Grande Prémio de Macau

GRANDE PRÉMIO DE MACAU Os quatro ases

Os quatro ases

Todos temos presente que foram Fernando Macedo Pinto, Carlos da Silva e Paulo Antas que tiveram a ideia de fazer “uma caça ao tesouro” e que por instigação de Paul Dutoit, um cidadão suiço residente em Hong Kong, ex-piloto de motos na Europa, se criaria o “maior evento do Desporto Motorizado da Ásia”. Porque sonharam e lançaram a primeira pedra do Grande Prémio de Macau, estes quatro indivíduos formam o Primeiro Ás.

Tudo muito bem, mas poucos sabem qual a razão que levou Paul Dutoit a vir a Macau pessoalmente, em vez de apenas enviar uma resposta por escrito aos entusiastas macaenses, naquele longínquo ano de 1954. Algo de estranho, pois a resposta, aparentemente, foi muito superior ao solicitado. Arriscando um pouco, cremos que poderia ter sido assim.

A Ásia saía de uma recessão profunda e prolongada após o fim da Segunda Guerra Mundial, as notícias que vinham da Europa sobre a Fórmula Um e o Desporto Motorizado em geral contrastavam com a impossibilidade de se organizar uma corrida de automóveis a sério em Hong Kong, devido a ser estritamente proibido, tendo os fans que se reuniam aos fins de semana em Salisbury Road, na Península de Kowloon, que se contentar com uns insuficientes “speed trials”, com carros muito comuns.

A oportunidade surgida com a carta de Fernando Macedo Pinto foi a tábua de salvação que o ainda jovem Motor Sport Club de Hong Kong encontrou para conseguir ter as suas corridas de carros. Estamos em crer que se o trio macaense, em vez de mostrar a Paul Dutoit o traçado que é hoje o super famoso Circuito da Guia, lhe tivesse mostrado as ruas à volta da Colina da Penha, ou a Ilha Verde, as palavras teriam sido as mesmas: «O que vocês têm aqui não é uma caça ao tesouro. O que vocês têm aqui é um Grande Prémio». Assim nasceu o Grande Prémio de Macau, se bem que o trio de amigos que tiveram a ideia, no final do primeiríssimo Grande Prémio, há exactamente 60 anos e 13 dias – se contarmos a partir dos primeiros treinos livres de quinta feira, – estivessem convencidos que aquele tinha sido o primeiro e o último Grande Prémio de Macau.

Uma vez mais foi a necessidade imperiosa dos aficionados de Hong Kong, através de Paul Dutoit, que manteve a chama viva, que este ano comemora, de facto, 60 anos.

 

Teddy Yip Sr.

Passamos ao Segundo Ás, a pessoa de Teddy Yip (Sénior).

Teddy Yip não precisa de qualquer tipo de introdução. O título não oficial de “Senhor Grande Prémio de Macau” assentou-lhe como uma luva durante o percurso como piloto e chefe de equipa.

Foi uma presença constante até ao seu desaparecimento, ele que festejava as derrotas dos “seus” pilotos com o mesmo entusiasmo que as vitórias. Muitas pessoas ainda pensam que Teddy Yip participou em todos os grandes prémios de Macau até ao final do Século XX, mas tal não corresponde à verdade. Não participou no primeiro por não acreditar que fosse verdade, nem no segundo porque, segundo as suas próprias palavras, deixou o Jaguar XK 120 «enrolado num candeeiro do circuito» (wrapping a lampost at the circuit). Teddy Yip participou no Grande Prémio de Macau por “apenas” por 12 vezes como piloto.

A melhor participação foi em 1963 com um pódio no terceiro lugar, tendo conseguido mais três quintos lugares. Enquanto chefe da equipa Theodore Racing viu a deusa da sorte sorrir durante 11 anos, quando os seus carros disputavam nas ruas da Guia a liderança e os pódios do GP Macau. Ayrton Senna e Mauricio Gugelmim foram os últimos grandes sucessos. Depois, aos poucos, a Theodore Racing desvaneceu-se no território, mas não esteve só em Macau.

Teddy Yip foi um dos poucos, se não o único “patrão” a ter “corrido” nas Fórmulas 1, 2, 3, e 5000. Ainda teve tempo e capacidade para co-patrocinar – conjuntamente com o amigo L.C. Kwan – um carro de Indyanapolis, que Verne Schuppan levou ao 3º lugar da terrível “Indy 500”, em 1979. Teddy Yip era famoso em todo o mundo, por muitas e variadas razões, mas nunca se esqueceu de Macau. Sem a presença dele, contínua, vencendo ou não, o Grande Prémio de Macau teria sido muito diferente.

 

John MacDonald

John MacDonald é o nosso escolhido como Terceiro Ás.

Chegou a Hong Kong em 1963, para ocupar um posto na Real Polícia de Hong Kong, depois de ter corrido com todo o tipo de veículos de duas e quatro rodas, especialmente no Reino Unido, mas o bichinho do Desporto Motorizado não ficara nas Ilhas Britânicas. Em 1964 estreia-se em Macau com um Lotus Elan emprestado. Qualifica-se em 8º da grelha de largada e acaba em sexto lugar. No ano seguinte compra o seu primeiro carro de corrida na Ásia, um Lotus 18 que aparentemente ninguém queria e a que o anterior dono chamava de «monte de sucata inútil» (useless old heap). Para espanto de muitos, talvez mesmo do próprio John MacDonald, venceu o Grande Prémio de Macau e apenas à segunda tentativa.

Em 1968 tornou-se proprietário de uma oficina de automóveis na ex-colónia britânica e passou a preparar os seus carros. Correu com alguns dos melhores carros da Fórmula Atlantic e Fórmula Junior da época. Em 1975 foi a Inglaterra adquirir um Ralt RT1 construído para ele – o primeiro carro da Ralt da Fórmula Atlantic, com o chassis nº5 – com que venceu, entre outros, o último Grande Prémio de Macau em que participou.

John MacDonald esteve em Macau para o 25º Aniversário do Grande Prémio de Motos de Macau e tomou parte de uma parada de exibição com outros antigos vencedores dessa prova. Ele, que depois do horrendo acidente sofrido no GP Motos de 1970 tinha jurado nunca mais andar de mota, foi para a pista sem capacete. Caiu perto da casa de Teddy Yip, tendo ficado magoado com várias nódoas negras muito visíveis na cara e nos braços. No dia seguinte, enquanto conversámos junto às barreiras de protecção perto da saída das boxes, em frente ao Hotel Mandarin Oriental, e ao reparar que lhe estava a olhar muito fixamente para a cara, deu-me uma palmada no ombro e disse-me: «Que é que queres!? Ficamos mais velhos, mas não mais espertos». (What do you want? We grow older… not wiser!).

John MacDonald foi senhor de um palmarés invejável. Sem contarmos com as múltiplas vitórias anteriores à sua chegada a Hong Kong, venceu o Grande Prémio de Macau por quatro vezes, a Guia Race por uma vez (a primeira corrida de turismos com esse nome, pois já tinha havido outras equivalentes, no mesmo circuito, com outros nomes), o Grande Prémio de Motos de Macau por uma vez, o Grande Prémio da Malásia por quatro vezes, o Grande Prémio das Filipinas por duas vezes, e os grandes prémios da Indonésia e de Singapura por uma vez. Tudo entre 1964 e 1975. Faleceu no início de 2005.

 

João Manuel Costa Antunes

Por último, escolhemos para Quarto Ás o engenheiro João Manuel Costa Antunes.

Pode parecer estranho esta escolha, mas Costa Antunes teve que enfrentar a delicada e hercúlea tarefa de devolver o Grande Prémio de Macau aos macaenses. Como dissemos no Primeiro Ás, o Grande Prémio de Macau nasceu, cresceu e viveu ao longo das primeiras cinco décadas com muita condescendência e apadrinhamento de Hong Kong, especialmente do Hong Kong Automobile Association, que sucedeu ao Motor Sport Club de Hong Kong.

Tudo o que se fazia passava por Hong Kong. Todos os cargos importantes estavam nas mãos de pessoal do território vizinho. Todas as decisões vinham do Fragrant Harbour. Faziam-se as corridas que Hong Kong queria. Desde as relações públicas, até ao fornecimento de pneus, à escolha e contratação de pilotos e equipas, os comissários e o pessoal com capacidade de decisão vinham de Hong Kong, ou através de Hong Kong.

Quando, em finais de 1986, se falou pela primeira vez na “localização” do evento junto dos intervenientes de Hong Kong, lembro-me de ouvir Sir. Phill Taylor dizer ao ex-Secretário Geral da Comissão Organizadora do Grande Prémio de Macau, na época conservador do Museu do Grande Prémio, Carlos Dantas Guimarães: «Carlos, eles querem roubar-me o meu Grande Prémio».

Em 1988 se Costa Antunes não tivesse um coração forte quando lhe deram a responsabilidade de dirigir o evento, teria tido um ataque cardíaco. O pessoal de Hong Kong aportava em Macau e dava ordens, pedia coisas e comportava-se como pequenos sobas, que dominavam o conjunto onde apenas alguns locais tinham acesso. Costa Antunes, aos poucos, foi-se rodeando de uma equipa competente, que transformou todas as actividades do Grande Prémio de Hong Kong disputado em Macau num verdadeiro Grande Prémio de Macau.

Só pelo facto de ter conseguido levar a cabo essa tarefa gigantesca e ter entregue (que não devolvido, pois nunca fora o GP de Macau) o Grande Prémio de Macau a Macau, deverá receber o título vago pelo desaparecimento de Teddy Yip e passar a ser chamado de “Senhor Grande Prémio”.

Manuel dos Santos

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