Nova estratégia terá de contemplar a Rússia e a China

A Europa entregue a si mesma

A Europa entregue a si mesma

Durante 70 anos, a Europa pôde contar com os Estados Unidos para a manter segura e para resolver muitos outros problemas que não queria ou não conseguia resolver. Esses dias parecem ter terminado com a chegada de Donald Trump. A nova realidade foi anunciada de forma clara pela Chanceler da Alemanha, Angela Merkel: «A Europa tem de tomar conta do seu próprio destino».

O Presidente dos Estados Unidos anuncia-a em público e de forma desabrida, mas a mudança começou bem antes de Donald Trump entrar na Casa Branca: os Estados Unidos já não querem, já não podem e já não conseguem dar a mesma prioridade à Europa que deram desde que entraram na II Guerra Mundial, em 1941.

O reaparecimento da ameaça russa nas fronteiras a leste do continente está a abrandar esse processo, mas não o pára. A realidade é que a Ásia, em geral, e a China, em particular, assumem-se como as áreas estratégicas mais importantes para os Estados Unidos no futuro previsível. É aí que está o motor do crescimento económico mundial e é aí que está o único país que pode tirar aos Estados Unidos o estatuto de superpotência dominante – a China, claro está.

Foi por isso que, nos últimos anos, sob a Administração Obama, o Governo norte-americano iniciou o chamado pivô asiático, uma mudança de prioridades políticas, militares e económicas em favor daquele continente, e em desfavor dos restantes, especialmente da Europa.

Este reposicionamento tem especial incidência nas áreas da Segurança e da Defesa. Os Estados Unidos vão concentrando cada vez mais recursos militares na zona do Pacífico, para poderem conter as ameaças da Coreia do Norte e da China. Noutros tempos, de maior folga económica, o País poderia aumentar esse empenhamento sem diminuir o que já tinha noutras partes do mundo. Hoje já não é assim. Por isso, os Estados Unidos pressionam a Europa há muito tempo para aumentar as suas despesas na área da Defesa. Em 2014, a NATO acordou que, num prazo de dez anos, os 29 países membros teriam de gastar pelo menos dois por cento da sua riqueza anual nas suas forças armadas. Nesta altura, apenas cinco deles conseguem cumprir esse objectivo.

É neste contexto que Donald Trump, ainda durante a sua campanha eleitoral, começa a apelidar a NATO de «obsoleta» e a acusar os outros países da aliança «de andarem a roubar» os Estados Unidos. Pior, o Presidente norte-americano disse pouco antes de tomar posse que só ajudaria países que fossem atacados pela Rússia «se eles cumprirem as obrigações que têm para connosco».

Estas declarações abalaram profundamente os países de Leste e puseram em dúvida o próprio futuro da aliança. De então para cá, Trump amaciou significativamente a sua retórica e até já reconheceu que não sabia o que estava a dizer quando qualificou a NATO como obsoleta. Contudo, isto não significa que ele deixe de exigir uma repartição mais equilibrada do fardo da defesa da Europa.

Em Maio de 2017, durante a cimeira da aliança que se realizou em Bruxelas, Trump repreendeu publicamente os outros chefes de Estado e de Governo presentes pela sua incapacidade em aumentar o investimento dos seus países nesta área. Perante a visível incomodidade, para não dizer choque, dos líderes europeus, Trump fulminou: «Vinte e três dos vinte e oito Estados-membros ainda não estão a pagar aquilo que deviam pagar e aquilo que supostamente estariam a pagar pela sua defesa. Isto não é justo para o povo e os contribuintes dos Estados Unidos».

Um raspanete como este não tem precedentes na história da NATO e é humilhante para a Europa, mas Trump não se ficou por aí. Um dia depois, na Cimeira do G7, em Taormina, na Itália, o Presidente dos Estados Unidos cavou ainda mais fundo o fosso que o separa dos europeus. Os Estados Unidos recusaram-se a confirmar a sua adesão ao acordo de Paris no combate ao Aquecimento Global e, na semana seguinte, anunciaram mesmo a sua retirada.

Ainda em Taormina, Donald Trump deu mais uma estocada no relacionamento transatlântico, ao apelidar os alemães de «muito maus», por causa do grande excedente comercial que têm com os Estados Unidos. O Presidente norte-americano terá ameaçado com a imposição de barreiras às importações de automóveis da Alemanha caso esta não faça algo para equilibrar a balança.

Com tudo isto, não surpreende que a reacção europeia mais forte tenha vindo de Angela Merkel – a Chanceler da Alemanha e a única líder europeia que tem um peso significativo nas relações internacionais dos nossos dias. Num comício do seu partido, ela disse que, «de certa forma, a era em que podíamos confiar completamente noutros [países] acabou. Foi isso que vivi nos últimos dias. Nós, europeus, temos mesmo de tomar conta do nosso destino». Merkel fez logo a seguir um aditamento muito significativo: essa autonomia terá de acontecer «em amizade com os Estados Unidos da América, em amizade com a Grã-Bretanha, como bons vizinhos com quem quer que seja, e também com a Rússia e outros países».

Intui-se aqui já uma equidistância que seria impensável até há poucos anos, senão meses. Sim, a Europa continuará amiga dos Estados Unidos e do Reino Unido, apesar de todas as divergências causadas pelo populismo de Trump e pelo Brexit, mas sem exclusão – e talvez mesmo em pé de igualdade – da Rússia e, quem sabe, até da China. Essa, aliás, tem sido uma componente discreta, mas efectiva, da política externa alemã durante o consulado de Merkel. É preciso não esquecer que a Alemanha tem uma grande dependência do petróleo e do gás natural da Rússia, especialmente depois de ter decidido fechar as suas centrais nucleares. Os interesses alemães e russos na Europa de Leste são muito importantes e potencialmente geradores de conflitos, pelo que a Alemanha se tem preocupado em não antagonizar excessivamente o Governo de Vladimir Putin.

No que diz respeito à China, a situação é ainda mais clara: a classe média chinesa consome avidamente os automóveis e os outros bens de consumo que os alemães tão bem produzem, pelo que o mercado chinês já é o mais importante do mundo para as exportações alemãs. São mais de 70 mil milhões de euros por ano, ou seja, mais de um terço da riqueza produzida em Portugal anualmente.

É de prever que as palavras da Chanceler alemã não sejam de mera circunstância. Ela apenas espera melhores condições políticas para lançar um conjunto de medidas que arrumem a “casa” europeia e lhe dêem uma importância reforçada. Uma das vertentes é já conhecida: o aprofundamento da defesa europeia. Se Merkel será ou não capaz de levar a efeito todo o seu programa, é outra história, que dependerá muito do Governo que herdar. Tudo indica que acabará por governar sem grandes sobressaltos, mas está longe de ser senhora do seu destino, e muito menos do da Europa.

Rolando Santos 

Família Cristã

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