Lula ou polvo?

Lula ou polvo?

Confesso que me sinto pouco à vontade para falar sobre a política brasileira, porque ignoro – para além do que chega a ser noticiado em Portugal – muito do debate político em que se envolve esta sociedade, embora tenha consciência da imensa disputa que se travou entre o partido de Dilma Rousseff (o Partido dos Trabalhadores/PT) e o de Aécio Neves (o Partido da Social Democracia Brasileira/PSDB), levando Dilma à Presidência em Outubro de 2014, após ter obtido à segunda volta uma escassa vitória sobre o seu opositor. Do mesmo modo, não me é fácil compreender o sistema judicial brasileiro, nas suas várias instâncias, competências e hierarquias, para além da designação dos juízes, no âmbito da separação de poderes entre o político e o judicial, na imensidão de um país com mais de 200 milhões de habitantes, divididos em vários Estados.

Mas os últimos acontecimentos no Brasil inundam de tal forma os ecrãs televisivos e os jornais portugueses, e sugerem tantos comentários contraditórios, que eu não podia deixar de aqui expressar as minhas próprias dúvidas, como observador das informações que nos chegam. Até porque, como não podia deixar de ser, algo do que se está a passar no Brasil tem algumas semelhanças com casos portugueses, e porque, como diria Eça de Queiroz, «o brasileiro é o português-dilatado pelo calor».

O que me parece estar neste momento e principalmente em causa, não é se a economia brasileira está a derrapar, se a Presidente Dilma é ou não é competente, ou se tudo não passa de um “golpe” da poderosa oposição do PSDB. Embora haja uma relação entre todos estes elementos, o que faz mover os muitos milhares de manifestantes brasileiros nas ruas, a favor ou contra o Governo, é a incredibilidade, a dúvida ou certeza, de que a corrupção atingiu os mais altos dignitários da sua nação. E isso, é grave!

Dizem que o anterior Presidente do Brasil, Henrique Cardoso, endireitou a economia do País. Mas, e os muitos milhões de pobres?

De acordo com todas as estatísticas e opiniões insuspeitas, a governação de Lula da Silva, para além de ter conduzido uma economia saudável, saudada por múltiplos sectores económicos, realizou o que se afirma: “fez os pobres subir um degrau na escala social”. Mas, esse “degrau”, para alguém que teve origem nos mesmos meios desfavorecidos e que diz prezar a igualdade de direitos e oportunidades, a situação é contraditória com a sua pela ostentação de riqueza que veio a evidenciar, como se tivesse subido em poucos anos, não um “degrau”, mas uma “escada” inteira para chegar ao seu “triplex”!

Sérgio Moro, o juiz brasileiro da operação de investigação chamada “lava jato”, colocou a nu uma larga teia de corrupção que, com base em quadros superiores de grandes empresas públicas e privadas, semeou uma imensa dúvida sobre a relação incestuosa entre esta e os meios políticos do País, nomeadamente o PT, levando-o a citar Lula da Silva perante a justiça. Contudo, com todas as dúvidas que tenho sobre os direitos e deveres dos juízes no Brasil, comparativamente aos procedimentos da justiça em Portugal, fico pasmado por este próprio juiz assumir posições públicas anti-governamentais e ter enviado para a Comunicação Social escutas telefónicas comprometedoras entre Dilma e Lula.

Por outro lado, se Lula afirma querer que se faça justiça, em relação ao processo que o implica, porque raio foi aceitar o convite de Dilma para ser ministro do seu Governo, na véspera de ser detido, alimentando a natural especulação de querer obter a imunidade de ser julgado por aquela instância jurídica do País? No final, e para aumentar a confusão geral que se vive, essas mesmas escutas parecem ter colocado em causa não só Lula, como também a própria Presidente Dilma Rousseff, sobre a qual recai agora uma acção de impedimento à sua governação.

Já há uns meses, a propósito do sistema de transportes nas grandes cidades brasileiras, observaram-se enormes manifestações de contrariedade, às quais não foi indiferente a acção da oposição brasileira mas, desta vez e embora essa oposição política esteja bem presente, o que está em causa é um sério problema de moral pública e, nestas circunstâncias, a ética dos governantes não é um exclusivo da Direita nem da Esquerda, é um imperativo nacional!

Lula e polvo, embora diferentes, são duas espécies cefalópodes, cuja designação pretende ilustrar o facto de terem os pés na cabeça. No entanto, nesta minha parábola social e ainda a meio desta tempestade de acusações mútuas, fico com sérias dúvidas se não são uma e a mesma coisa, metendo os pés pela cabeça e as mãos na massa…

LUIS BARREIRA

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