Filosofia, uma dentada de cada vez (51)

A Divina Graça viola a Liberdade ?

A Divina Graça viola a Liberdade ?

Deixem-nos dar um passo para além da Filosofia. Vimos que as virtudes humanas são uma força libertadora: ajudam-nos a exercitar a nossa liberdade. Além disso, uma pessoa que tenha sido baptizada pode alcançar ainda mais (ter mais sucesso). Porque recebeu a Graça, recebe as Virtudes Teológicas e os presentes do Espírito Santo. Tudo isto nos torna mais livres.

Este facto explica porque é que nós, católicos, pensamos que podemos elevar-nos acima da nossa condição de pecadores e genuinamente nos tornarmos santos. Não é porque pensemos que realmente temos esse potencial, ou que o merecemos, ou que por uma pura força de vontade ultrapassaremos todas as adversidades. Nada disso! A Santidade apenas é possível com Jesus Cristo, que disse aos Seus apóstolos «sem Mim, vós não podeis fazer (ser) nada» (João 15:5). Sem Ele nada. Absolutamente!

É Ele que nos transforma através da Sua Graça, das Virtudes Teológicas, dos Dons do Espírito Santo. Mas como? Sendo estes exteriores ao ser humano, não infringem a nossa liberdade? Afinal, de que forma é que nos ajudam? A Graça é um impulso físico? É energia acrescentada? Será um sentimento edificante? Como é que estes presentes divinos funcionam?

Precisamos lembrar um importante princípio: Os presentes de Deus não destroem a natureza humana. Pelo contrário, eles conjecturam para que cresça e a elevem a um nível mais elevado – o sobrenatural.

Porque é que conjecturam a natureza? Para o compreendermos, temos que recordar que Deus nos criou à Sua imagem, com o poder de compreender, o poder da vontade e do amor. Deus quer que nós sejamos e procedamos como Ele: em liberdade. Esta liberdade é parte integrante da nossa natureza. Assim, Deus nunca fará nada que viole a nossa natureza, nada que nos tire a liberdade. Pelo contrário, Ele tudo fará para a preservar e aumentar a nossa liberdade.

Já vimos que a nossa liberdade ganha força sempre que entendemos melhor e amamos mais. A Graça, as Virtudes Teológicas e os Dons do Espírito Santo iluminam o nosso intelecto e dão mais força à nossa vontade. Ao aumentar a nossa capacidade de entendimento e a nossa capacidade de amar, fazem-nos mais livres, libertam-nos. As acções de Deus não nos escravizam, mas libertam-nos.

Quando pedimos a Graça, basicamente estamos a pedir uma luz para vermos e força para fazer e agir.

E as Virtudes Teológicas? A fé é como os binóculos de visão nocturna: ajudam-nos a ver através das noites escuras da nossa vida. A esperança é como os binóculos: ajuda-nos a vermos em frente, para o futuro, para onde vamos. Tanto a fé como a esperança ajudam o nosso intelecto. A esperança também fortalece a vontade para assim pudermos travar batalhas espirituais. O amor torna-nos capazes de suportar todas as coisas, aguentando tudo (cf. I Coríntios 13:7). A fé, a esperança e o amor tornam-nos mais livres.

Os presentes do Espírito Santo (cf. Isaías 11:2-3) transportam-nos a novas alturas que estão fora do alcance do poder humano. Quatro deles (Sabedoria, Entendimento/Inteligência, Ciência, Conselho) iluminam o nosso intelecto, e outros três (Fortaleza, Piedade, Temor a Deus) fortalecem a nossa vontade.

O presente da Sabedoria (sensatez) leva-nos a saborear e ver como o SENHOR é bom (Salmos 34:9), mesmo durante os maus momentos e dificuldades. O presente do Entendimento/Inteligência ajuda a aprofundar o nosso conhecimento dos mistérios da fé e como estes se aplicam à nossa vida. O presente da Ciência ajuda-nos a conhecer o verdadeiro valor das coisas criadas para que não nos apeguemos a elas: Porque este mundo de aparências está a terminar (1 Coríntios 7:31). O presente do Concelho guia-nos nas nossas decisões práticas.

Já a Fortaleza dá-nos força: Nela residem a Sabedoria e o Poder. Ela possui o Conselho e a Inteligência (Jó. 12:13). A Piedade faz-nos buscar a nossa força em Deus nosso Pai: E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do Seu Filho, que clama: «Abbá! – Pai!» (Gálatas 4:6). E porque somos filhos, temos medo de ofender esse Pai que nos ama em extremo: O Temor ao SENHOR é o princípio da Sabedoria (Provérbios 9:10).

Pe. José Mario Mandía

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