Cristãos no Médio Oriente

CRISTÃOS NO MÉDIO ORIENTE

Uma comunidade desunida

Nos últimos tempos, sobretudo após a implantação, nas férteis planícies da Mesopotâmia, do tenebroso Estado Islâmico, as esquecidas comunidades cristãs de tão instável região têm sido notícia, e não pelos melhores motivos. A contabilidade é pesada: são aos milhares, as vítimas dos fanáticos e cruéis algozes. Homens, mulheres e crianças que pouco contam para as agências noticiosas internacionais, habituadas a resumir as questões do Médio Oriente ao conflito israelo-árabe, à eterna dicotomia muçulmano-judeu. Como se não bastasse, esses cristãos padecem de uma enorme maleita: a desunião.

Vem de longe a desarmonia da Igreja no Médio Oriente, caracterizada por cinco grandes tradições: a alexandrina, a antioquena, a arménia, a caldeia e a bizantina. E todas elas com numerosos ritos que, em vez de contribuírem para um enriquecimento mútuo, criam cada vez mais divisões e incompreensões. A este respeito, e muito recentemente, Ramzi Garmou, arcebispo caldeu iraniano advertiu: «Uma Igreja étnica e nacionalista opõe-se à obra do Espírito Santo». Havia motivos para o desabafo deste religioso pois, meses antes, o bispo egípcio copta Kyrillos William iniciara uma campanha contra os irmãos do rito latino acusando-os de celebrarem a sua missa em Árabe e, assim, atraírem fieis coptas, afastando-os da sua Igreja.

No Líbano, onde os cristãos gozam de uma maior liberdade que os seus irmãos na fé das restantes nações do Médio Oriente, medra a intolerância e «onde cada Igreja parece estar interessada em obter benefícios políticos para si mesma», nas palavras de Issam Jonh Darwich, bispo dos greco-melquitas australianos. Nesse país, a liberdade religiosa e de consciência permanece apanágio de dezoito comunidade historicamente reconhecidas – doze cristãs, quatro muçulmanas, uma drusa e uma hebraica. E quem não faz parte delas é praticamente excluído. Por outro lado, eventuais tentativas de proselitismo resultam, quase sempre, em actos de uma violência inaudita. Qualquer tipo de conversão é visto com um profundo golpe infligido na comunidade de origem do convertido constituindo, por isso, factor de ruptura social.

Entre as figuras mais polémicas da história recente do Cristianismo no Médio Oriente está o ex-representante máximo da Igreja Copta ortodoxa do Egipto, o Papa Shenouda III, falecido em 2012. Autoritário por natureza, nunca perdoava quem ousasse pôr em causa a sua forma de actuar. Mesmo que o “herege” em questão tivesse já morrido. Ficou conhecida a vingança que Shenouda engendrou para o padre Ibrahim Abdel Said, em vida uma das vozes mais críticas à actuação da cúpula da Igreja Copta no Egipto, razão que levou “sua santidade” a ameaçar Ibrahim com o “fogo divino” e a “maldição eterna”. E Shenouda III não hesitou em pôr em prática o decreto logo que soube da morte do seu antagonista, vítima de um ataque cardíaco quando conduzia automóvel. Shenouda III, embora ausente nos Estados Unidos, ordenou que fosse proibido a realização de qualquer serviço fúnebre por alma do padre rebelde na catedral de Abassiya, o mais importante edifício religioso e sede papal da Igreja Copta que conta no Egipto com vários milhões de fiéis. Os cristãos coptas constituem treze por cento da população do Egipto, país maioritariamente muçulmano como se sabe.

Pelos vistos o decreto de Shenouda não ficou por aí, já que os portões de uma outra igreja copta da capital egípcia foram literalmente fechados na cara dos familiares e amigos de Ibrahim Abdel Said, que para aí se dirigiam com o defunto depois de tudo terem tentado para celebrar a missa na catedral de Abbassiya. Face a mais esta recusa, seguindo a sugestão de um dos poucos aliados do religioso contestatário, o padre Aghaton, o cortejo fúnebre continuou até à igreja da Virgem Maria, em Heliopolis, norte do Cairo. Aí, o pároco local parecia disposto a autorizar a cerimónia, não fosse um repentino telefonema oriundo da sede papal copta tê-lo feito mudar de ideia. E, assim, o corpo de Ibrahim permaneceu umas horas mais no exterior da igreja enquanto alguns dos seus familiares contactavam um jornalista e um intelectual, ambos íntimos de Shenouda III, na esperança que estes pudessem intervir para acalmar a fúria e intransigência papal. O jornalista nem sequer lhes respondeu. Quanto ao intelectual, veio, e tentou interceder, mas sem sucesso. Shenouda III, contra todos os princípios do Cristianismo, estava disposto a levar até ao fim a sua vingança e maldição.

Na própria igreja de Mar Girgis, no bairro de Maadi, paróquia sob a responsabilidade de Ibrahim, tão pouco a realização do enterro foi autorizada. O mesmo aconteceu numa das igrejas anglicanas, uma vez mais graças a “sabotagem” de um telefonema originário de Abbassiya. Sem outra alternativa, familiares e amigos de Ibrahim Abdel Said, buscaram refúgio numa capela isolada do cemitério de Heliopolis, longe dos olhares dos homens de Shenouda III. E foi aí que, logo a seguir a uma breve homilia presidida pelo pároco Agahton, auxiliado por um padre católico e um diácono anglicano, e à qual assistiu uma centena de pessoas, que o padre Ibrahim Abdel Said encontrou finalmente o descanso eterno.

O Papa Shenouda III tinha razões para se querer vingar do clérigo renegado. Abdel Said foi a voz que mais frequentemente denunciou a corrupção no seio da Igreja Copta, tornando-se de imediato num dos maiores inimigos de Shenouda. Ardente opositor da política papal e autor de uma vintena de livros bastante polémicos, o padre Abdel Said não tinha receio de ser visto na companhia dos membros da oposição nasserista (partidários do antigo Presidente Nasser) ou a falar descontraidamente com clérigos islamistas. Pouco lhe importava o que os outros pudessem dizer. Assumido defensor do ecumenismo, Abdel Said regia-se pela máxima: “A glória de Deus acima de tudo”.

Joaquim Magalhães de Castro

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