Coreia do Norte

COREIA DO NORTE

O Perigo Maior.

A 14 de Maio de 2017, a Coreia do Norte testou com sucesso aparente um míssil balístico de alcance intermédio. Quer isto dizer que, se o míssil funcionar em pleno, poderá atingir territórios norte-americanos no Pacífico. E isto significa que podemos estar à beira de um ataque militar dos Estados Unidos contra a Coreia do Norte.

Às vezes os pequenos detalhes podem mudar a História.

No final de Abril alguns especialistas norte-americanos em armas nucleares descobriam um desses detalhes, que pode ajudar a explicar porque é que a tensão militar na península coreana subiu tanto nos últimos meses.

Ao analisarem fotografias de um míssil norte-coreano exibido numa parada militar, os peritos perceberam que o revestimento da arma era composto por um material diferente do habitual: mais leve e mais sofisticado, potencialmente capaz de permitir que o míssil voe muito mais longe do que seria de esperar, e com uma carga maior.

Esta descoberta, que certamente já teria sido feita antes, em segredo e de outras formas, mostrou que a Coreia do Norte estará muito mais próxima do que se pensava de ter um míssil balístico intercontinental eficaz. Estas armas, que têm um alcance máximo estimado de oito mil a dez mil quilómetros, podem atingir todo o território dos Estados Unidos, e até grande parte da Europa.

Isto não significa automaticamente que a Coreia do Norte seja já capaz de atacar os Estados Unidos com uma arma nuclear, porque o míssil é apenas o meio de transporte. A ogiva atómica é algo totalmente diferente, e conseguir que ela tenha o tamanho necessário – e terá de ser pequeno! – e a robustez suficiente para suportar uma viagem fora da atmosfera e a posterior reentrada, em que as temperaturas atingem milhares de graus Celsius, é extremamente difícil. Além disso, há o problema da orientação. Mandar um míssil para o espaço é uma coisa; fazê-lo cair no sítio que se pretende é outra, muito mais difícil.

Não é por acaso que tudo isto só foi conseguido por cinco países, todos eles dotados de grandes recursos – Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido. Outros três – Índia, Paquistão e Israel – também têm armas atómicas, mas nenhuma deste tipo. Resta a Coreia do Norte, um país muito atrasado em termos económicos, mas que concentrou a maior parte dos seus recursos materiais e humanos no desenvolvimento do seu poderio militar. Os norte-coreanos realizaram o seu primeiro teste de uma arma atómica em 2006. Depois disso fizeram outros quatro, dois dos quais em 2016.

Dado o grau de secretismo que envolve tudo o que se passa na Coreia do Norte, é muito difícil avaliar se esses ensaios tiveram o sucesso necessário para que os norte-coreanos consigam desenvolver armas nucleares utilizáveis num contexto militar. É que não basta fazer explodir um dispositivo dentro de uma montanha. Uma bomba atómica só tem real valor se puder ser enviada à distância, através de um míssil. Para isso, é necessário construir a tal ogiva. E foi precisamente com um desses dispositivos que o líder norte-coreano, Kim Jong-un, aparentemente, se fez fotografar em Fevereiro deste ano.

Jeffrey Lewis, um reconhecido especialista norte-americano sobre o programa nuclear de Pyongyang, analisou detalhadamente essa foto e concluiu que é «uma arma nuclear de primeira geração. Não é uma arma termonuclear [que é muito mais potente]. É muito semelhante, embora o tamanho seja muito mais pequeno, à bomba que os Estados Unidos lançaram sobre Nagasaki».

É claro que uma simples foto não responde à pergunta crucial, colocada por Lewis: «A “coisa” funcionaria?».

Até há muito pouco tempo a resposta dos peritos seria “não”. O consenso generalizado era de que a Coreia do Norte não teria ainda o grau de sofisticação técnica necessário para construir um míssil atómico eficaz, e muito menos um que voasse mais do que umas centenas de quilómetros. Hoje já não há tantas certezas e é por isso que temos assistido a uma escalada de agressividade nos dois lados do paralelo 38, que separa a Coreia do Norte da Coreia do Sul.

Os receios dos Estados Unidos, da Coreia do Sul e do Japão, só para falar dos países mais directamente ameaçados, aumentaram ainda mais com a sucessão de testes de mísseis realizados pelos norte-coreanos. Só em 2017 houve vários lançamentos. Alguns fracassaram, mas o míssil Hwasong-12, que descolou a 14 de Maio, percorreu uma distância de quase 800 quilómetros, em linha recta, e alcançou uma altitude superior a dois mil quilómetros, o que indica que poderia atingir a base norte-americana de Guam, no Pacífico. O especialista norte-americano John Schilling não tem dúvidas ao afirmar que este teste «representa um nível de desempenho nunca antes visto num míssil norte-coreano».

Perante tudo isto, há a noção clara em Washington, Seul, Tóquio, Pequim e em outras capitais importantes de que está muito próximo o momento – e mais próximo do que se pensava – em que já não será possível evitar que a Coreia do Norte possua as armas nucleares suficientes e capazes para causar um cataclismo nuclear à escala global.

Os Estados Unidos, em particular, não estão dispostos a cair numa situação em que possam ser chantageados pelo Governo de Pyongyang com ameaças de ataques atómicos. Não foi por acaso que, aquando da passagem de poder para o seu sucessor na presidência dos Estados Unidos, Barack Obama terá avisado Donald Trump de que a Coreia do Norte era a principal ameaça à segurança nacional do País.

O problema é que não há muitas opções para lidar com esta situação. A diplomacia e a negociação revelaram-se até agora infrutíferas, e é fácil perceber porquê: o Governo comunista da Coreia do Norte está praticamente isolado em termos internacionais e as armas nucleares são o melhor “seguro de vida” que poderá ter. Numa negociação uma parte só abdica de algo se a outra lhe der algo de valor igual ou superior, e a verdade é que, para Kim Jong-un, não há nada que supere a arma nuclear.

É por isso que se fala cada vez mais da possibilidade de um ataque militar dos Estados Unidos e dos seus aliados contra a Coreia do Norte, mas mesmo que este conseguisse destruir as instalações e as armas atómicas norte-coreanas a tempo, a devastação dos dois lados da fronteira, e talvez mais além, seria gigantesca. E já esteve mais longe de acontecer….

ROLANDO SANTOS

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