A cartada do costume

Tentativa de Mudança de Regime na Venezuela

A cartada do costume

O método tem barbas, de velhinho, e mesmo assim a opinião pública preza em engolir as esparrelas que os Meios de Comunicação Social, cada vez mais descredibilizados, lhe fornecem ao almoço e ao jantar. É uma manipulação grosseira, que já nem se dá ao trabalho de maquilhar o produto, porque o reflexo pavloviano da populaça de tão previsível até doí. Veja-se a descarada tentativa em curso de mudança de regime na Venezuela. Há menos de uma semana, a Comunicação Social alegava que a ponte de Tienditas fora fechada pelo regime de Maduro para não permitir a entrada de ajuda humanitária, quando na realidade essa ponte fronteiriça, concluída em 2016, não foi ainda inaugurada. Nem um único veículo a atravessou. Prova disso é o bombástico título com que prendou o projecto um Órgão da Comunicação Social colombiano: “A ponte Tienditas foi construída para nada!”. Também, e ao contrário do que a “media” nos quer fazer crer, os camiões da suposta “ajuda humanitária” foram incendiados na Colômbia, e não na Venezuela, sendo às forças policiais deste último país imputada a culpa para assim legitimar uma mais do que anunciada agressão militar dos Estados Unidos. Já estou a ver o bigodaças Bolton, esse sinistro abutre, a salivar de tanta excitação.

Circula por aí um vídeo que mostra um dos apoiantes de Guaidó a atirar “cocktails molotovs” em direcção aos homens fardados. Só que um desses engenhos, como por acaso, aterra em cima do toldo de um dos camiões estacionados com a dita ajuda humanitária, desencadeando o incêndio que depois seria difundido pelo mundo inteiro como tendo sido ateado pelas forças de segurança venezuelanas, convencendo desse modo mais um substancial quinhão de uma humanidade cada vez mais adormecida frente aos ecrãs da necessidade urgente de entrar no País e correr com o malvado do Maduro. Essa gentalha, como recentemente ficou provado na martirizada Síria, é muita boa em encenações, – vulgo provocações – do género. Dessa e de outras formas se procuram “casus bellis” detonadores de conflitos que visam subjugar países inteiros aos interesses dos grandes conglomerados financeiros. Primeiro, tentam corromper os políticos que lutam em defesa dos seus países e dos seus povos. Caso a estratégia não resulte, livram-se deles e colocam no terreno um fantoche e vão criando aquilo que tomo a liberdade de designar de “casos de desgaste rápido”. O estratagema, como disse no início, tem barbas, de antigo.

Também a Cruz Vermelha colombiana deixou claro que não reconhece a “ajuda humanitária” proveniente dos Estados Unidos, pois, no entender dessa organização neutral e imparcial, se o fizesse estaria a participar “numa operação de destabilização de um país soberano”.

Como bem se sabe, a crise económica actual da Venezuela deve-se sobretudo ao criminoso cerco económico, financeiro e diplomático imposto por Washington, ainda no mandato do “nobeleado” Obama, em parceria, claro, com os oligarcas caseiros e as grandes corporações internacionais. Assim, é profundamente desonesto culpar Maduro de estar a matar de fome a sua gente. Alerto desde já que não me é de todo simpática a figura de Nicolás Maduro e da camarilha que o rodeia, mas goste-se ou não o homem foi eleito democraticamente e só o povo venezuelano o pode apear do pedestal onde o colocou.

Entretanto, as televisões vão convidando os desbragados papagaios do costume, financiados sabe-se bem por quem, para que disseminem mentiras sobre a Venezuela, tentando ganhar o sempre necessário aval da opinião pública, “legitimador” de uma intervenção militar que tem um único objectivo: pilhar os recursos naturais daquele país, sendo o petróleo o mais mediatizado e, pela sua quantidade, certamente o mais valioso. Se isso acontecer, como é previsível, teremos uma situação catastrófica de consequências imprevisíveis, de resto como têm vindo a alertar várias figuras públicas, entre as quais o insuspeito ex-primeiro-ministro espanhol José Luis Zapatero, que muito longe está de ser um anti-americano.

Afinal, o que é que se passou na Venezuela que merecesse tanta atenção da parte do “amigo” ianque? Em 1998, eleito democraticamente, assume o poder um Governo que decide nacionalizar a indústria do petróleo. O que foi ele fazer! Em pânico, a alta finança logo tratou de reunir para encontrar o caminho mais curto para recuperar o controlo de tão precioso recurso. Quatro anos depois, ajudados e encorajados pelo Governo dos Estados Undos, um grupo de golpistas tentam afastar Chávez do poder. Nas ruas a revolta popular não se fez esperar, e Chávez retoma as suas funções dois dias depois. Falhada a intentona, a administração Obama declara a Venezuela como “uma ameaça estratégica aos Estados Unidos”, impondo draconianas sanções económicas e bloqueando o sistema bancário do País. Claro que tão gravosas e ilegais medidas ao cabo de dezasseis anos iriam criar pesada mossa: economia de rastos, hiperinflação e milhares de pessoas a abandonar o País.

Adubado o terreno eis que emerge do nada um salvador da pátria que, de forma inconstitucional, se autoproclama “Presidente-interino da Venezuela”. Afinal quem é Juan Guaidó? Formado em “revoluções coloridas” e “mudanças de Governo”, numa escola sérvia de terrorismo patrocinada pelos “States” teve o seu estágio de fogo nas arruaças de 2014 e 2017, as denominadas “guarimbas”, antes do vice-Presidente norte-americano lhe ter telefonado dizendo-lhe que podia avançar para os holofotes. E ele aí está destinado a ser, concluída a mudança de regime, o mastim de guarda das maiores reservas petrolíferas do planeta. Pelos visto é também o escolhido pela União Europeia e pelo Governo de Costa como “Presidente legítimo” e “restaurador da democracia” na Venezuela. Não me sai da cabeça a imagem do ridículo Paulo Rangel, em bicos de pés a dizer-lhe – abusivamente, pois não está mandatado para tal – que podia contar com «o apoio de Portugal e da comunidade luso-venezuelana». E Guaidó, em camisa e pose de Obama, a olhá-lo com um sorriso condescendente, onde se podia ler: “Mas de onde é que me saiu este cromo?”. Senti vergonha alheia. Muita!

Joaquim Magalhães de Castro

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