Cubo de Rubik ou a Complexificação da Quadra

A cultura de Natal, segundo José

A cultura de Natal, segundo José

Reflectir sobre o Natal nos dias de hoje pode levar-nos a um exercício de menosprezo pelas diferentes interacções que esta época hoje implica. Mas não fiquemos pela superfície, pois há muito mais para reflectir do que à partida poderíamos pensar.

Há uns tempos a esta parte, aquando do grande impacto dos “fidget spinner” na sociedade portuguesa, circulou uma publicação que colocava em contraponto um cubo de Rubik, ou cubo mágico, e um “spinner”; na legenda da imagem, uma frase: “Cada geração desenvolve aquilo para a qual está capacitada”. A tese desta publicação era simples: não obstante os supostos benefícios psicológicos que os “spinner’s” poderiam trazer, o simples manuseamento deste objecto deveria supor uma menor capacidade intelectual desta geração quando comparada com a geração que teve de lidar com a dificuldade da solução do cubo mágico.

Aplicando a mesma tese poderíamos ser, e somos muitas vezes, tentados a afirmar que a sociedade actual, que vê o Natal, na sua maioria, simplesmente como a festa da família, tem uma ideia muito mais simplista do que as gerações que nos precederam, que viviam o Natal como a celebração da encarnação do Verbo.

O movimento giratório em torno de um único centro, a família, parece ser muito mais simples do que os vários movimentos que o cubo mágico evoca, assim como o Natal enquanto encarnação do Verbo: um Deus que Se faz menino e, portanto, que Se faz carne, uma Virgem que dá à luz, a divisão da história num antes e depois, os excluídos que são as principais testemunhas, os reis que se ajoelham…

Eis uma verdadeira tentação. Na verdade, e porque hoje é o Google que tudo sabe, ao fazer uma pesquisa sobre Natal surgem 277 milhões de resultados em 0,5 segundos. Na sua grande maioria, os resultados estão relacionados com viagens, presentes e comida. Percebemos, desde logo, que o Natal permite, na actualidade, mais do que um movimento em torno de um centro agregador. O Natal não se simplificou, complexificou-se. Eventualmente, não do modo que os cristãos esperavam e talvez por isso um certo repúdio das expressões culturais do Natal hodierno, que parecem desvanecer o verdadeiro sentido.

Por cultura entende-se o “conjunto de costumes, de instituições e de obras que constituem a herança de uma comunidade ou grupo de comunidades”. Deste modo, podemos afirmar que se tornou quase cultural as viagens neste período e por isso a oferta das agências é especialmente apetecível nesta época, o que supõe uma maior procura. Está enraizada a cultura dos presentes que movimentam grande parte da economia ocidental. Em Portugal, por exemplo, os dados estatísticos permitem comprovar que esta época incrementa em vinte por cento as vendas e a contratação de centenas de pessoas para empregos de carácter sazonal. Tornaram-se culturais as promoções nesta época do ano, sobretudo aquelas relacionadas com o mercado alimentar. Tornou-se cultural, também, a cinematografia relacionada com o tema, o que permite que os estúdios realizem um grande número de filmes com um orçamento muito elevado. Outros filmes, além do clássico “Sozinho em Casa”, que entretanto já motivou até campanhas publicitárias! Tornaram-se culturais os jantares de solidariedade, bem como os jantares empresariais ou do círculo de amigos. São culturais os grandes concertos desta época, nas principais e mais prestigiadas instituições musicais e culturais. É cultural a agitação frenética quase em contraponto com a tranquilidade a que um recém-nascido obriga.

Na actualidade, culturalmente, poderíamos comparar o Natal ao cubo de Rubik e não necessariamente pela associação à palavra “magia” que o cubo mágico e a época mágica permitem.

O Natal dos nossos dias permite inúmeras leituras sociais e culturais, que não são as mais homogéneas e lineares.

Não obstante a dificuldade de uma leitura linear da cultura natalícia, o Natal evocará sempre a cultura do diálogo entre crentes e não-crentes. No limite, os inúmeros costumes, instituições e obras culturais, em diferentes direcções, que esta época produz, representam as sucessivas tentativas interpretativas de uma sociedade cada vez mais secularizada a um evento que na origem é religioso. Assim, diante deste cubo de Rubik que o Natal dos nossos dias compõe, haveremos de ser como o José que Jean-Paul Sartre, o filósofo ateu, “pintou” na sua meditação – a peça de teatro intitulada “Barioná ou o filho do trovão” – sobre o Natal no campo de prisioneiros franceses, em 1970. Nesta obra, Sartre dizia: «José, não o pintaria. Mostraria apenas uma sombra ao fundo da granja e dois olhos brilhantes. Pois não sei o que dizer de José e José não sabe o que dizer de si mesmo. Adora e está feliz por adorar e sente-se um pouco em exílio». Diante desta composição cromática cultural, poderemos apenas contemplar e sentir-nos felizes sem compreender as verdadeiras razões de tal felicidade.

Pe. JOSÉ ANDRÉ FERREIRA 

Síntese

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