MACAU, TRÊS ANOS DEPOIS

Macau, três anos depois

Sinceramente pior

Eram nove horas da manhã quando, passados três anos, meti pé em Macau e senti exactamente o mesmo que me levou a deixar o território há uns anos. A cidade continua intratável a nível de condições de vida e sem grandes ideias para mudar esse fatalismo.

Apanhei um autocarro da TRANSMAC, por sinal precisamente do mesmo tipo em que circulava quando vivia no território, com destino à Avenida Almeida Ribeiro, tendo o percurso demorado pouco mais de 32 minutos. Três quilómetros em meia-hora é um exagero para um dia de semana, fora da hora de ponta. O estado a que chegou o trânsito de Macau é algo que dificilmente irá ter solução sem uma tomada de medidas drásticas. Segundo alguns amigos chineses, dificilmente será feito pelo actual Secretário da tutela. Como em outras áreas sensíveis da vida quotidiana do território, o trânsito continua à espera de melhores dias sem grandes expectativas de futuro. Nas viagens seguintes tive a oportunidade de verificar que há um esforço para melhorar a frota de autocarros mas mesmo assim insuficiente, porque continuam, mesmo os novos, a um nível muito baixo quando comparados com outros destinos mundiais de turismo.

Fiquei apenas dois dias em Macau, tempo suficiente para tratar dos assuntos que aí me levaram e pouco sobrou para visitar as novas atracções do burgo. A julgar pelo que vi no Galaxy e na sua nova ala de compras, e pela multidão, de dia e de noite, no Largo do Senado, acredito que a confusão seja generalizada. No Galaxy encontrei-me com uma amiga que ali trabalha, que me disse que lá tinha ido numa das horas mais calmas.

Durante a minha vida em Macau, apesar de ter residido tanto na Península como nas duas ilhas, sempre preferi a vivência da zona velha, especialmente no bairro do Mercado Vermelho, Toi San, etc. Aliás, tendo necessidade de encontrar um compromisso entre a genuinidade de Macau e a praticabilidade dos fáceis acessos, acabei mesmo, na última década, por adquirir residência na zona de Tao Pao Toi (Fortaleza do Monte). Estava no centro de Macau, mas longe da confusão!

No único dia que tive livre, 20 de Dezembro, aproveitei, desde manhã cedo, para comer “yum cha” junto ao Mercado Vermelho e por ali passear. Foi com agrado que verifiquei que aquela zona pouco mudou. Vi caras conhecidas de comerciantes que teimam em não desaparecer. Falei com proprietários de estabelecimentos que mesmo passados estes anos não esqueceram o “kuai lou” e ficaram surpreendidos de me voltarem a ver. Muitos deles recordavam-se do programa que foi transmitido num dos canais chineses sobre a viagem que eu, mais a minha família, estamos a empreender, mas que por problemas de saúde está por agora suspensa. Foi com agrado que soube que a reportagem feita em Mandarim foi retransmitida, pelo menos, três vezes no primeiro ano.

Na zona do Largo do Senado deparei com obras no Mercado de São Domingos, o que muito me agradou porque era uma reivindicação antiga dos vendedores de peixe. Pelo que vi parece que irão ficar bem instalados e com condições de continuar a desenvolver a sua actividade profissional com dignidade e condições de higiene. Um aplauso para os dirigentes “municipais” que parecem estar mais atentos aos anseios da população.

Fiquei ainda agradado com todo o esforço que tem sido feito na renovação da rede rodoviária e com os planos do Governo para 2017 em continuar com esta empreitada. Claro que provoca muitos inconvenientes à população no imediato, mas no futuro irá transformar-se em comodidade. Não entendi foi a razão do Governo ter “deixado cair” o Metro Ligeiro na Península, logo onde seria mais necessário, continuando, teimosamente, com a construção da estrutura na ilha da Taipa.

Sinceramente nunca fui apologista do Metro Ligeiro mas, sendo uma inevitabilidade que se aceita devido ao “lobby” da construção, pensava que sempre se tentaria colocar em primeiro lugar as necessidades da população. Ao cancelar as linhas da Península o Governo anula todas as vantagens que o Metro Ligeiro teria para os residentes em geral, passando o mesmo a ser apenas uma atracção para os turistas que irão circular entre os empreendimentos turísticos da Taipa e do COTAI.

Surpreendeu-me o declínio do nível de Português em tudo o que é publicado pela Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego. Não sei se estará relacionado com a mudança de chefias e pessoal responsável. A verdade é que a empresa que estava encarregada de grande parte das traduções foi posta de lado e a qualidade reflecte-se no que é dado a ler à população um pouco por toda a cidade.

Em conclusão, a minha Macau pouco mudou, mas como há três anos voltei a deixar para trás um território que pouco ou nada tem para oferecer em termos de qualidade de vida. Infelizmente, o desenvolvimento desenfreado do território tem deixado os seus residentes sem grandes opções. Há os que pelas suas condições económicas e sociais podem, a qualquer altura, deixar o território para uma escapadela para recarregar baterias num dos muitos países vizinhos ou mesmo na imensidão da Mãe-China. Mas os que por afazeres profissionais ou por impossibilidade financeira ou social não podem sair de Macau, sofrem com todo o desenvolvimento sem terem para onde ir nas horas livres. Os jardins perderam o seu encanto; Coloane nada mais tem para oferecer e nem mesmo a Ilha da Montanha pode servir de escape com toda a febre da construção que ali alastra.

João Santos Gomes

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