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A encíclica escandalosa
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“Humanae Vitae” foi publicada há 50 anos

A encíclica escandalosa.

A Igreja comemorou nestes dias os cinquenta anos da encíclica “Humanae Vitae”, publicada a 25 de Julho de 1968 pelo Papa Paulo VI. O desastre que se seguiu estava anunciado, ninguém tinha ilusões, muito menos o Papa Paulo VI.

Paulo VI publicara encíclicas ao ritmo de mais de uma por ano, desde o início do pontificado: “Ecclesiam Suam” (1964), “Mense Maio” e “Mysterium Fidei” (1965), “Christi Matri Rosarii” (1966), “Populorum Progressio” e “Sacerdotalis Caelibatus” (1967), até à “Humanae Vitae” (25 de Julho de 1968). A partir desse momento, a contestação e a crise foram de tal ordem, que Paulo VI não voltou a publicar nenhuma outra encíclica até ao fim do pontificado, dez anos depois.

É normal os Papas pedirem ajuda para a redacção das encíclicas, aproveitando livremente os contributos que lhes chegam. No final, trata-se de um documento papal e não importa quem sugeriu esta ou aquela frase, nem é costume os colaboradores darem-se a conhecer. No caso da “Humanae Vitae”, foi bem diferente: em vez de ajuda, Paulo VI recebeu traições.

O fogo de barragem da Comunicação Social assustou muitos e mostrou como a voz da Igreja era pequenina face ao poder dos seus opositores. Pior ainda, um grande número de padres e de bispos não entenderam o que estava em causa. Aparentemente, a biologia, a bioquímica prometiam à humanidade novos caminhos de felicidade, mais cómodos e seguros. Quem os poderia rejeitar?

Paulo VI não se deixou enganar: “a sociedade tecnológica consegue multiplicar as ocasiões de prazer, mas tem grande dificuldade em gerar alegria” (“Gaudete in Domino”, 1975). A indústria química fabricava prazer, mas estava a vendê-lo com publicidade enganosa. “Porque a alegria tem outra origem. É espiritual. O dinheiro, o conforto, a higiene, a segurança material não faltam com frequência; contudo o tédio, a aflição, a tristeza formam infelizmente parte da vida de muitos. Atinge-se às vezes a angústia e o desespero, que nem a aparente despreocupação nem o frenesim do gozo presente ou os paraísos artificiais conseguem evitar” (ibid.).

Paulo VI não tinha ilusões, como escreveu na própria introdução: “É de prever que estes ensinamentos não sejam acolhidos facilmente por todos”. E comenta que sempre foi assim na história da Igreja, que é, “à semelhança do seu divino Fundador, ‘sinal de contradição’”, como dizia o profeta Simeão no Evangelho. Só que, desta vez, Paulo VI sabia que ia ser muito mais grave que habitualmente.

A razão para, apesar disso, afrontar a opinião dominante num ponto tão sensível foi simultaneamente clarividência e generosidade. Como ele próprio escreveu na encíclica, “ao defender a moral conjugal na sua integridade, a Igreja sabe que está a contribuir para a instauração de uma civilização verdadeiramente humana; ela compromete o homem para que este não abdique da própria responsabilidade, para se submeter aos meios da técnica; mais, ela defende com isso a dignidade dos cônjuges”.

Aos poucos, a Igreja e sociedade começaram a compreender o mal profundo que os métodos anticonceptivos causam ao amor. A diferença, que alguns tardaram em captar, entre os métodos anticonceptivos e uma vida de casal que tem em conta os períodos inférteis não está em opor métodos “artificiais” e métodos “naturais”. Paulo VI era declaradamente a favor dos benefícios da técnica e dos progressos dos medicamentos e dos aparelhos artificiais. O oposto de “natural” é “antinatural”; em princípio, o “artificial” corresponde à natureza racional do homem; o perigo está no que é “antinatural”.

Paulo VI percebeu que a sua missão de Papa o obrigava a avisar o mundo da diferença entre os métodos anticonceptivos, que são antinaturais por contradizerem o amor, e o sentido de oportunidade, que faz parte do amor. Muitos, só passados cinquenta anos começaram a perceber a diferença.

Quase isolado, Paulo VI teve a generosidade de cumprir, mesmo com grande sacrifício, o seu próprio lema de Papa: “In nomine Domini” – “Em nome do Senhor”. E, contra os ventos da época, foi fiel a Deus e aos homens.

Foi a generosidade de Paulo VI (e o milagre realizado por sua intercessão) que levou Francisco a decidir canonizá-lo no próximo dia 14 de Outubro de 2018, em Roma.

José Maria C.S. André 

Professor no Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa

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