O Nosso Tempo

Notícias para ler e pensar

Notícias para ler e pensar

Há notícias e notícias. Há acontecimentos e acontecimentos. Há histórias e histórias. Como no teclado de um piano, cada notícia tem um som diferente. E como na destruição de um prédio, por motivo de terramoto, por debaixo dos escombros há quase sempre vidas humanas.

Do mesmo modo, sob as notícias por vezes as mais anódinas, emergem tantas vezes (e não apenas em sentido simbólico) rostos desfigurados, membros soltos de corpos despedaçados, mãos agarradas ao nada.

As televisões oferecem-nos continuamente imagens disso mesmo, muitas vezes sem sequer o aviso prévio de que podem perturbar os mais sensíveis e, em qualquer caso, não são recomendáveis a crianças.

E não é só a realidade omnipresente do terrorismo que nos dá hoje a sensação de que grandes e pequenos acontecimentos no mundo são quase sempre capítulos de longas histórias de sofrimento humano.

Não é só o terrorismo, dizia. São muitíssimas outras causas, tantas que nos vacina, a quase todos com o vírus da banalização que conduz à indiferença. É o encolher de ombros para tudo o que, para além da nossa zona de conforto, não mexe com o mundo minúsculo das nossas pequeninas certezas… Todos, ou quase todos, somos assim.

 

A menina de Aleppo

Mas há crianças que nos dão lições de vida. Bana Alabed, a menina de Aleppo, que manteve o mundo informado, através do Twitter, da destruição gradual e inexorável da sua Aleppo natal, sob as bombas, e portanto da sua infância, dirigiu uma mensagem a Donald Trump, para lhe pedir para interceder a favor da paz no seu país.

Todos as crianças como eu querem a paz e a segurança que o senhor e os seus desfrutam… – ousou escrever a menina ao novo Presidente americano.

E embora se possa dizer que, no caso concreto dos bombardeamentos de Aleppo, Trump não é o destinatário certo, a criança colocou correctamente a questão, a da responsabilidade conjunta dos líderes políticos à escala global, perante o que vai acontecendo com a nova desordem mundial.

E por isso insisto na ideia inicial: tente-se ver como nossas essas crianças lançadas à impiedade do mundo, com olhares como os dos nossos filhos ou netos. Meninos que brincam nas ruas enlameadas dos campos de refugiados. Ou se acolhem à protecção de pais quase tão vulneráveis como eles, perante fronteiras que se fecham, soldados armados que as protegem, e muros que se erguem, desafiantes a qualquer sentido de humanidade, para tornar definitivo o não acolhimento.

Seguindo o hino da auto-suficiência nacional, entoado em cada discurso pelo novo líder do chamado “mundo livre” (livre de quê, pode perguntar-se hoje…), os países redescobrem-se os paladinos do “primeiro nós”, a todo o transe.

São os egoísmos nacionais à solta, para cujos perigos o Papa Francisco vem alertando.

Quanto maior o egoísmo, maior o preço a pagar, num futuro não tão distante, ouço-me a dizer para mim mesmo.

 

Retrato de mulheres com crianças às costas

A barbaridade do terrorismo islâmico atingiu há dias um novo patamar de desumanidade, quando se soube que o grupo Boko Haram, na Nigéria, passou a utilizar mulheres suicidas, armadilhadas de explosivos, prontos a serem detonados, mas carregando às costas, como disfarce, crianças inocentes, para as proteger a elas, bombistas suicidas, de eventuais controlos policiais ou por soldados de boa fé…

Depois da tragédia das crianças-soldados, e numa nova descida aos infernos do pior que somos e temos, inventa-se agora o horror das crianças-mártires – por causas que ignoram e que portanto não abraçaram.

E ainda nesse mesmo registo de horrores e de baixeza humana, são agora os testemunhos de jovens recrutados pelo ISIS e que aceitam alistar-se nas suas fileiras, para escaparem ao desespero do desemprego e da fome.

Desculpas deles! Não se acredite nisso! Querem converter-se em vítimas, esses que foram recrutados e querem regressar, quando foram algozes ou executores! Querem escapar ao justo castigo!

Mas será só isso, pergunto-me? É perigoso que a nossa análise se quede neste devolver de culpas à procedência, por maior revolta que sintamos. E o pôr-nos em causa, por mais doloroso, é a primeira etapa de um longo exercício, realista, não ingénuo, de reavaliar modos de convivência e seus focos de intolerância e descriminação.

Sem ingenuidade, repito, porque do outro lado há quem queira explorar as nossas vulnerabilidades, como sociedades abertas.

 

Olho por olho

Acreditei durante muitos anos, fruto de uma educação tradicional e também pela minha formação académica, na área jurídica, que o discurso político, protagonizado por quem é líder, tem necessariamente que obedecer a certos limites.

E os limites são afinal os que o senso comum impõe: a decência, a honestidade, o apego a valores de justiça e de solidariedade. E no plano mais jurídico – mas que é tão só uma dimensão fundamental da cidadania: o primado da lei.

Tudo isto vem sendo negado e contrariado, em tempos mais recentes, pelo agora líder do país “mais religioso” do mundo, como os estudiosos costumam sublinhar: a América.

O Discurso sobre a Tortura é o mais repugnante de todos, pela incapacidade de se estabelecer a distinção entre o dizível e o indizível, o que é restrito ao debate entre autoridades de segurança e mesmo entre parlamentares, e a opinião pública.

Opinião pública que ouve e vê o Presidente discorrer friamente sobre a eficácia da simulação do afogamento e outras técnicas, para obter confissões de terroristas.

É a glorificação do olho por olho, dente por dente, conforme a parte da Bíblia preferida pelo novo ungido do povo. Que se crê ungido de Deus.

 

A barbarização da política

A explicação deste fenómeno de involução do discurso político pode estar na análise sociológica do eleitorado de Trump que situa o universo dos seus adeptos entre os menos instruídos; e por isso os mais receptivos, acriticamente, à sua mensagem.

O despudor e a imoralidade são assim promovidos a qualidades de liderança, o que não pode surpreender quem acompanhou de perto a campanha eleitoral.

E quase na mesma linha de primarismo ou basismo políticos, a controvérsia sobre a construção do novo muro da vergonha, entre os Estados Unidos e o México. O “quem paga o muro, não eu mas tu” é a parte burlesca de uma imensa tragédia humana que, como diz o Santo Padre, resolve-se com pontes e não com muros.

Ouvindo líderes com responsabilidades internacionais falar hoje de questões sensíveis, só se pode desejar que Donald Trump seja a excepção única a confirmar uma regra de decoro, tão necessário hoje.

Mas cuidado com outros exemplos…

…só falta agora adoptar-se nos States a receita de um já tristemente famoso Presidente do Sudoeste da Ásia… e passar a fio de espada, em execuções comanditadas, os responsáveis pelo comércio da droga!

Carlos Frota 

Universidade de São José

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