O Nosso Tempo

Uma cidade, muitos mundos

Uma cidade, muitos mundos

Vejo Sadiq Khan na televisão. E ouço-o falar, emocionado, aos seus concidadãos, num momento de medo e de desorientação, por causa dos ataques terroristas.

Ele, o primeiro “mayor” muçulmano da grande metrópole londrina, abusado, desrespeitado pelos inqualificáveis twitters de Trump, inadmissíveis de todos os pontos de vista.

E pensava eu: o primeiro eleito de Londres ali estava, prestando contas aos londrinos, mas não só. Defendendo a reputação internacional da grande capital. E, sobretudo, repudiando as perversões da sua própria cultura de origem (que não o imuniza, no mínimo, do embaraço óbvio) num distanciamento honesto.

Honestidade que não merecia, em caso nenhum, as observações inoportunas do Presidente americano… esquecido este, mais uma vez (o que vai constituindo a regra e não a excepção), das responsabilidades e do código de conduta próprios da função que exerce.

 

O jovem que nunca saiu “de casa”

Londres, vítima do terrorismo. Londres, a cidade cosmopolita, multiétnica, multicultural, multi… tudo.

Pois há dias li o depoimento de Jahed Ahmed, um rapaz cuja família é originária do Bangladesh e que nasceu e vive em Londres, na Tower Hamlets.

Disse Jahed que, até aos dezassete ou dezoito anos, nunca falou com gente de outras comunidades étnicas da grande metrópole londrina. «Nem com gente de raça branca, nem com gente de raça negra», acrescentou sugestivamente.

O seu mundo estava confinado, pois, à geografia física e psicológica, cultural e religiosa da sua comunidade. Isto na Grã-Bretanha, democrática e liberal do século XXI. E relativamente a alguém de cuja idade se conclui que nasceu já, ou no limiar, deste novo século!

O valor do depoimento deste jovem reside, como é óbvio, para além do seu caso pessoal, na possibilidade da sua generalização, isto é, no retrato provável de toda uma comunidade, e de outras comunidades, nos países europeus de forte tradição imigrante, diferindo as situações concretas, naturalmente, de país para país.

Tendo consciência desses contextos, quando se fala da radicalização islamita, há que juntar-se sem dúvida à Internet, às mensagens radicais online, o papel do isolamento cultural de jovens como Jared, sem pontes pelas quais transitem para a sociedade em geral. Uma sociedade que deveria ensinar-lhes como contrariar as falsidades sedutoras da utopia do califado, com a prática quotidiana do respeito pelas diferenças.

O grande desafio para os jovens – e afinal o seu momento de grande vulnerabilidade – reside nesta passagem do étnico-cultural ao cívico e mesmo ao político. Isto é, ao assumir do estatuto de cidadania plena (quando assumem…) em sociedades que os não educaram para os direitos, os deveres e, de forma mais geral, para a consciência social e a cultura cívica agregadas a tal estatuto. E onde cada um se sinta respeitado.

Qual o papel da escola, na propagação de uma cultura da tolerância e de respeito dos outros? Qual o papel do associativismo, na criação de ligações entre comunidades, através do desporto, das artes plásticas, da música, da literatura, do teatro? Educando por estes meios para o exercício da cidadania, numa sociedade que, porque é plural e tem de ser pacífica, relativiza crenças, valores e tradições, na exacta medida em que lhes assegura o direito à coexistência com outras tradições, valores e crenças.

Apesar do muito que se faça no Reino Unido e concretamente na sua capital, certamente com gente abnegada por detrás de cada iniciativa, o testemunho de Jared sugere ainda e infelizmente uma resposta: efeito quase nulo.

Assim sendo, que sentido faz falar de sociedade britânica, ou francesa, ou alemã (para me cingir ao palco do terrorismo mais recente), enaltecendo os valores liberais, democráticos, quando no seu seio comunidades inteiras vivem muitas vezes em guetos, sem que os Governos o desejem, mas sem que a eles se oponham, criando o quadro, com políticas adequadas, a que a sociedade as “acolha” verdadeiramente e as integre?

 

Radicalização e guetos culturais

A distribuição espacial das comunidades em grupos culturais afins é quase inevitável, pelo menos de forma transitória, em sociedades, novas ou velhas, formadas ou alteradas ao sabor das sucessivas vagas de imigrantes, vindos de outros países e mesmo de outros continentes.

As “Chinatowns” e as “little Indias”, os bairros árabes e os bairros judeus, são fenómenos universais, e constituem não só primitivas estratégias de enraizamento em terra estranha, como, agora num plano mais superficial, formas pitorescas de organização social e económica (os pequenos restaurantes, as pequenas lojas de recordações), com irresistível poder de atracção sobre turistas, de dentro e de fora.

A esses exemplos poderíamos adicionar hoje os pequenos Magrebes, as pequenas Turquias, e outros casos de agrupamento de imigrantes, antigos ou mais recentes, nas grandes metrópoles do mundo, na Europa, na América do Norte e na América Latina.

Mas na perspectiva dos países de acolhimento, e no que se refere à coesão social, os problemas começam a surgir quando as comunidades se fecham em si mesmas. E, perante a hostilidade ou a indiferença sentidas por parte das sociedade de acolhimento, “defendem-se” cristalizando formas de protecção da sua identidade (étnica, cultural ou/e religiosa), receosas de a perderem e ficarem à mercê do anonimato da cidade desconhecida, no país estrangeiro.

Se este fenómeno de auto-protecção é óbvio na primeira geração de imigrantes, a sua persistência, nas gerações seguintes, evidencia falhas óbvias de integração, cuja responsabilidade não pode ser assacada principalmente aos imigrantes, mas às instituições da sociedade que os “acolhe”. Às políticas de integração que não existiram ou falharam. E ao grau de compromisso da classe política, cínica muitas vezes ao ponto de ver só potenciais eleitores, a serem manipulados durante as campanhas eleitorais, em vez de verem pessoas, seres humanos,com problemas iguais ou semelhantes ao de outros seres humanos.

Carlos Frota 

Universidade de São José

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