Modernização da Festividade mantém os Valores Tradicionais do Culto e da Família

Herança intangível para o mundo

Herança intangível para o mundo.

O Ano Novo Chinês é encarado em Macau, não apenas como uma festividade da cultura chinesa, mas também uma forma de integração na sociedade. Seja de expatriados ou de chineses do interior da China aqui radicados. Assim o dizem António Mil-Homens, Nunu Khan, Paulo Fernandes e Vítor Moutinho.

O Ano Novo Chinês «tem passado por uma certa evolução» para António Mil-Homens, dado que «foi completamente místico em 1996», ano em que chegou pela primeira vez a Macau, «colmatando assim todas as outras sensações de quem vinha da Europa, neste caso de Lisboa».

«Estou em Macau há dez anos [pela segunda vez], já como residente permanente», referiu o fotógrafo profissional, acrescentando que «a festividade tem perdido um pouco a mística e o encantamento, muito por força da invasão de turistas, principalmente da China continental, que acabam por tornar intransitável o Centro Histórico de Macau – no fundo era onde em termos de decoração se fazia mais sentir o Ano Novo Chinês».

No visão de António Mil-Homens «a realidade é um pouco diferente», ao nível dos templos budistas e do contacto com os chineses de Macau, ou com aqueles que embora sejam provenientes do interior da China já se fixaram no território há muito tempo, até porque neste caso «há um respeito mais tradicional, mais sentido» pelo significado do Ano Novo Chinês.

«É claro que este período também é a altura em que muitas pessoas aproveitam para sair de Macau. Confesso que pelo menos já por duas vezes aproveitei a quebra do próprio mercado fotográfico, por via da encomenda de trabalhos, para demandar a outras paragens mais quentes, já que nesta altura do ano se faz sentir uma influência de ar frio, muito ao estilo da Europa, mas que contrasta realmente com o clima que durante o resto do ano temos em Macau», disse.

Nunu Khan considera-se um «homem de três gerações em Macau», pelo que «já viu e contactou com muitas pessoas». Ao recordar os «velhos tempos do Ano Novo Chinês», revelou que «costumava lançar panchões em frente à casa onde vivia e visitar os parentes para receber os “lai-si”», sendo que «os envelopes vermelhos significam dinheiro da sorte».

O assistente do chefe de operações do hotel Sofitel na Ponte 16 admite que «os tempos mudaram rapidamente», visto haver «quem viaje para os países vizinhos durante este longo período de férias e quem fique por cá para tentar a sorte nos casinos». Tem a percepção que «em Macau há as quatro estações. Sente-se no clima e em todas as festividades nacionais».

Paulo Fernandes, jurista, nasceu em Moçambique e lembrou que «já nessa linda cidade de Lourenço Marques, actual Maputo, a comunidade chinesa ali radicada comemorava a chegada do Novo Ano Chinês».

«As cores do vestuário, as lanternas e os panchões eram para mim um segundo carnaval quando vim viver para Macau. Se a memória não me falha, já lá vão trinta anos que o Ano Novo passou a ser uma data do meu calendário», contou o jurista, para quem «o encanto da festividade e o perfume dos incensos, conjugados com as cores e os signos do horóscopo que anunciam o bom ano, são hábitos da população chinesa como algo que também me pertenciam e queria disfrutar.

«Aqui casei com uma senhora chinesa, e o Ano Novo passou a ser ainda mais uma data importante na nossa casa, onde também se comemora o Natal com o mesmo fervor. Os “lai-si” e a gastronomia desta festividade tornam ainda mais o Ano Novo numa data tão esperada e tão desejada», vincou ainda.

Vítor Moutinho, que no próximo mês de Abril completa quatro anos de residência em Macau, desconhecia por completo a comemoração e a tradição do Ano Novo Chinês, antes de vir para esta parte do globo. «O primeiro ano desta celebração que vivi com alguma curiosidade foi o de 2015, Ano da Cabra. Descobri uma faceta da sociedade que até então era para mim desconhecida: a dedicação à família, os desejos de uma vida inteira cheia de felicidade e amor, implicando também, particularmente para a sociedade chinesa, o facto de se ter dinheiro», sublinhou Victor Moutinho, consultor de comunicação dos Serviços de Saúde.

Outra curiosidade por ele referida é o das famílias chinesas viverem esta festividade com muita intensidade: «Apesar de não serem muito abertas à sociedade, ao exterior, aos estrangeiros, aos expatriados, até mesmo para nós próprios – portugueses em Macau – deu para perceber que são muito unidas nestas semanas e vivem o Ano Novo Chinês de forma muito particular e intensa», descreveu, não deixando de notar que «são capazes de estar empenhadas durante longos meses para viverem estes dias de maneira muito próxima, também com muita comida».

Dado que o Ano Novo Chinês «significa fartura», frisou que as celebrações típicas da comunidade portuguesa que mais se assemelham são «o Natal e a Passagem de Ano», representando «estes três ou quatro dias a conjugação de duas festividades a que estamos muito habituados».

Segundo Vítor Moutinho, o Ano Novo Chinês «é extremamente agradável e extremamente positivo, além de culturalmente diversificante». Para quem vem do outro lado do mundo, como é o seu caso, permite-lhe «integrar-se ainda mais na sociedade e fazer parte da grande família, que se chama Macau».

PEDRO DANIEL OLIVEIRA

pedrodanielhk@hotmail.com

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