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A Páscoa e a lógica das nações

A Páscoa e a lógica das nações

As cerimónias da Semana Santa – e o seu culminar na grande efeméride da Ressurreição – convidaram, mais uma vez, os cristãos de todo o planeta, ao esforço interior de se questionarem, na dupla perspectiva do seu aperfeiçoamento como seres humanos e de como se tornarem mais empenhados na construção de um mundo melhor.

O idealismo da mensagem defronta-se, todavia, no quotidiano concreto, com o realismo do mundo tal como existe. E quase parece impossível, sem a ajuda permanente do Altíssimo, navegar por entre tantos escolhos, para não se desistir do objectivo de tentar construir um planeta mais humano.

Nas suas homilias da Vigília Pascal e do Domingo de Páscoa, o Papa Francisco falou do mundo concreto e das suas doenças. E ao referir-se aos conflitos, nomeadamente ao da Síria, sublinhou o imperativo da paz como fim em si mesmo e não como instrumento do domínio de certas nações sobre outras.

E é bem o que se passa na grande tragédia que se abateu sobre o pobre povo sírio. O País é joguete dos interesses mais díspares, numa região há décadas consumida pelo jogo sinistro das hegemonias, herdadas da História e actualizadas pela sede de poder de líderes concretos.

São os antigos impérios, reduzidos a pequenos Estados, que se revoltam, desejosos de subjugarem os outros, como outrora, e começando desde logo por subjugar os seus. Desde o Império Persa ao Império Otomano. E é a luta fratricida, hoje em plena guerra civil mas que dura há séculos, no interior da mesma grande religião.

 

A mentira como verdade

É uma benção e uma maldição (passe a expressão) o estar-se informado, em cada segundo, do que vai acontecendo pelo mundo. E tomando vantagem da amplitude do fenómeno e da vulnerabilidade das pessoas, por essa via poderes constituídos e grupos há que espalham a mentira, fabricando falsas notícias para desinformarem os cidadãos e desestabilizarem as instituições dos países.

A extensão do problema alarmou líderes políticos e a sociedade civil. E do debate que se generaliza começam a surgir iniciativas tendentes a preparar as crianças e os jovens, nas escolas, a treinar-se na detecção de falsos rumores, de falsos eventos, de falsas notícias, a serem concretizadas na educação para uma cidadania responsável.

 

Do interesse nacional ao egoísmo nacional

Mas a outra ordem de reflexões me inspira esta Páscoa, perante a visão actual do sistema internacional.

Se o egoísmo é um pecado individual, o interesse nacional, quando mal interpretado e sobretudo mal exercido pode ser, é um pecado colectivo. A polémica sobre a fixação dos refugiados do conflito sírio na Europa é a melhor ilustração desta forte tensão entre egoísmo e generosidade à escala das comunidades nacionais europeias.

A necessidade de, por todos os meios, preservar identidades culturais (pelos vistos mais frágeis do que se pensava) é vista como virtude. E as mentiras que representam o forçar números para exagerar incidentes e ampliar o fosso cultural são vistas como necessidade política.

A humilhação dos povos, uns pelos outros, é um veneno letal das relações intra-comunitárias e internacionais. E o crescimento dos países é analisado frequentemente nas suas virtualidades de opressão e domínio, e quase nunca de partilha e de crescimento para o universal.

O Papa Francisco recebeu no Vaticano há dias alguns imãs britânicos, acompanhados pelo Arcebispo de Cantuária. O Santo Padre dá o exemplo, como expressão da reabilitação da liderança moral.

Que seria do Médio Oriente se a semente frutificasse? As indústrias de armamento teriam que começar a despedir gente? Mas enquanto a semente não frutifica, os cristãos coptas são, entre muitos outros mártires, um cimento de unidade pelo sangue

 

Ninguém é dono da paz

A iniciativa russa para o Afeganistão fez faíscas nos corredores de Washington. Mas ninguém é dono da paz!

Moscovo, delineou um plano negocial, para conduzir à paz no Afeganistão. E convidou vários países para nele participarem, incluindo naturalmente os Estados Unidos. Washington recusou, dizendo ter o Kremlin conferido indevida legitimidade aos talibãs, ao convidar o grupo radical a sentar-se à mesa das negociações. A razão parece de peso. O regime dos radicais sunitas fez o terror no País quando governou – e não alterou propriamente a ideologia que o inspira. Aliás, o que é que se negoceia quando o princípio básico do outro lado é ocupar o poder em exclusivo, sem partilha, segundo um código social e político repudiado pela generalidade da comunidade internacional? Sintomaticamente, os talibãs deram hospitalidade ao ISIS, confirmando as convergências ideológicas entre si.

Mas, como se repete quando se estuda Diplomacia, só se faz a paz com os inimigos, e para se obter a paz, só se negoceia com os mesmos.

Russos e americanos sabem o que é o Afeganistão. Cada um deles teve ali a “sua” guerra. Os russos (URSS) perderam-na. Os americanos (Bush + Clinton + Bush Júnior + Obama) não a ganharam. Porque forças estrangeiras não ganham ali guerras. Perdem-nas ou prolongam uma situação de indefinição e de desgaste que acaba sempre por aproveitar aos extremistas. Porque conhecem o terreno como as palmas das suas mãos. Porque negoceiam entre tribos como o fazem há séculos. E se unem na mesma suspeita contra o estrangeiro.

Claro que, pelo envolvimento de Washington no País, desde que os talibãs foram expulsos do poder pelas forças da NATO, em 2001, na sequência do 11 de Setembro, que os americanos têm sido um actor importante na tentativa de consolidação de um regime civil, moderado, secular, capaz de combater política e militarmente os extremistas. Mas os russos quererem consolidar o seu crescente protagonismo internacional, voltando-se para um país que, ainda por cima, outrora dominaram.

Por outro lado, os americanos não querem perder o seu protagonismo num país onde gastaram biliões de dólares, onde morreram milhares dos seus jovens e onde sentem que o seu trabalho não está terminado (alguma vez o estará, é toda a questão), tentando reparar ali aquilo que foi insucesso lamentável no Iraque, onde não souberam reconstruir e sem apelo destruíram as estruturas de um Estado que, ditatorial que fosse, funcionava – e nada mal – para os padrões da região.

Quando visitei Bagdade no início da década de oitenta o País estava já num percurso ascendente.

E se russos e americanos querem a mesma coisa de modos diferentes, o que querem os afegãos? Querem apenas a PAZ! Por isso, a iniciativa russa teria de ser julgada pelos seus méritos.

Será que a recente explosão da mãe de todas as bombas, pelos americanos, com o assentimento do Governo de Cabul, é a impressão digital definitiva do futuro dono da paz?

Carlos Frota 

Universidade de São José

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