Filosofia, uma dentada de cada vez (65)

Quando é que somos obrigados a obedecer à nossa consciência?

Quando é que somos obrigados a obedecer à nossa consciência?

Já vimos como o Homem necessita de um “sistema de navegação” interno – a consciência – e como a ignorância pode afectá-lo.

Devemos obedecer sempre à nossa consciência? Se não, em que condições estamos obrigados a segui-la? Hoje iremos examinar os factores que devemos ter em conta para respondermos a estas perguntas.

Podemos dividir esses factores em três: (1) no que diz respeito ao julgamento da consciência (se a consciência faz um julgamento correcto ou falso); (2) no que concerne à firmeza do julgamento (se a consciência tem a certeza, sustem uma opinião; ou tem dúvidas) (ver FILOSOFIA, UMA DENTADA DE CADA VEZ, nº 57); (3) com respeito ao grau de firmeza do seu mandato (se permite, sugere, ordena e proíbe). Deixem-nos ver cada um deles com maior detalhe.

(1) Julgamento correcto ou errado. Deixem-nos relembrar que o intelecto tem três operações: apreensão simples, julgamento e raciocínio (ver FILOSOFIA, UMA DENTADA DE CADA VEZ, nº 7). Quando a apreensão simples falha, chamamos a esse facto “ignorância” (ver FILOSOFIA, UMA DENTADA DE CADA VEZ, nº 64). Quando o julgamento e o raciocínio falham, denominamos de “erro”. E quando o consciente julga que algo é bom, mesmo se na realidade é mau, ou julga que algo é mau, quando na realidade é bom, trata-se de consciente falso ou erróneo (exemplo: um estudante poderá pensar que está a “fazer uma pesquisa”, mas na realidade está a plagiar o trabalho de uma outra pessoa; um médico poderá pensar que está a ajudar alguém a “morrer com dignidade”, quando na verdade está a matar uma pessoa inocente). Mas quando o consciente julga que algo é bom, mesmo se na realidade é bom, ou julga que algo é mau, quando na realidade é mau, chamamos de consciência “verdadeira” ou “correcta”. E qual é o ponto de referência para se determinar se um julgamento está correcto ou errado? A Lei Moral (ver FILOSOFIA, UMA DENTADA DE CADA VEZ, nos 62 e 63).

(2) Firmeza do julgamento (ver FILOSOFIA, UMA DENTADA DE CADA VEZ, nº 57). (2.1) Certeza. Este é o caso de alguém que está firmemente convencido sobre uma qualquer acção, ou sobre a sua moralidade. Para se ter a certeza, precisamos de estudar e reflectir sobre o caso e os princípios morais relacionados a ela. (2.2) Opinião. Esta atitude pode ser hesitante. Pode-se estar inclinado a pensar que algo é bom, ou é mau, mas estar-se aberto à possibilidade de poder estar errado. Em questões importantes a pessoa deverá informar-se de forma a poder ter uma firme certeza antes de fazer algo. (2.3) Dúvida. Uma pessoa com dúvidas ainda não fez um julgamento (ou tomou uma decisão). Nunca é correcto fazer-se algo se se tiver dúvidas de consciência. Isso seria o equivalente a dizer-se “não me preocupo se é bom ou mau”. Tem que se clarificar as dúvidas antes de agir. Por aqui se pode ver quão importante é estar-se informado sobre o que se está a fazer e ser-se formado nos princípios morais correctos.

(3) Firmeza do mandato. A consciência poderá permitir, sugerir, ordenar ou proibir. Uma regra importante a ter em mente é de que uma pessoa está obrigada a obedecer à sua consciência se o seu julgamento estiver certo (não apenas tendo uma opinião ou dúvidas) e quando ordena ou proíbe (e não meramente permite ou sugere). O Catecismo da Igreja Católica (nº 1790) diz-nos: “Um ser humano deve sempre obedecer aos julgamentos correctos da sua consciência, se ele agir deliberadamente contra este princípio, estará a condenar-se a si próprio”.

Pe. José Mario Mandía

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