MATA-BIRUS DA INDONÉSIA Uma tarde em Tapaktuan

Mata-Birus da Indonésia

Uma tarde em Tapaktuan

Não há palavras que descrevam a beleza natural que presenciei na viagem de Lamno a Meulobah, principal centro urbano da costa oeste.

Até Calang foi uma sucessão de baías, istmos, ilhotas desertas, areais, pequenas aldeias piscatórias, enfim, um paraíso sem um único turista! A lembrar o conflito, avistavam-se incontáveis casas incendiadas e barreiras militares da responsabilidade dos batalhões de pára-quedistas das Celebes, intervaladas com as da polícia militar, a nossa já conhecida Brimob.

Bem devagar passavam os veículos junto delas. O nosso motorista, por exemplo, desligava o rádio e saudava, saudava sempre, de tacha arreganhada. Saudava o motorista e também o faziam alguns dos passageiros.

Nas aldeias que iam surgindo ao longo do caminho, voltei a enxergar pessoas de tez clara, indício de comunidades mestiçadas, onde os luso-descendentes obrigatoriamente pontuavam.

Os pneus e os bidões das barreiras estavam pintados a vermelho e branco, as cores da bandeira indonésia. Nas barracas, sob fundo verde, frases do Alcorão em Árabe, para que não houvesse dúvidas: as forças militares eram boas muçulmanas. E, por isso, transmitiam a quem passava saudações cordiais, exceptuando um inesperado f*** y**, com o sinal apropriado, de alguém que certamente acordara mal-disposto.

Logo a seguir a Calang, na aldeia de Panga, avistei, pelo canto do olho, nos segundos que a velocidade da carrinha de caixa aberta permitiu, um canhão dos tempos coloniais junto a uma mesquita azul. Certamente, tinha agora função de talismã. Outras peças apareceriam diante dos aquartelamentos militares, algumas a servirem de estendal com roupa a secar, pintadas de azul-celeste e prateado, como é, de resto, apanágio um pouco por toda a Indonésia.

A certa altura, a estrada enveredou pelo interior. Kabuenh. Teunom. Só voltaríamos a vislumbrar costa junto à aldeia piscatória de Kubu Peribu. Finalmente, o mar aberto, sem istmos e com um quase contínuo areal até à cidade de Meulobah, pré-anunciada por um cemitério chinês e um outro com algumas cruzes, sinal da comunidade católica ali residente.

Compacto casario de madeira que alinhava varandas e alpendres nas ruas quadriláteras; um monumento à bala, erguido numa rotunda; uma mesquita com vários minaretes e um tráfego rarefeito de riquexós e motoretas, eis tudo o que pude recordar dessa simpática e adormecida cidadezinha com tartarugas a flutuarem nas águas da enseada que fazia de porto e que, dois anos depois – enseada, cidade e tudo mais – seria apagada do mapa em escassos minutos. Foi junto à costa de Meulobah que o tsunami de 2004 teve maior impacto.

De forma a poder prosseguir viagem, tive de mudar, no terminal rodoviário local, para um desses miniautocarros com barras nas janelas, cuja única função parece ser encarcerar os ocupantes em caso de acidente, impedindo-os de sobreviver.

Contrariamente ao que até então tinha acontecido, os meios de transporte eram agora de maior dimensão, e os passageiros em menor quantidade. Mantinham-se as barreiras militares, embora mais espaçadas, pois a região que atravessávamos era de pura selva, cobrindo sucessivas colinas onduladas. Mas que sítio mais desolador para se viver, apesar de todo aquele verde!

Sucederam-se Langka e Lame, onde, alegadamente, existiria também uma comunidade de luso-descendentes. Essa teria de ficar para a próxima.

Bahot situava-se já na parte sul do Aceh. O contingente militar passou a ser Mariner – os fuzileiros locais. Pintados no macadame, ressurgiram, com redobrada insistência, apelos à realização de um referendo na província.

De regresso à costa, reapareceriam as baías, os istmos e as praias. Labuhanji, Kotabaru, Samadura. Finalmente, Tapaktuan.

Nada melhor do que um sumo bem espesso de papaia para retemperar forças a apreciar o recorte das montanhas em redor da bela baía de Tapaktuan. Também aí as casas pareciam unidas umas às outras, com varandas, alpendres e pequenas janelinhas redondas como nos transatlânticos.

Porque será que, de repente, me deu para trautear a canção de Jobim, “Uma tarde em Itapuã”?

No cais, homens baixos e magros descarregavam sacos de cimento de um cargueiro ferrugento, recém-chegado de Padang, tarefa que se prolongaria até de madrugada.

Nessa noite, a refeição de nasi goreng (arroz frito) foi-me servida por um albino num restaurante que era também um estúdio fotográfico. O espaço estava equitativamente dividido. De um lado, um balcão e uma estante com produtos fotográficos e caixilhos de retratos. Do outro, uma daquelas cozinhas com comida pronta a servir, bastante práticas, mas que deixavam algo a desejar em termos de higiene.

No pátio interior da losmen Bukit, onde pernoitei, os filhos do proprietário aparelhavam um telescópio para observar estrelas, apesar de o céu ameaçar chuva da pesada. Porém os miúdos não desistiam, aguardando pacientemente que o tempo desanuviasse.

Na manhã seguinte, enquanto aguardava transporte para Subulsalam, dei por mim a tentar perceber a razão pela qual detesto terminais de autocarros, estações centrais de comboios e aeroportos. São ruidosos, a comida não presta e é cara, e, o pior: é aí que nos despedimos dos amigos e dos entes mais queridos sem saber se os vamos rever ou não. É aí que, apesar de rodeados de gente, nos sentimos mais sós.

Joaquim Magalhães de Castro

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