A unidade faz-se a caminhar

A UNIDADE FAZ-SE A CAMINHAR

Finalmente! Somos irmãos!

“Finalmente!”, foi a exclamação do Papa Francisco ao encontrar-se com o líder da Igreja Ortodoxa Russa, o Patriarca de Moscovo, Kirill, na primeira reunião na história entre os líderes religiosos. Já analisámos na semana passada o contexto desta reunião. Hoje, falemos das suas significações e alcance, importância e consequências. À luz da Declaração Conjunta assinada por ambos, mas também no que deriva das suas personalidades e acção enquanto líderes religiosos.

«Finalmente! Somos irmãos!», disse Francisco em Espanhol, no fim do encontro e da assinatura. Durante a conversa, Kirill referiu que «agora as coisas serão mais fáceis [entre ambas as Igrejas]». O Papa afirmou, em resposta, que «está claro que essa é a vontade de Deus». O Patriarca, no momento do abraço fraterno, terá ainda dito: «Mesmo que as nossas dificuldades não estejam ainda resolvidas, tivemos a possibilidade de nos encontrarmos e isso é belo». Mais do que o texto, previamente acertado pelos assessores diplomáticos de ambas as partes, as emoções e os gestos revelam o teor e a importância do documento, a boa vontade e o início do “degelo” da quase milenar ruptura entre ambas as Igrejas. «Temos o mesmo Baptismo, somos bispos. Falámos das nossas Igrejas e concordámos que a unidade se faz a caminhar», afirmou o Papa Francisco, ao mesmo tempo que sublinhava ter sentido a «consolação do Espírito» no diálogo com o Patriarca de Moscovo e de Todas as Rússias. Daí o «grande sinal de esperança» que foi aquele «momento que dá coragem e ânimo para continuar tentando construir mais relações de ponte, encontro e diálogo», como recordou o Secretário de Estado do Vaticano, cardeal D. Pietro Parolin.

A Declaração Conjunta aborda âmbitos de colaboração e de diálogo com um particular enfoque para a situação dos cristãos no Médio Oriente. «O nosso olhar dirige-se, em primeiro lugar, para as regiões do mundo onde os cristãos são vítimas de perseguição. Em muitos países do Médio Oriente e do Norte de África os nossos irmãos e irmãs em Cristo veem exterminadas as suas famílias, aldeias e cidades inteiras», pode ler-se no texto da Declaração Conjunta. Francisco e Kirill exortam a comunidade internacional à união para que se ponha termo «à violência e ao terrorismo». Apelam assim para a paz, para a «ajuda humanitária» aos refugiados e referem o martírio dos cristãos. O jihadismo islâmico radical e as perseguições aos cristãos no Médio Oriente são uma das grandes preocupações dos dois líderes cristãos.

O restabelecimento da unidade dos cristãos das duas Igrejas é também um dos pontos sensíveis da Declaração. Como uma série de outras questões, que a mesma menciona: ateísmo, a secularização da sociedade contemporânea, o consumismo, as migrações, a importância da família e do matrimónio entre homem e mulher e as preocupações relativas ao aborto e à eutanásia.

 

De olhos postos no mundo actual

Ambos apelam também à «acção urgente da comunidade internacional para prevenir nova expulsão dos cristãos do Médio Oriente», para que a mesma «faça todos os esforços possíveis para pôr fim ao terrorismo valendo-se de acções comuns, conjuntas e coordenadas», mas de modo «responsável e prudente». Clamam ainda os dois líderes aos cristãos para que orem para que Deus «não permita uma nova guerra mundial».

A preocupação de Francisco e Kirill é global, humanitária no seu todo, para lá do Cristianismo, quando exprimem igualmente a sua «compaixão pelas tribulações sofridas pelos fiéis doutras tradições religiosas, também eles vítimas da guerra civil, do caos e da violência terrorista». Rememoraram também, com ênfase, a violência que já causou milhares de vítimas na Síria e no Iraque, os milhões que ficaram sem casa e a urgência de restabelecer a paz civil. «É essencial garantir uma ajuda humanitária» às populações martirizadas, clamam, exortando a que tudo se faça para a libertação também de pessoas raptadas.

A Declaração está altamente focada nos tempos que correm, alertando para «o êxodo maciço dos cristãos» do Médio Oriente, a preocupação com as ameaças à liberdade religiosa, a importância do diálogo inter-religioso e a responsabilidade dos líderes religiosos na recusa de «acções criminosas» em nome de Deus. Manifesta preocupações com a Europa, afirmando que a integração europeia não deve recusar o respeito das identidades religiosas, além de recordar que os países ricos não podem ignorar a sorte de milhões de migrantes e refugiados, nem a extrema necessidade e a pobreza, a miséria. «A crescente desigualdade na distribuição dos bens da Terra aumenta o sentimento de injustiça perante o sistema de relações internacionais que se estabeleceu», reforça a Declaração.

O conflito na Ucrânia, tema muito delicado na geopolítica russa, merece uma referência muito clara na Declaração: «Convidamos todas as partes do conflito à prudência, à solidariedade social e à actividade de construir a paz». Os dois líderes religiosos, nesse sentido, pedem às Igrejas para «trabalhar para se chegar à harmonia social» e não fazer parte do conflito ou não contribuir para que o mesmo alastre.

 

Irmãos na fé cristã

Francisco e Kirill, como se auto-denominaram, acrescentam que se encontraram «longe das antigas disputas» europeias e, por isso, sentem «mais fortemente a necessidade dum trabalho comum entre católicos e ortodoxos». O caminho da união. O documento não resolve, no entanto, nenhuma das diferenças doutrinais e eclesiásticas persistentes entre a duas Igrejas, mas abre o caminho e confere esperança e confiança. As secções finais do texto apelam, nesse sentido, aos católicos e aos ortodoxos a «trabalhar juntos fraternalmente a Boa Nova divina da salvação» e a «dar testemunho conjunto do espírito da verdade nestes tempos difíceis».

A Declaração acaba com uma oração a Maria, quem foi invocada pelos nomes de «Louvada Virgem Maria» e «Santa Mãe de Deus».

Francisco agradeceu a «humildade fraterna» do Patriarca russo e os seus «bons desejos de unidade». O Patriarca, por seu turno, ressaltou nas suas declarações a abertura do encontro com o Papa e as preocupações com o «futuro do Cristianismo».

Um documento que mais do que tentar resolver ou reavivar a desunião do passado, pretende enfrentar com esperança e confiança o presente e o futuro da fé crista, fonte e caminho da salvação e do bem comum.

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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