Encontro familiar

Rota dos 500 Anos-Encontro familiar

A visita ao navio de cruzeiro da Disney, infelizmente, não se realizou como estava planeado. Por razões de segurança, os terminais de cruzeiro não permitem a entrada de estrangeiros, que não sejam passageiros, a bordo de navios de registo norte-americano. O meu primo ficou desiludido com a situação, mas todos compreendemos que as regras são para cumprir. Há-de haver outras oportunidades.

O encontro serviu para matar saudades e para falar da família que está do outro lado do Atlântico e que ele já não vê desde o Natal. E eu desde 2013… Passámos quatro horas juntos. Deu para almoçarmos comida chinesa e ainda para virmos ao veleiro beber uma cerveja fresca, antes de regressar ao navio para retomar funções. Daqui seguiu para as Bahamas, sendo que o cruzeiro termina em Cabo Canaveral. Esta é a penúltima viagem que realiza, pois já apresentou a demissão – os euros que ganha actualmente não justificam as mais de 80 horas semanais que tem de cumprir.

É sempre bom rever familiares e amigos, principalmente quando estamos há tanto tempo separados. Manter os laços é importante para qualquer pessoa. Mesmo fazendo amigos que vivem o mesmo estilo de vida que nós, tentamos manter vivos os contactos da nossa vida anterior, pois os amigos e a família são o mais importante.

No dia a seguir à visita do meu primo, voltámos aos trabalhos no veleiro. Havia que proceder à instalação definitiva da bomba de água eléctrica. Fizemo-lo sem grandes problemas e ainda instalámos um interruptor na torre de navegação do poço, que permite ligar e desligar a bomba sempre que se coloca o motor a funcionar. Optámos por não retirar a bomba mecânica de água salgada, uma vez que pode vir a ser necessária se algo acontecer com a bomba eléctrica.

Demos também início à limpeza do casco do veleiro, já tendo em vista a viagem para Guadalupe, mas como a corrente tem estado muito forte ainda só conseguimos limpar a bombordo. Nos próximos dias devemos concluir a limpeza, retirando alguns quilos de crustáceos e limos do casco, tornando-o mais leve. Pode ser que ajude a ganhar alguma velocidade, dado que a viagem será contra vento, corrente e ondulação.

Durante o processo de limpeza descobri um pequeno problema na pintura, precisamente na linha de água. Um pequeno pedaço, do tamanho de uma moeda de uma pataca, descolou e deixou a fibra-de-vidro a descoberto. Sem saber muito bem o que fazer, apliquei um pouco de mastik – seca debaixo de água – para evitar infiltrações. Não é nada de grave, mas se não for controlado pode dar origem a uma infiltração entre a fibra e a tinta, provocando a deterioração precoce da pintura.

Durante a semana houve ainda tempo para visitar os amigos do Gentileza, que ancoraram noutra baía, não muito longe, mas ainda a uma distância que nos obrigou a viajar de autocarro e de bote. As poucas horas que passámos juntos serviram para costurarmos a vela para o nosso bote e para levarmos material para fazermos a quilha. Em breve iremos trabalhar no leme, que será construído com restos de tubo e de madeira que temos a bordo. Assim que tudo estiver pronto, o nosso bote de plástico transformar-se-á num pequeno barco para aprendizagem dos conhecimentos básicos de vela. Será nele que a Maria e a sua amiga Júlia irão aprender a velejar. Prometo publicar algumas fotos e descrever o processo de construção de todas as partes, desde o mastro às velas, passando pelo leme e pela quilha. Tudo com material reciclado.

O amigo Jeff, do veleiro Selah, que navega sozinho na segunda volta ao mundo, tem estado connosco, revelando-se uma autêntica fonte de informação. O Jeff é especialista em rádios, televisões e antenas, tendo trabalhado muitos anos com antenas emissoras em todo o território norte-americano. Já combinámos que irá levar o nosso rádio de onda curta para lhe instalar uma entrada de som. Vamos tentar fazer com que trabalhe com o computador e, assim, permitir enviar e receber e-mails durante as travessias oceânicas. Será de extrema importância, principalmente na travessia do Pacífico e na passagem pelo Índico e Atlântico.

Estamos também a restaurar a caixa de armazenamento que se encontra no exterior do veleiro. A dobradiça da tampa estava com os parafusos quebrados e a precisar de ser reforçada. É um trabalho demorado que envolve a aplicação de fibra-de-vidro e outros materiais, pelo que é preciso paciência. Uma vez concertada esperamos que aguente mais um ou dois anos de trabalho intenso.

Nos próximos dias iremos continuar a preparar o Dee, num ritmo mais relaxado, e decidir em que dia zarpamos para sul. Ainda não decidimos se iremos directos ou numa rota de ilha em ilha, que provou ser a opção mais adequada quando viemos para norte. No entanto, dado que os ventos soprarão, predominantemente, de Este, Nordeste, uma viagem directa de três ou quatro dias poderá ser a melhor solução. Tal será decidido pela tripulação quando se aproximar a data de partida.

JOÃO SANTOS GOMES

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