O Nosso Tempo

Todos os caminhos vão a Ele...

Todos os caminhos vão a Ele…

Estou a ler, do Padre James Martin SJ, um livro muito interessante que tem um título apelativo, como hoje se diz: “Um guia jesuíta sobre (quase) tudo”.

Trata-se de como aplicar, no quotidiano das nossas vidas, a espiritualidade de Santo Inácio de Loiola, o fundador da Companhia de Jesus. E o princípio fundamental de tal caminhada é este: ver Deus em tudo. O que significa naturalmente que se multiplicam as nossas vias para chegar a Ele.

Inspirado no que já li, escrevi as seguintes observações, algo soltas, que me acentuam o gosto dos caminhos da intuição, ou os caminhos de uma certa sabedoria da Fé, que a racionalidade do tempo presente quase condena.

As “provas” da existência de Deus… – foi o primeiro título pensado para esta crónica. Mas recuei.

Que tema! – diriam os meus leitores habituais, sentindo-se empurrados de súbito para curso ou aula em que não se matricularam… ou para espectáculo em que entrassem por engano.

Mas não, não se trata de Teologia, que não sou diplomado na matéria. Nem diz respeito, aliás, a qualquer ciência alternativa, ou técnica apurada, que me levassem, contrariando o cirurgião da história, a autopsiar o cadáver e afinal encontrar-lhe a alma, escondida por entre veias e artérias, coração e pulmões…

Trata-se sim de uma tentativa algo filosófica, ou melhor literária (que pretensão!), memorialista, e por isso autobiográfica, de versar tema que frequentemente reemerge do muito que a vida deixa em depósito, no fundo de cada um de nós . E nem sempre se exprime.

 

A vida é um milagre

Desde logo por causa de nós. Do que somos e de como somos. Se a vida existisse sem nós, ser-nos-iam totalmente indiferentes as múltiplas dimensões que assumisse, vistas lá do nada… onde “não” estivéssemos.

Milagre, pois, pela extrema complexidade do ser humano, nos apelos da sua inteligência, nas expressões da sua vontade, na capacidade de realização do seu intelecto, na fecundidade da sua imaginação.

Milagre, depois, pelo que o olhar contempla e pelo que os ouvidos escutam, no nosso diálogo contínuo com o mundo.

Milagre, ainda, pela LIBERDADE, essa rebeldia do nosso espírito – que nos faz questionar saberes adquiridos, propor com ousadia novos modos de entendimento, reinventar mundos inexistentes através da arte, da ciência, da literatura. E mesmo recusar Deus, mas gerar novos deuses, mais complacentes com os nossos pequeninos caminhos e com as nossas pequeninas escolhas.

 

Primeiro a Natureza

A paisagem da serra longínqua, na minha aldeia adoptiva. A casa de pedra. O rio humilde.

Deslumbra-me a Natureza. Deslumbra-nos a todos. E perante a comovente placidez das árvores, a generosidade das águas de um rio, o azul gratuito da distância, a fragilidade dos ninhos e o latir de cães lá muito longe – apetece rir, apetece chorar, apetece Agradecer.

Depois a sociedade. O quê, agradecer a Alguém a sociedade dos homens, onde imitamos as leis da selva e nos tornamos lobos, sempre que podemos evitar ser ovelhas?

Sim, a sociedade dos homens, onde acontece o encontro feliz dos artistas, a precisão matemática dos construtores, o cheiro a pão quente nas manhãs que despontam, o sussurrar de orações nos templos, as crianças correndo nos jardins, a biblioteca pública apinhada de leitores. A quem agradecer isso, mais a beleza do Sol que se esconde atrás do casario e a janela iluminada de uma casa anónima, na noite que cresce? A quem agradecer?

E as Filosofias? Pois foram inventadas para baralhar ainda mais as cartas, num jogo que não conhecemos. Mas curamo-nos delas. Como? Olhando o horizonte e acreditando na eternidade das montanhas.

As religiões, as culturas, as identidades… tudo está à nossa disposição como uma grande galeria de quadros, onde os pintores entram nas suas obras e nelas se eternizam, contentes de as habitar como um se fossem um eu dentro e fora de si.

 

Um livro com muitas histórias

A Escultura. A Pintura. A Arquitectura. A Música. A Dança. E outros capítulos do grande Livro da Arte. A quem agradecer?

Recriar o espaço é recriar o mundo. Não, é recriar o universo todo. Salvador Dali é o anti-criador, o que desconstrói. E a Catedral da Sagrada Família de Gaudí inspira-me a cumplicidade com alguém que fez da imperfeição o seu absoluto estético.

Além do mais, a quem agradecer o bronze das estátuas, a eternidade fictícia dos heróis esculpidos, a dolorosa lembrança das lápides, as muitas capelas sistinas que há pelo mundo, a joalharia dos ricos que as mãos de pobres trabalharam, os arcos de triunfo das batalhas ganhas e os mausoléus de mármore das guerras perdidas? A quem agradecer?

A Música é uma outra forma de conversar com o mundo, tendo-nos como testemunhas. A Música, principalmente a chamada clássica, ouço-a como uma espécie de conversa com os meus vários eus, essas diversas dimensões de nós mesmos – que todos temos.

Outras vezes, e de forma mais íntima, ao ouvir Brahms ou Rachmaninov, de que particularmente gosto, imagino-me a ser alimentado pelo leite invisível de uma invisível Mãe que está em toda a parte. Talvez também por isso muitos digam que, se tivesse género específico, Deus seria declinado no feminino.

A Dança é uma conversão da Música em linguagem dos corpos. E por falar de corpos, e das mentes que neles habitam, a quem agradecer os progressos da Medicina, como técnica e como arte? E a quem agradecer os progressos tecnológicos de um modo geral, essa colaboração entre trabalho, curiosidade e sorte, que nos revela os segredos da Natureza?

 

A Literatura e a Poesia

Quando Deus faz parte do universo do romancista ou do poeta, de forma ostensiva ou mesmo um pouco oculta, a Literatura é a melhor celebração da vida. As histórias que se narram, os poemas que se compõem, sem serem necessariamente ingénuos, assumem então as cores da esperança. Isto é, depois das noites há sempre manhãs, os túneis têm sempre saídas para caminhos alegres e há sempre um rosto que amavelmente nos acolhe, depois dos vários desertos interiores.

Mas para quem frequentou e frequenta a Literatura do século XX e a deste início de século, dói ver o quanto está normalmente presente a orfandade dolorosa dos dias e das noites sem sentido, das vidas sem propósito, dos seres humanos enredados nos seus receios e perplexidades.

O mundo é então absurdo e a vida é a obra maquiavélica de uma divindade vingativa. Mas a vida é um milagre, dizia eu no início. Há que agradecer-Lhe. E há que limpar todas as manchas de sombra que toldam o sol de cada um.

Carlos Frota 

Universidade de São José

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