Mentalidades a mudar

Mentalidades a mudar

A saída de Macau em 2014 apenas foi interrompida por uma breve passagem pelo território em finais de 2016. Tão repentina que adquiri o bilhete de avião numa sexta-feira para viajar no dia seguinte, chegando ao Terminal do Porto Exterior na segunda-feira de manhã. Era 19 de Dezembro, ainda a tempo de tratar dos assuntos oficiais que tinha na bagagem. No dia seguinte foi feriado e na quarta-feira, ao meio-dia, já estava em Hong Kong a apanhar um voo rumo a Londres, com destino a Lisboa. Portanto, foi uma passagem que nem deu para tomar o gosto às mudanças que se tinham registado em dois anos de ausência.

Desta feita, sem assuntos oficiais a tratar e com a visita planeada para ver Macau e amigos, a predisposição é outra. Curta é certo, mas com outros olhos. Pena não dar para ver todos…

Na verdade, se em 2016 apanhei o autocarro para ir directamente ao que me trazia, desta vez também apanhei o autocarro, mas com vontade de ver o que me rodeava. Estando instalado num hotel da zona do COTAI foi o transporte gratuito dessa unidade hoteleira que me levou à cidade, menos de uma hora depois de ter aterrado no Aeroporto Internacional de Macau.

Falo-vos da experiência dos primeiros instantes de quem aqui viveu grande parte da sua vida e que deixou para traz uma terra que o fez feliz e que o viu crescer em todos os sentidos. Saí de Macau para viver um sonho que teve de ser interrompido, mas que não está terminado. Há de ser realizado e, se as vontades se reunirem, pode até haver um regresso a Macau.

Para minha surpresa, vim encontrar uma cidade mais organizada e mais simpática. Foi com espanto que, sentado no banco da primeira fila do autocarro gratuito, vi o motorista agradecer aos condutores por lhe darem espaço para entrar na estrada principal e a parar em todas as passadeiras, desde o COTAI até ao centro da cidade. Literalmente, todas!

Pode ter sido uma coincidência, mas ainda assim não deixa de ser louvável. Já anteriormente, durante o processo de entrada no hotel, notei que para além de um extremo profissionalismo os funcionários tinham uma atitude muito simpática. Algo que não se via há uns anos. Durante o primeiro dia todo o contacto que tive com os funcionários, desde a limpeza ao balcão central, passando pelos restaurantes e cafés, todos se apresentavam de sorriso na cara e com uma atitude que – sinceramente – já me tinha esquecido que existia em Macau. Isto, independentemente da nacionalidade ou credo.

Infelizmente a minha opinião positiva terminou aqui. Quem visita Macau continua com a mesma atitude irascível, com uma falta de educação de bradar aos céus. Constatei-o ainda no aeroporto de onde vim antes de chegar a Macau. Gritos, em vez de falarem civilizadamente; falta de higiene, com caixotes do lixo a menos de cinco metros; empurrões para passar à frente em filas que se querem ordeiras, e muitos outros exemplos. O mesmo vim depois presenciar em Macau à chegada, com uma correria para o controlo de passaportes, para o autocarro, para o registo no hotel, para os autocarros na cidade, etc.

É com pena que vejo a nossa cidade entregue a este tipo de turistas. Claro que são precisos porque aqui deixam milhões de patacas anualmente, mas não haverá forma de alterar a mentalidade de quem nos visita? Ou não haverá forma de mudar o público-alvo das campanhas, de modo a atrair turistas com mais civismo e mais educação?

Quando decidi passar uns dias em Macau, nesta minha estada de um mês no Oriente, fiquei com um nó na garganta pois não sabia o que vinha encontrar após os estragos do tufão Hato. Pelo que vi, só num dos hangares do aeroporto há estragos que ainda não foram reparados. Muito mais haverá para fazer certamente, especialmente no que diz respeito a mudanças de mentalidades e comportamentos para evitar uma nova tragédia. A realidade é que em pouco tempo muito foi feito, apesar de todas as críticas que sempre surgem nestas ocasiões.

Se compararmos a tragédia do Hato com o que se passou nas Caraíbas, onde ainda hoje a maioria da população das ilhas mais atingidas ainda não tem um tecto, ou com a tragédia dos incêndios em Portugal que vivi na primeira pessoa, tendo sido obrigado a evacuar da vila de Mira, Macau reagiu bem e está quase a cem por cento. Muitos dirão que é fácil quando há dinheiro. Tal é verdade, mas não é tudo – um pouco à semelhança dos turistas que têm dinheiro mas pouco civismo. É preciso ver que a mentalidade das pessoas parece ter mudado, o que muito contribui para que tudo se torne mais fácil.

João Santos Gomes

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