Padre José Antunes da Silva, Conselheiro Geral dos Missionários do verbo Divino em Roma

Padre José Antunes da Silva

«Um dos nossos desafios é a interculturalidade».

Os Missionários do Verbo Divino estão a ganhar terreno na Ásia com o crescente número de novas vocações, sustenta o padre José Antunes da Silva. A’O CLARIM, o conselheiro geral da congregação em Roma fala do estabelecimento das missões em Myanmar e no Bangladesh, dos desafios que atravessam no mundo e do trabalho efectuado pelo Papa Francisco no Vaticano. Macau também é tema de conversa.

O CLARIMPode descrever-nos a natureza do seu cargo em Roma?

Pe. JOSÉ ANTUNES DA SILVA – Sou membro do Conselho Geral dos Missionários do Verbo Divino. O meu papel, juntamente com os outros conselheiros, é ajudar o Superior Geral a coordenar o trabalho da congregação em todo o mundo e encorajar os nossos membros e colaboradores na sua vida e missão.

CLQuantos novos missionários terminam os estudos por ano e recebem a primeira missão?

P.J.A.S. – Nos últimos dez anos houve uma média de cem novos missionários (irmãos e sacerdotes) por ano que professaram os votos finais e tiveram a primeira missão. A grande maioria é proveniente da Ásia, essencialmente da Indonésia, da Índia e do Vietname. E destes, a maior parte é nomeada para uma missão fora do seu país de origem. Temos sido abençoados com muitas vocações na Ásia.

CLQuais são os desafios que enfrentam no mundo?

P.J.A.S. – Um dos desafios é a interculturalidade. Hoje em dia vivemos e trabalhamos em contextos multiculturais nas nossas comunidades, paróquias e escolas, entre outros. Tudo isto exige um processo contínuo de diálogo com as pessoas provenientes de outras culturas; aprender com elas e criar em conjunto espaços onde todas se sintam em casa. Além disso, há alguns países onde é muito difícil realizar trabalho missionário por causa de situações políticas e económicas, e de guerras e violência, como por exemplo na Libéria, no Congo, no Sudão do Sul e na Venezuela. Todavia, os nossos missionários continuam lá com as pessoas, partilhando as suas vidas e dificuldades. Falar em nome da verdade e justiça, ser a voz dos pobres e marginalizados, assim como um ambiente de dificuldades e sofrimento, vão certamente ser por muito tempo alguns desafios da Igreja em geral e dos Missionários do Verbo Divino em particular.

CLE na Ásia?

P.J.A.S. – A presença de várias religiões convoca-nos a dialogar entre religiosos. Lembro-me, por exemplo, do trabalho realizado na Índia pelos nossos Centros de Diálogo. Os refugiados são também outro desafio, bem como as questões relacionadas com o Ambiente. Vale a pena lembrar o trabalho, por exemplo, na Indonésia, no lóbi efectuado na área da ecologia e protecção do Meio Ambiente ou do nosso trabalho conjunto com outras pessoas e instituições na luta pela paz e justiça.

CLNa forja está o estabelecimento de várias missões na Ásia, tais como em Myanmar e no Bangladesh. O que pode avançar de momento?

P.J.A.S. – Provavelmente, após o Ano Novo, duas equipas de missionários do Verbo Divino vão estabelecer missões em Myanmar e no Bangladesh. Os bispos destes dois países pediram-nos para que fôssemos para lá e ajudássemos, essencialmente na formação do clero e de leigos locais para exercerem o seu trabalho social e pastoral. Estamos felizes por dar o nosso contributo à Igreja destes países, onde os católicos são uma pequena minoria. A recente visita do Papa Francisco aos dois países foi uma inspiração para nós, o que de certa forma confirma a decisão que tomámos em aceitar o convite dos bispos para trabalhar em Myanmar e no Bangladesh.

CLTrabalhou como missionário no Gana. Qual é a actual situação da missão em África?

P.J.A.S. – A congregação está presente em vários países africanos. Através das suas paróquias, escolas e outros apostolados, colabora com as Igrejas locais e com as pessoas para criar melhores condições de vida e para cuidar dos pobres e sem-abrigo, além de contribuir para a reconciliação e a paz entre culturas e religiões. África também é um continente cheio de esperança para nós devido ao crescente número de jovens que estão a aderir à nossa congregação, especialmente no Gana e no Congo.

CL“Animação da Missão”, “Apostolado da Bíblia”, “Justiça, Paz e Integridade da Criação” e “Comunicação e Media” são as quatro dimensões características da espiritualidade e foco da SVD. O que tem a dizer sobre a sua importância em geral?

P.J.A.S. – Estas quatro dimensões são, de alguma forma, os nossos traços familiares. É claro que são referentes aos ministérios e apostolados específicos que temos em diversas áreas. No entanto, são atitudes básicas, por exemplo quando promovemos grupos de estudo bíblico ou publicamos revistas. Gostaríamos que todos os missionários do Verbo Divino e os nossos leigos pudessem ser homens ou mulheres que se inspiram com a Palavra de Deus, colaboram com os outros na missão, chegam a outras pessoas numa atitude de diálogo e trabalham para transformar o mundo.

CLQue avaliação faz ao trabalho do Papa no Vaticano?

P.J.A.S. – Há vários aspectos que aprecio no Papa Francisco. Gostaria de mencionar apenas alguns… O Papa Francisco quer repor o Evangelho no centro da vida e do trabalho da Igreja. E é a partir do Evangelho que todas as suas acções e palavras podem ser entendidas. Esta abordagem originou uma mudança na linguagem da Igreja. O Papa Francisco sonha com uma Igreja serva, uma Igreja acolhedora onde todos podem encontrar piedade e caminhar lado a lado, em vez de estarem acima dos outros. Além disso, alguns dos seus gestos captaram a atenção do mundo para os dramas da actualidade. A sua visita a Lampedusa [Itália] marcou um ponto de viragem na forma como os Órgãos de Comunicação Social, os políticos e até mesmo a Igreja na Europa passaram a olhar para os refugiados. Infelizmente, por vezes esta maneira de ser do Papa cria oposição dentro da Cúria e na Igreja em geral.

CLEsteve recentemente em Macau. Qual foi a sua impressão pessoal como português que visitou o território pela primeira vez?

P.J.A.S. – É difícil explicar em palavras qual foi a minha impressão quando cheguei a Macau. De certa forma, embora não sabendo como me expressar, posso dizer que me senti em casa. Foram as ruas estreitas e as igrejas barrocas? Foi a história passada que ainda pode ser sentida à superfície de uma cidade moderna, agitada e movimentada? Sei que me senti em casa…

PEDRO DANIEL OLIVEIRA

pedrodanielhk@hotmail.com

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