Cismas, Reformas e Divisões na Igreja – XXXVIII

A Reforma Luterana - I

A Reforma Luterana – I

É neste mês de Outubro que se comemoram oficialmente os 500 anos da afixação das 95 teses de Lutero na porta da igreja do castelo de Vitemberga, no que é hoje a Alemanha. Um acto normal naquele tempo, mesmo até na discordância ou no debate. Mas neste caso com consequências fracturantes, até hoje. Lutero seria o primeiro dos reformadores do século XVI, ou, melhor dizendo, das reformas que romperam com a unidade da Igreja. Nada mais seria igual no Cristianismo. Conhecida que é a biografia de Lutero, vejamos quais são os pontos fundamentais desta reforma que lhe leva a marca e o nome: Luteranismo.

Temos constatado que a Igreja ao longo do século XV vivera momentos de desconcerto e de crise, quase desagregadora. Mas seguiu em frente, lambeu as feridas e reestruturou-se. Não resolveu todos os problemas ou fechou todas as feridas, mas superou crises e revelou vitalidade. Os laços de comunhão postos em causa debilitaram-na, mas acima de tudo puseram a nu fraquezas doutrinais e estruturais, organizativas.

O Cisma do Ocidente – ou de Avinhão – e as teorias conciliaristas enfraqueceram a autoridade pontifícia, até a sua aura de santidade. Fazendo um pequeno parêntesis, recordemos que o Conciliarismo – ou teoria conciliar – é a doutrina que considera que os concílios ecuménicos, ou universais, se constituem como a autoridade suprema da Igreja, sobrepondo-o (condicionalmente ou por princípio) ao Papado. Ou seja, a autoridade do Concílio está acima da do Papa. Parece simples, mas esta posição foi deveras problemática e dilacerante na Igreja no Renascimento, após o Cisma de Avinhão (1378-1417), principalmente.

A doutrina conciliarista sustenta que um concílio é representativo de toda a Igreja, obtendo o seu poder diretamente de Cristo: por isso a ele todos estão sujeitos, a hierarquia da Igreja e todos os fiéis, mesmo o Papa. Tratou-se de um movimento de reforma da Igreja, que defendia a autoridade final em questões espirituais nos concílios. Dir-se-ia que era uma tendência mais “democrática” e menos absolutista na Igreja, mas que conheceu enormes dificuldades, não sem deixar abertas vias de debate e até pontos de ruptura. As reformas do século XVI partirão muitas vezes da base teológica que o conciliarismo pugnou.

 

Até Lutero

Também os nacionalismos na Europa Central criaram o ambiente político e cultural que permitiu ao Luteranismo atiçar-se de forma fulgurante, principalmente no Império Germânico. Os nacionalismos eram de matriz anti-romana, incorporando-se na velha “luta” entre o Império (Alemanha) e o Papado (ou Roma), entre Gibelinos e Guelfos, numa outra concepção dicotómica.

A Teologia não ajudava muito, por outro lado. Estava a afastar-se cada vez mais das bases, era quase propriedade de elites e sem chegar ao povo, que a via como uma construção de dogmas, postulados e teorias que nada lhe diziam e que ninguém explicava de forma clara e construtiva. Este fosso entre erudição e cultura popular na Teologia, de linguagem (Latim, Grego de um lado, línguas populares ou vernaculares do outro) abrirá o caminho para o posicionamento das reformas, que tocarão as classes populares de forma arrebatadora, como as heresias o faziam, ou pregadores inflamados como Savonarola. Ninguém explicava a Teologia, ou o fazia em língua vulgar (as línguas actuais que estavam a emergir na Europa).

A Teologia era cada vez mais especulativa, em demasia até. Afastava-se cada vez mais da fontes patrísticas e quase nada se fundamentava nas Sagradas Escrituras. O grane trabalho que os teólogos deveriam ter feito estava por fazer, ou esquecido das preocupações centrais de Roma: um tratado geral e clarificador da Igreja, da Teologia enfim.

Havia muitas questões em aberto, por delinear e definir, explicar. Como a teoria conciliar, por exemplo. Esta falha na Teologia deixava aberturas a que muitos autores continuassem – e até cada vez mais – a defender proposições de antítese à Igreja, sobre a instituição desta, o primado ou potestade do Papa, ou do Concílio, além de questões de interpretação de fontes e autores cristãos. A Igreja quase adormeceu nesta definição teológica, esqueceu a preocupação de construir um corpo teológico e doutrinal coeso, forte e claro, capaz de evitar dúvidas ou alimentar querelas e debates excessivos e sem sentido. Ficou pois à mercê de pseudo-profetas como Savonarola ou críticos como Erasmo, Lutero, entre outros…

O povo de Deus, as grandes massas populares, estavam pois esquecidas ou anestesiadas na vetusta tradição de base latina, na salmodia e liturgia intermináveis, nos santorais e devoções públicas ou colectivas, procissões e litanias: tudo em Latim, de forma hierática, feudal e incompreensível. Muitos clérigos, a maior parte, esqueceram-se dos seus fiéis. Mas não todos, atenção, não todos… O povo, com efeito, necessitava de uma maior purificação de costumes, dos ritos litúrgicos e das manifestações de religiosidade popular, além de um melhor exemplo na vida do clero e na organização da Igreja, muito elitista então e sem comunicação com as massas. Era fácil seguir uma heresia atractiva, ou qualquer pregador: bastava falar na sua língua e apontar os defeitos da Santa Madre Igreja… Se se enquadrasse no clamor generalizado a favor de uma reforma de vida e de costumes, do clero e do povo de Deus, então tocaria num ponto fundamental que abrasaria corações e despertaria emoções.

Desejava-se, no princípio do século XVI, como já há muito, um regresso ao Cristianismo primitivo, genuíno, simples, de dimensão mais interior e não tão “de fachada”, sem os grilhões e decadências que a tradição, o costume e a rotina lhe foram acrescentando ao longo dos tempos. Falava-se, escrevia-se cada vez mais de forma espiritual, enveredando-se também ela via satírica, contra a observância farisaica dos ritos exteriores, contra o excessivo número de preceitos, leis, constituições mais de natureza humana e material do que divina ou espiritual.

Bastaria ler Erasmo de Roterdão, o seu “Enchiridion militis christiani” (“Manual do soldado cristão”), de 1503, a melhor síntese destas ideias, aspirações e sentimentos, uma obra que teve um êxito consumado na Europa. Não olvidemos também que a tipografia de caracteres móveis desenvolvida por Gutemberg em meados de Quatrocentos permitia a maior produção e circulação de panfletos, livros, manuais, etc., onde estas ideias se plasmavam e recebiam mais atenções e leituras.

A pobreza, a contrastar com a opulência romana, as cortes e a Igreja embrenhadas no Renascimento artístico e cultural, a todos este contexto acima enunciado, criaram pois o ambiente propício para que surgisse a Reforma. Que queria apenas reformar Igreja. Mas que acabou se tornar protestante e uma cisão, até hoje.

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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