Cismas, Reformas e Divisões na Igreja – XXXVII

Girolamo Savonarola

Girolamo Savonarola

Savonarola… um nome que suscita curiosidade, estranheza, condenação, inquietações… um nome de um frade da Ordem dos Pregadores (Dominicanos), que abrasou Florença e a Igreja com os seus sermões, profecias, em defesa de uma purga moral da Cristandade e de uma preparação severa para o fim dos tempos. Reis, Papa, poderes vários, ninguém escapou à verve crítica deste acutilante pregador na Florença renascentista, que ficou conhecido por suas profecias, denúncias e clamores de reforma na Igreja.

Girolamo (ou Jerónimo) de Savonarola nasceu na Emília-Romagna, na bela cidade de Ferrara, a 21 de Setembro de 1452. Provinha de uma família antiga da cidade. Desde sempre revelou os seus dotes intelectuais, dedicando-se ao estudo, enveredando pela Filosofia e Medicina, dois saberes então interligados. Em 1474, em Faenza (cidade de onde provém a faiança), não longe de Ferrara, ouviu um frade agostinho pregar um sermão que o tocou de forma profunda. O seu arrebatamento foi enorme. Lamentando a sua existência até então, decide renunciar ao mundo. Para o efeito, ingressa numa ordem religiosa, a dos Frades Pregadores, mais conhecidos por Dominicanos (devido ao seu fundador, Domingos de Gusmão). O convento de Bolonha, o maior da ordem e importante casa de estudos, foi o seu destino. Os dominicanos eram na altura uma das mais importantes ordens religiosas, possuidoras de casas de estudos de renome e de grandes teólogos na sua história, além de estarem profusamente ligados às universidades, à Inquisição e à hierarquia da Igreja. Todavia, os seus pais não souberam da sua entrada na vida religiosa.

Como revelará mais tarde, tomou consciência também da degradação de costumes da época, da “depravação” e decadência da sociedade, e especial da Igreja. Estava-se no Renascimento, época de assunção de ideias racionalistas, de pensamento mais crítico e de revalorização do conhecimento antigo. A instituição Igreja não vivia também a sua época mais austera e pia. Tudo isto causou forte impressão a Girolamo. Logo no seu noviciado, diga-se.

 

Contra a “decadência da Igreja

O jovem frade entregou-se bem cedo a um zelo e observância estritos e rigorosos da sua forma de vida, com severas práticas ascéticas e austeridade absoluta. Depois de se ordenar sacerdote, foi incumbido da tarefa de mestre do noviciado. Formador, não descurou a escrita, sendo autor de reflexões filosóficas sobre Aristóteles, muito estudado pelos escolásticos dominicanos, e sobre o grande teólogo da Cristandade, também ele da sua ordem: São Tomás de Aquino.

Em 1481, ou 82, os seus superiores designam-no para pregador na cidade que era uma das capitais do Renascimento: Florença. Onde o pecado morava “ali ao lado”, diríamos hoje a partir das considerações de Savonarola. A vida pagã e pecaminosa, no seu dizer, campeavam naquela grande cidade da Toscânia, a decadência da moral, da disciplina dos costumes, avisava o jovem frade. As lutas e querelas sociais eram frequentes, com os grandes a dar mau exemplo aos seus concidadãos. Com destaque para a grande família florentina dos Médici, senhores da banca e do negócio do burgo do Arno e não só… Mas as pregações de Savonarola não surtiram efeitos nos primeiros tempos, com um método e forma de pregar que eram repulsivos para os florentinos, uma sociedade culturalmente mais exigente. Mas não esmoreceu, por isso, no seu zelo reformador. Pelo contrário…

Andou, entretanto, pelo Norte de Itália a pregar, entre 1485 e 1489, dir-se-ia a aperfeiçoar métodos e técnicas. Porque assim foi, a ver pelo que fará na década seguinte. Em Brescia, perto de Milão, por exemplo, explicou o livro da Revelação (Apocalipse), que o impressionava deveras e sobre o qual se centravam cada vez mais as suas pregações, escatológicas e ameaçadoras. A sua concepção da época era apocalíptica, enfatizando o juízo de Deus que ameaçava e pairava sobre os tempos de então, além da regeneração da Igreja que a ele se seguiria. Todo ele se abrasava também pela salvação das almas, entregando a sua vida a combater e extirpar o mal, de forma a santificar a vida de todos. Em 1489, todo ele inflamado de zelo e ardor pregacionais, regressa a Florença, o seu palco maior. Da sua ascensão, êxitos, combates e da sua vertigem final.

Em Agosto de 1490, Savonarola começou a pregar nos púlpitos da igreja do convento dominicano de São Marcos. O tema eleito foi a sua interpretação do Apocalipse. Êxito total. Florença ajoelhava-se a partir de então em reverência a ouvi-lo. Em São Marcos, depois na Catedral (Duomo de Santa Maria dei Fiori), nas praças: a sua influência crescia, o seu poder sobre as massas também, a turba de gente seguia-o cada vez mais em maior número e de forma fiel e cega. Ai de quem caísse no verbo verrinoso e ácido de Savonarola, tinha o destino marcado…

Em 1491, era nomeado prior de São Marcos. Cargo importante, social e politicamente, não apenas no âmbito religioso. Começou bem: recusou-se a visitar Lourenço de Médici, o que equivalia a mostrar os seus sentimentos em relação ao poder e governo de Florença. Os Médici eram patronos do seu convento, recorde-se… Lourenço continuou a sustentar o convento, e Savonarola também com a sua atitude crítica ao poder da cidade. Savonarola praticava uma vida religiosa de auto-mortificação, de quaresmas perpétuas (jejuns e abstinência), pobreza e ascetismo, de observância estrita da sua regra. Trabalho e estudo eram obrigatórios. De cinquenta frades à sua chegada, em pouco tempo atingiram-se os 238, com Savonarola.

Os seus sermões continuavam ásperos, flagelando a sociedade na sua vida imoral, as vãs glórias, o hedonismo florentino, os vícios, a frivolidade, a maldade, a tirania e os abusos: era visto já como profeta e muitos se contraíam perante o seu verbo feroz. Acusou os Médici (Pedro de Médici seria mesmo expulso da cidade…), depois o Papa Alexandre VI Bórgia e grande parte do clero, a quem acusou de imoralidade, corrupção, libertinagem, vício e depravação, principalmente à Cúria Romana. A partir de 1493 fulminava de forma agreste o papado e o clero, príncipes e cortesãos. Carlos VIII, rei de França, que invadira a Itália, não escaparia às profecias de Savonarola, que o considerou o vingador de tudo o que de mal se abatia sobre o mundo. A invasão pareceu mesmo a muitos como o cumprimento das profecias do frade.

Savonarola impôs em Florença uma teocracia, com novos poderes, inspirada nos preceitos pregados pelo dominicano. Obras de Ovídio, Dante, Boccaccio, Botticelli etc., entre outros, foram queimadas, como muita gente deitou fora os seus mais ricos pertences na praça pública. Em retaliação a todo este clima, o Papa excomungou Savonarola em 12 Maio de 1497, e ameaçou uma interdição em Florença. Uma república de moralidade e tirânico controlo da fé e da doutrina aplacou-se sobre Florença. Cairia em desgraça, o povo começou a levantar-se contra ele: em 23 de Maio de 1498 seria enforcado e queimado na praça pública, em Florença. Não foi herege na fé, mas desobediente e radical reformador.

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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