Laos – As Montanhas do CalAminhã – 8

Do Trilho de Ho Chi Min à Planície das Jarras

Do Trilho de Ho Chi Min à Planície das Jarras

Continuando a nossa deambulação pelo Laos, evoquemos aqui algumas das particularidades da música e da sétima arte locais, antes de nos embrenharmos pelo interior do País rumo ao Sul, seguindo o tristemente célebre trilho de Ho Chi Min.

A música e a dança clássicas quase que desapareceram do País. O mesmo não se pode dizer da música tradicional, ainda bastante popular. A khaen, flauta de pan local, é o instrumento que mais se evidencia nos ensembles laosianos. A música pop local, derivada da música tradicional, é largamente apreciada, embora seja grande a influência da música tailandesa, que frequentemente se ouve na rádio. Por vezes, a falta de equipamento de ponta e dos últimos gritos da indústria discográfica feitos CD numa estação de rádio tinha as suas vantagens. A rádio Luang Prabang, por exemplo, feita com as condições mínimas e a funcionar ainda maioritariamente a cassetes e a cartuchos, tinha a vantagem de levar junto dos ouvintes preciosidades como os êxitos dos Santa Esmeralda e dos cantores de charme franceses dos anos 60 e70. Uma raridade nos dias que corriam.

No Laos, praticamente, não existia cinema. Nem a nível de produção, nem locais onde pudessem ser projectadas as películas, estrangeiras que fossem. As memoráveis salas de cinema de há umas décadas a essa parte – a Cosmic, a Extra e a Lux – encontravam-se encerradas, embora os cartazes de filmes soviéticos e cubanos decorassem ainda as paredes exteriores dos edifícios de arquitectura ao estilo Le Corbusier. A culpa era dos vídeos que eliminaram por completo o prazer de assistir a uma sessão cinéfila com tradução simultânea como tivera oportunidade de presenciar ainda há pouco tempo na capital do Laos. Das diversas “Salles des espectacles” (assim mesmo, em Francês) originais restava apenas o velhinho Odeon Rama Theatre, onde de quando em vez decorriam ainda alguns espectáculos musicais.

Pela primeira vez, a cantora lao-americana Ketsana Vilaylack apresentara-se ao vivo na capital do País onde nascera e de onde saíra aos oito anos para emigrar para os Estados Unidos, como informava o panfleto de apresentação do pouco usual evento. Só que o mesmo não especificava a razão dessa partida. A família de Ketsana, como tantas outras, teria passado a fronteira a salto para a Tailândia onde teria aguardado, anos talvez, num campo de refugiados pelo tão esperado passaporte para o “país da liberdade”. E agora, essa estrela da pop laosiana – “que conta com imensos fãs na América”, como acrescentava também o panfleto – com o patrocínio da Beer Lao e da Lao Soft Drinks, Kodak, DHL, Novotel, 3-Headed-Records Ketsana Productions USA, Vientiane Times e do BlueGrass Advertising, estava no seu país natal para apresentar versões retro de temas antiguinhos como o “Não esqueci Vientiane”, “Não me posso esquecer de ti” e “Um par de pombas”. E nessa sua lamechice fazia-se acompanhar pelas mais significativas estrelas pop do Laos, réplicas automatizadas e mal vestidas dos congéneres tailandeses. No mínimo, um mimo de espectáculo. Quem foi que disse que o fenómeno pimba é uma invenção portuguesa?

 

A PLANÍCIE DAS JARRAS

A um dos cantos da vidraça do guiché onde se pagava a taxa do aeroporto de Luang Prabang, estava afixada a seguinte nota: “Show all your weapons”. Mais directos não podiam ser as autoridades desta antiga capital do Mekong, que na estação das chuvas extravasava e essa era a melhor altura para percorrer o País através da via fluvial. Não só ao longo do Mekong, mas também por muitos outros rios que constituem ainda, à falta de um sistema rodoviário efectivo, as vias de comunicação por excelência do Laos. Os barcos eram lentos e poucos confortáveis e havia que dispor de tempo para se deixar navegar. Contudo, para os mais apressados não faltavam barcos velozes que cobriam as distâncias a um ritmo parecido com o da Fórmula 1. Pelo menos no que respeitava aos decibéis. Os tímpanos, sofriam a bom sofrer. E de nada nos valiam os capacetes integrais disponibilizados pelo motorista kamikaze da embarcação fusiforme.

A nordeste, nos altos planaltos da Planície das Jarras, é o Vietname que se esconde por detrás das montanhas. No apogeu da boa vizinhança com o Estado socialista, os soldados de Ho Chi Min construíram aí uma rede viária que se encontrava na época num estado lamentável, mas que não deixava de constituir um dos cartazes turísticos da região. Falo do lendário trilho de Ho Chi Min que os estrangeiros podiam doravante visitar na mais completa segurança. Os vietnamitas desempenhavam no Laos um duplo papel. Se por um lado contribuíam – com maquinaria, pessoal especializado e capital – para a construção de novas estradas, por outro despojavam a floresta fronteiriça dos seus bens mais preciosos: animais selvagens e árvores de grande porte.

A Planície das Jarras é uma vastíssima região repleta de misteriosos potes de pedra semienterrados pelas colinas adiante, a fazer lembrar as famosas estátuas da ilha de Páscoa. De acordo com alguns especialistas, os homens que há mais de dois mil anos moldaram essas gigantescas jarras para aí colocar as cinzas dos seus defuntos seriam habitantes da ilha de Bali, o que, a ser verdade, faria deles antepassados dos laosianos. Conta a lenda que se trata dos utensílios de um festim imperial ali deixados pelos deuses após uma grande vitória.

 

A AMEAÇA DAS BOMBAS

Por altura da “libertação” do País pelas tropas vietnamitas, a Planície das Jarras, que tinha Phonsavan como o mais importante centro habitacional, era um monte de destroços. Entre 1964 e 1973, o Laos seria sujeito a alguns dos mais pesados bombardeamentos da história da humanidade. Mais de dois milhões de toneladas de bombas e milhões de explosivos anti-pessoais foram despejados neste país de apenas quatro milhões de habitantes. O Laos recebeu mais bombas por habitante do que qualquer outro país no mundo. A sua capital na altura, Xieng Kuang, pura e simplesmente desapareceu do mapa.

Os pilotos americanos regressados dos quotidianos ataques aéreos a Hanói, tomaram o hábito de despejar ali o resto das bombas que traziam nos porões das suas aeronaves. Não houve povoação que ficasse ilesa ao bárbaro ataque ianque. Poder-se-á mesmo dizer que todas as bombas que sobravam nos porões dos bombardeiros norte-americanos em missão no Vietname eram largados sobre território laosiano com o mero intuito de aliviar a carga e com a desculpa de que se calhar estava ali em baixo camuflados uns quantos malvados de vietcongs e commies (comunistas). Muitos desses engenhos nunca chegaram a explodir, encontrando-se agora “semeados” pelos campos e florestas do País numa ameaça permanente ao labor diário dos camponeses e à inocente curiosidade e brincadeira das crianças. Periodicamente, notícias de explosões estampadas na Imprensa testemunham a presença dos engenhos escondidos na terra. Um golpe de enxada no sítio errado, uma perna a menos!

Também os pagodes em ruínas lembravam ainda, apesar de tudo, a sua vocação real. Relicários de ouro e budas de diamante asseguraram ao longo dos séculos uma prosperidade discreta, até que os vietnamitas trataram de a confiscar. Foi o preço a pagar pela tão apregoada “libertação”.

Como consequência do extravasamento da guerra do Vietname, o Laos suportou também a destruição sistemática do seu território e população embora pouco se tenha falado disso ou alguma vez Hollywood tenha esquematizado filmes sobre o assunto. (Todos sabemos da quantidade de películas cinematográficas realizadas a partir da tragédia do Vietname, mas que seja do meu conhecimento nada foi feito a respeito da destruição maciça de aldeias no Laos nem daquele míssil disparado de um Nomad T-28 que matou de uma só assentada 400 aldeões, muitos deles crianças e mulheres, que buscavam refúgio na cave de Tham Piu na província de Phonsavan).

Foi precisamente a pensar nesse sério problema que, em 1996, foi criado o UXO-Lao, um programa de “detonação de bombas por explodir”, cuja acção se estende a quinze das dezoito províncias do País. Nessa área operavam técnicos de treze países e de duas organizações internacionais. Reduzir o número de casualidades civis (mortes e ferimentos) e desenvencilhar de engenhos explosivos uma maior área de terreno possível, libertando-a para futuro cultivo agrícola, são basicamente os objectivos a que se propunha a UXO-Lao, que só num ano formara quase quatro centenas de “desminadores” entre as gentes locais, promovera sessões de esclarecimento junto das populações sobre os perigos das minas e bombas por detonar e treinara 62 estudantes no campo paramédico.

Joaquim Magalhães de Castro

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