Cismas, Reformas e Divisões na Igreja – XLI

João Calvino

João Calvino

Para muitos foi o maior teólogo protestante. João Calvino. Outros até o alcandoram a um estatuto só superado por Santo Agostinho de Hipona, no Ocidente. Não nos interessam aqui os “rankings”, mas estamos a falar de um teólogo largamente seguido. Calvino nasceu na França, em Noyon, a 10 de Julho de 1509, e faleceu em Genebra (Suíça), a 27 de Maio de 1564. Não conheceu pessoalmente Lutero, mas como este foi também um dos maiores reformadores de Quinhentos e com uma influência multissecular e mundial, um radical que abalou a Igreja e com ela cindiu, intencionalmente…

Lutero provinha de uma família camponesa da Saxónia, era filho de um mineiro; Calvino pertencia à classe média francesa, filho de um advogado, que exercia Direito Civil e Canónico em Noyon, sendo secretário da diocese homónima. Lutero tornou-se frade agostinho, sacerdote; Calvino era um leigo, formado em Direito e Humanidades. Lutero tinha humor, força, algum populismo na linguagem e um estilo um tanto vulgar, apesar de eloquente; Calvino era clássico, culto e refinado, sistemático e racional, sem humor, usava a lógica e a autoridade de mestre em vez da vergasta moral e discursiva como o alemão. Sem insultos e sem demagogia. Tudo em Francês, com Lutero fazia em Alemão. Este era um místico talvez, enquanto Calvino era um escolástico. Lutero apresentava tudo de forma tormentosa e verrinosa, Calvino articulava tudo, com método, norma e organização, a lógica… Por isso os seus discípulos franceses chamariam ao seu movimento “religião”, o que lhes ficou caro, pois foram excomungados.

Foi educado como um bom “católico” por sua mãe, a “bela e devota” Jeanne Le Franc, que o levou aos santuários. Foi para Paris estudar, entre 1521 e 1523, imbuído numa educação católica tradicional. Mas demonstrava já cada vez mais rigorismo na sua conduta. Passou pelos colégios de La Marche e depois pelo de Montaigu, tendo uma bolsa de estudos, mas para estudar Teologia. Todavia, em 1528, seu pai determina que mude para Leis (Direito), para lhe seguir no ramo familiar.

 

Calvino e a Teologia

Mas as influências de teólogos de Paris sobre o jovem Calvino falavam mais alto que as ordens do pai. Mas na realidade teve que obedecer ao pai e foi para Orleães estudar Direito. Mas com a cabeça na Teologia. Entre o dever e a paixão, Calvino forjou a personalidade que daria forma à sua teologia reformadora e ao seu estilo. Fala-se de uma “conversão” no jovem Calvino, que nunca fora um cristão muito fervoroso, mas no qual nutria um crescente sentimento religioso e um olhar crítico. Demorou-se entretanto um ano em Orleães, mudando-se depois para Bourges, onde começou a pregar em privado. Aspirava a tornar-se sacerdote, mas tal nunca viria a suceder. Em 1531 está de novo em Paris, já conhecedor de Grego, Latim hebraico, relacionando-se também com eruditos franceses.

Naquela época, Francisco I, rei de França, estava a perseguir e maltratar os protestantes franceses. Calvino era já doutor em Direito, aos 23 anos, mas cada vez mais focado na Teologia. Pouco se sabe da sua juventude, na verdade, apontando-se Calvino como reservado e até introvertido, sem muitos amigos. Mas muito ágil mentalmente, uma memória notável e grande capacidade de trabalho (diz-se que estudava todos dias das cinco da manhã à meia-noite…). Nunca esqueceu os relatos do seu pai sobre as faltas e problemas do clero em Noyon, típicos na Igreja da época, que o marcaram desde sempre. A sua estricta e disciplinada ética laboral eram marcas também da sua personalidade, que adjudicaria à sua reforma depois.

Em 1533 Calvino estava ligado à Reforma. Como? Ajudou supostamente, em Paris, a redigir o discurso do amigo Nicolau Cop em defesa das teses de Lutero. Tiveram ambos que fugir. Calvino nunca mais voltaria à sua França natal (dentro dos limites geográficos de então, diga-se) desde então. Em 1536 publicou, em Basileia, a sua obra fundamental Institutio religionis Christianae (“Instituição da Religião Cristã”), o manual da sua doutrina. Calvino já antes tinha publicado, mas nada com esta envergadura. Tomou a defesa dos “protestantes” franceses, os “huguenotes” como depois se lhes chamaria, atacou os ensinamentos da Igreja e defendeu o pensamento determinante da sua própria fé, a doutrina de Deus soberano. Não apenas na religião, a obra é importante na literatura e língua francesas. A obra encerra uma crítica ácida à Igreja. Criticava, por exemplo, a vida dos mosteiros, que compara a bordéis. Calvino pretendia a reforma da Igreja e de todos os indivíduos, considerando que a institutio é “a organização da sociedade daqueles que acreditam em Jesus Cristo”. Entre 1538 e 1541 viveu em Estrasburgo, passando por outras cidades no vale do Reno.

Estabeleceu-se depois em definitivo na Suíça, mais precisamente em Genebra. A partir de 1541 esta cidade é a sede das suas reformas, aí exercendo uma poderosa influência. Pretendia mesmo transformar a cidade de má reputação numa outra cidade, onde um rígido código moral regularia a vida de todos. A ética laboral de Calvino era também marcante, como o será nas comunidades que abraçarão a sua doutrina no futuro. A tradução da Bíblia em Genebra, no seio de comunidades de perseguidos e exilados, num tamanho reduzido e transportável, ajudariam ao sucesso da reforma calvinista. Genebra era uma cidade segura, porto de abrigo de reformadores, intelectuais em ruptura com a Igreja. Ali Calvino redigiu mais de mil carta e publicou mais de cem obras, além de quatro mil sermões, embora sejam cifras por comprovar.

O seu labor em prol da Reforma era determinado, também no sentido de impor a forma de vida dos cristãos aos seus seguidores, criando uma “cidade santa” em Genebra, dir-se-ia. Residiu aqui entre 1541 e a sua morte, com passagens por outras localidades. Em Genebra travou grandes lutas com as autoridades e algumas famílias influentes (os “libertinos”). Enfrentou alguns adversários teológicos, o mais famoso de todos sendo o espanhol Miguel Servet, que negava a doutrina da Trindade. Servet, fugindo da Inquisição, foi parar a Genebra, onde acabou julgado e executado na fogueira em 1553. Calvino terá tomado parte da sentença, o que é a mancha da vida do reformador.

Calvino enviuvou em 1548. Manteve a sua obra reformadora na cidade, atraindo refugiados religiosos, que depois regressariam com a sua fé calvinista. Calvino exerceu enorme influência sobre a comunidade, não apenas no aspecto moral e eclesiástico, mas em outras áreas. Em 1559 tornou-se cidadão de Genebra, oficialmente. Ajudou a fundar instituições, como a futura Universidade, pregou, publicou. João Calvino faleceu com quase 55 anos, em 27 de Maio de 1564. Sobre a sua doutrina, falaremos na próxima semana.

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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