Bengala e o Reino do Dragão – 48

O cativeiro de Manuel Marques

O cativeiro de Manuel Marques

Após dez anos de actividade a missão no Ngari, Tibete Ocidental, fora desactivada, mas nem por isso se deram por vencidos os valorosos padres. Em Junho de 1636 chega a Agra, vindo de Goa, o padre António Pereira que um mês depois, acompanhado pelo experiente Alain dos Anjos, parte para Srinagar, nos contrafortes do Himalaias, disposto a seguir dali para o Tibete se as condições o permitissem. A 17 de Setembro, o visitador Francisco de Castro propõe ao provincial de Goa a transferência dos recursos reunidos na missão tibetana em Agra para a do Grande Mogol, contudo, Anjos acabaria por falecer em Srinagar, deixando uma vaga que seria preenchida em Janeiro de 1637 com a chegada de Stanislaus Malpichi, que aí se junta a António Pereira. A esperança de reabrir a missão mantinha-se inabalável! Em Srinagar, apenas a alguns dias de caminhada do colo de Mana, os padres aventureiros estavam a um passo do Tibete, embora fosse um passo gigante. Nessa Primavera o rei de Guge – a agir por conta do rei de Ladakh, o nosso conhecido Sengge Namgyal – pede o regresso dos missionários portugueses. Porém, cautelosos, e ainda a aguardarem ordem superior, Pereira e Malpichi não abandonam a pequena aldeia de Srinagar. A tão esperada ordem de Roma só chegaria em 1640. E com a ordem chegavam novos reforços prontos a reabrir a missão. Eram eles, Tomé de Barros, Inácio da Cruz e Luís da Gama, conduzidos por Manuel Marques, quem mais haveria de ser…

Nesse Verão, Malpichi e Marques partem para o Tibete mas são feitos prisioneiros no colo de Mana, e fogem. Marques, porém, tem a infelicidade de ser recapturado e não mais verá a já sua terra portuguesa no Oriente. Afinal, o convite do rei tibetano não passara de um insidioso ardil. A 25 de Agosto de 1641, Barros, Cruz e Gama estão já de regresso a Agra e no ano seguinte os padres recebem carta do infeliz Manuel Marques encarcerado em Tsaparang. Ao lê-la constatam que os tibetanos recusam-se terminantemente a libertar o seu compatriota, e a verdade é que ele acabaria por morrer em data desconhecida num, de novo, enclausurado e xenófobo Guge. Manuel Marques foi o primeiro jesuíta (na companhia de Andrade) a chegar ao Tibete e o único a aí permanecer para sempre. Após a sua morte não haverá mais jesuítas portugueses nesse distante canto do mundo, o que não significa que a Companhia de Jesus tenha renunciado a sua tarefa evangelizadora.

Sob as ordens do Superior Geral, a missão do Tibete renascerá em 1709-1715 com o italiano Ippolito Desideri que chegará a Lhasa acompanhado do seu superior hierárquico, o português Manoel Freyre. Ao contrário do transalpino, Freyre pouco tempo se queda na santificada capital dos lamaístas, tendo regressado à Índia. Freyre e Desideri – que permaneceria longos anos no Tibete e solidificaria a moderna tibetologia iniciada por António de Andrade – tinham passado antes por Shigatsé, onde depararam com o túmulo de Estêvão Cacela.

Dois outros missionários jesuítas, Grueber e D’Orville, tinham anteriormente (1661) visitado Lhasa. A épica jornada iniciara-se muito antes, em Lisboa, Abril de 1657, na companhia de dezassete outros jesuítas (entre os quais o flamengo Ferdinand Verbiest) que chegariam a Macau a 17 de Julho de 1658, após longa e árdua jornada no decorrer da qual vários perderam a vida. Como era prática comum entre os recém-chegados ao Oriente, D’Orville passou algum tempo em Macau, empenhando-se na aprendizagem da língua chinesa. Seria depois enviado como missionário à província de Shanxi, e daí fora chamado a Pequim, pois fora o escolhido para acompanhar Johann Grueber na viagem de regresso à Europa. Mas não era uma viagem qualquer. Grueber fora incumbido de, em Roma, defender o bom nome do jesuíta astrónomo Adam Schall contra o qual pendia a gravosa acusação de “promover práticas supersticiosas” (motivada pelos seus trabalhos na elaboração do calendário chinês), a célebre Questão dos Ritos que tantos conflitos provocaria.

Viajar nos mares era, nessa época, uma tarefa cada vez mais difícil e insegura. Tendo perdido o monopólio comercial, os portugueses iam sendo rapidamente substituídos pelos holandeses. Decidiram por isso os padres tentar uma viagem exploratória por terra. Caso fosse bem sucedida, teriam doravante os missionários alternativa segura para chegarem à China. O primeiro troço da jornada levá-los-ia a Goa. Grueber e D’Orville deixaram Pequim a 13 de Abril de 1661, tendo chegado à capital do Tibete três meses depois, passando aí os frios meses de Outubro e Novembro. Ao longo da atribulada jornada, D’Orville fez vários apontamentos geográficas, determinando com exactidão a longitude e a latitude dos lugares por onde passavam. Do Tibete os viajantes cruzaram a cadeia dos Himalaias e entraram no reino do Nepal, tendo permanecido um mês em Katmandu (Janeiro de 1662). De lá, desceram à bacia do rio Ganges e entraram na Índia a 8 de Fevereiro – visitas a Patna e Benares – antes de chegarem a Agra (31 de Março), a antiga capital do império mongol. D’Orville, no entanto, exausto pela jornada e gravemente doente, acabaria por morrer uma semana depois.

Joaquim Magalhães de Castro

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