e não acredito que uma simples pergunta não aflore às mentes de quem não está familiarizado com aquele lugar e o seu significado. E a pergunta é…

 

Porquê?

Porquê toda esta mobilização de gente, toda esta invocação do que não é real, estes edifícios, estas luzes, tantas vidas consagradas à devoção que ali se pratica, todas as preces ali ciciadas por milhões de lábios e de corações consonantes. E tudo isso desde há cem anos?

Naturalmente que a resposta só pode vir de duas fontes: dos que acreditam porque estudaram o fenómeno em todas as suas dimensões (e há numerosos debates académicos sobre o tema, no decurso dos anos, no Santuário e fora dele, em Portugal e no estrangeiro); e dos que acreditam simplesmente, “sem diploma”, alimentados pela transmissão oral do fenómeno, no decurso das últimas dez décadas. Para ambos os testemunhos, o estar “dentro da história” não chega, todavia. É preciso que considerem a actualidade da narrativa, isto é, o seu impacto nos dias de hoje.

De tal modo que a lindíssima história infantil de Nossa Senhora aparecendo aos pastorinhos, no bucolismo da Cova da Iria, não escondendo nem a simplicidade das gentes nem a pobreza dos lugares, se transforma em algo de muito mais poderoso.

 

Uma mensagem para o presente

Sim, uma reflexão sobre a História (mormente a do século XX, mas não só) e uma reflexão sobre a caminhada do homem neste tempo, e em todos os tempos.

Pois o que veio dizer a “Senhora mais brilhante que o Sol”? Veio desde logo recordar que o vínculo que une o homem a Deus, a criatura ao seu Criador, é indissolúvel. Quer o homem creia, quer não. Indirectamente lembrando que o simples facto de o ser humano não se ter auto-gerado criou-lhe laços de natureza indelével com a sua Origem. Donde as tentativas falhadas do homem se auto-divinizar, reivindicando uma liberdade absoluta, a fim de se reinventar, fantasiando uma civilização só humana que está obviamente votada ao fracasso. O homem quer voar com asas emprestadas…

A “Senhora que veio do Céu” continuou, nas sucessivas aparições e conforme o relato das Memórias de Lúcia – a única vidente encarregada de transmitir ao mundo os recados da Senhora – continuou, dizia, a falar desse vínculo de Deus para com o homem que a revolta do homem quer quebrar no decurso da História. E do preço altíssimo que pagamos todos por essa rebeldia: as guerras e o sofrimento indescritível de milhões de pessoas, suas vítimas.

E a Senhora recordou ainda, fortemente, a existência do Mal, corporizada numa figura sinistra de que a civilização actual nega a existência – e ao mesmo tempo quis enterrar prematuramente, mas cujas erupções são mais do que evidentes nos acontecimentos da História, no passado e no nosso presente tão perturbado.

 

Promessa de reconciliação

Nossa Senhora veio propor, há cem anos (e a actualidade como que grita altíssimo tal necessidade, bem perto dos nossos ouvidos), uma espécie de segundo baptismo, re-fundador da Humanidade. Porque na pia baptismal do primeiro a água foi-se tingindo de sangue, de tantas barbaridades cometidas em nome da razão dos Estados, da vanglória das nações, da soberba dos príncipes.

E, no plano individual, porque se prefere a busca incessante da riqueza, do prestígio, da auto-promoção à prática da simplicidade e à renúncia do que perece, porque é efémero.

Nada de novo, pois, na Cova da Iria? A reflexão sobre a relação do homem com Deus, que a Senhora de Fátima propõe, é velhíssima como a espécie humana e novíssima para cada ser que nasce.

Mas são as chaves do dilema que em Fátima nos foram oferecidas. As da conversão pessoal de cada um.

Carlos Frota 

Universidade de São José

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